Capítulo 3
1Entretanto Moisés apascentava as ovelhas de Jetro, seu sogro, que era sacerdote em Madian. E um dia que êle tinha levado o gado para o interior do deserto, veio ao monte de Deus Horeb.[1]JETRO — Têm divergido os intérpretes por causa dêste nome, porque no v. 18 é chamado Raguel; nos Números aparece-nos o nome de Hobab. Esta contradição aparente foi resolvida por várias formas, sustentando o maior número que eram três nomes diferentes da mesma pessoa, o que não é impossível. Os modernos exegetas como Vigouroux, sustentam que Raguel é o pai de Jetro, e Hobab filho ou genro dêste último e cunhado de Moisés. Jetro e Hobab são chamados hoten de Moisés, denominação vaga que pode significar sogro e cunhado. Raguel é designado ab, pai de Séfora, mas não se diz em parte alguma que fôsse sogro de Moisés; e como a palavra ab tanto significa pai como avô, tudo leva a crer que fôsse o chefe de família, avô de Séfora e pai de Jetro, que era o sogro do legislador dos hebreus. Cfr. Vigouroux, ob. cit. HOREB — Etimològicamente significa terra sêca; hoje segundo tôda a probabilidade Aribeh, pico vizinho do convento de S. Catarina do Monte Sinai.
2E o Senhor lhe apareceu numa chama de fogo, que saía do meio duma sarça; e Moisés via que a sarça ardia sem se consumir.
3Disse pois Moisés: É necessário que eu vá reconhecer esta grande maravilha, que estou vendo, e por que causa se não consome a sarça.
4Mas o Senhor vendo-o vir a examinar o que via, chamou-o do meio da sarça, e lhe disse: Moisés, Moisés. Êle lhe respondeu: aqui estou.
5E Deus continuou a dizer: Não te chegues para cá: tira os sapatos de teus pés, porque êste lugar, em que estás, é uma terra santa.[2]TIRA OS SAPATOS DOS TEUS PÉS — Ainda hoje é sinal de respeito no Oriente.
6E disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abrão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó. Moisés cobriu o seu rosto, porque não ousava olhar para Deus.[3]EU SOU O DEUS DE ABRAÃO — Esta expressão liga o Êxodo ao Génesis. Deus renova na posteridade de Abraão, de Isaac e de Jacó as promessas feitas a seus antepassados; Moisés tem o cuidado de as repetir para manter a confiança no ânimo do povo, e incutir-lhe coragem para as provações do deserto.
7E o Senhor lhe disse: Eu vi a aflição do meu povo no Egito: ouvi o clamor, que êle levanta, por causa da crueza daqueles, que têm a intendência das obras.
8E sabendo qual é a sua dor, desci para o livrar das mãos dos egípcios, e para o fazer passar desta terra para outra terra boa, e espaçosa; para uma terra, onde correm arroios de leite, e de mel; para o país dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos fereseus, dos heveus, e dos jebuseus.
9O clamor pois dos filhos de Israel chegou a mim: eu vi a sua aflição, e de que modo êles são oprimidos pelos egípcios.
10Mas vem tu, e eu te enviarei a Faraó, para fazeres sair do Egito os filhos de Israel, meu povo.
11Disse Moisés a Deus: Quem sou eu, que vá a Faraó, e faça sair do Egito os filhos de Israel?
12Deus lhe respondeu: Eu serei contigo: e eis-aqui o sinal, que te dou, para tu conheceres, que eu fui o que te mandei. Depois que tu tiveres tirado o meu povo do Egito, tu oferecerás a Deus um sacrifício em cima dêste monte.
13Moisés disse a Deus: Visto isto, irei eu ter com os filhos de Israel, e lhes direi: O Deus de vossos pais me enviou a vós. Mas se êles me disserem: Que nome é o seu? que lhes hei eu de responder?
14Disse Deus a Moisés: Eu sou aquêle, que sou. Eis-aqui, prosseguiu êle, o que tu hás dizer aos filhos de Israel: Aquêle, que é, me enviou a vós.[4]AQUÊLE QUE É — Está aqui indicado o nome Deus, que se pronuncia vulgarmente Jeová, mas não é a pronúncia verdadeira desta palavra. Os hebreus não pronunciavam nunca o nome do Senhor; substituíram-no por Adonai. Mais tarde, quando se fêz a pontuação do texto sagrado, os massoretas conformaram-se com o uso da sua nação, e puseram as consoantes dêste nome com as vogais de Adonai. A verdadeira pronúncia é Iahvéh. Cfr. Strak, Grammaire hebraique.
15Mais disse Deus ainda a Moisés: Dirás aos filhos de Israel: O Senhor Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó me enviou a vós. Êste será o meu nome por tôda a eternidade, e debaixo dêste nome é que eu serei lembrado no decurso de tôdas as gerações.
16Vai pois, ajunta os anciãos de Israel, e dize-lhes: O Senhor Deus de vossos pais me apareceu. O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó me disse: Eu vim visitar-vos, e eu vi tudo o que vos tem sucedido no Egito:
17e eu resolvi tirar-vos da opressão dos egípcios, e fazer-vos passar para o país dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos fereseus, dos heveus, dos jebuseus: para uma terra, onde correm arroios de leite, e de mel.
18Êles ouvirão a tua voz, e tu com os anciãos de Israel irás ao rei do Egito, e lhe dirás: O Senhor Deus dos hebreus nos chamou. Por isso somos obrigados a fazer uma caminhada de três dias ao deserto, para lá sacrificarmos ao Senhor nosso Deus.
19Mas eu sei que o rei do Egito vos não há de deixar ir, se êle não fôr tocado duma mão forte.[5]O REI DO EGITO — Êste rei era Meneftá 1.°, décimo terceiro filho de Ramsés 2.°, que lhe sucedeu pela morte dos outros doze seus irmãos. Nos monumentos egípcios encontram-se várias referências a êste perseguidor dos hebreus.
20Eu pois estenderei a minha mão, e ferirei o Egito com tôda a sorte de prodígios, que obrarei no meio dêles; e depois disto êle vos largará.
21Eu farei que êste povo ache graça no espírito dos egípcios; e quando vós sairdes, não será com as mãos vazias.
22Mas cada mulher pedirá à sua vizinha, e à sua hospeda vasos de ouro e de prata, e vestidos. Com êles vestireis vós vossos filhos e vossas filhas, e assim deixareis despojados os egípcios.