Capítulo 10
1Então disse o Senhor a Moisés: Entra a Faraó: Porque eu endureci o seu coração, e o de seus servos, para fazer resplandecer na sua pessoa os prodígios do meu poder;
2e para que tu tenhas que contar a teus filhos, e a teus netos, quantas foram as pragas, com que eu feri o Egito; e quantas as maravilhas, que obrei entre êles; e para que vós saibais que eu sou o Senhor.
3Moisés pois, e Aarão entraram onde estava Faraó, e disseram-lhe: Eis-aqui o que diz o Senhor Deus dos hebreus: Até quando não quererás tu obedecer-me? Deixa ir o meu povo, para que êle me sacrifique.
4Se ainda resistires, e não quiseres deixá-lo ir, sabe que amanhã mandarei enxames de gafanhotos sôbre o teu reino,[1]ENXAMES DE GAFANHOTOS — São temíveis as invasões dos gafanhotos. Vêem-se legiões dêstes insetos atravessar o mar Negro, transpor o Mediterrâneo, indo para muito longe. Os esforços humanos são impotentes para pôr têrmo à devastação dêstes insetos. As fêmeas põem os seus ovos no mês de outubro, depositam-nos em terras sêcas e ao abrigo do vento; na primavera, pelos meses de março ou abril, nascem os novos insetos, que são mais pequenos do que a nossa mosca comum. Ao cabo de quatro transformações sucessivas, que duram nove a dez semanas, o inseto atinge o seu completo desenvolvimento. São numerosas as espécies desta família. Aquela de que nos ocupamos agora é a locusta migratória. Êstes gafanhotos devoram tudo; pastagens, árvores de fruto, sementeiras; invadem os aposentos, e quando têm fome nem a madeira escapa à sua voracidade. E contudo as devastações dos gafanhotos não são frequentes no Egito; não são desconhecidas nessa região, mas não estão habituados ali a êsse flagelo. Sepsius, Briefe aus Ægypten. Vigouroux conclui: "São bastante conhecidas para justificar a narração do Êxodo; não o são suficientemente para lhe tirar seu caráter milagroso." Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes.
5os quais cobrirão a superfície da terra, de sorte que dela não apareça nada, e comerão tudo o que a pedra não destruiu. Porque êles roerão tudo o que as árvores tiverem produzido nos campos.
6Êles encherão as tuas casas, e as de teus servos, e as de todos os egípcios, de sorte que nem teus pais, nem teus avós viram nunca tanta quantidade desde que êles nasceram na terra até o dia de hoje. Apartou-se logo Moisés de Faraó, e retirou-se.
7Mas os servos de Faraó disseram a êste príncipe: Até quando sofreremos nós êste escândalo? Deixa ir êstes homens, para que sacrifiquem ao Senhor seu Deus. Tu não vês que o Egito está perdido?
8Tornaram pois a chamar a Moisés, e a Aarão à presença de Faraó, o qual lhes disse: Ide sacrificar ao Senhor vosso Deus: Mas quais são os que hão de ir?
9Moisés lhe respondeu: Nós havemos de ir com as nossas crianças, com os nossos velhos, com os nossos filhos, e filhas, com as nossas ovelhas, e com os nossos gados: porque esta é uma festa solene do Senhor nosso Deus.
10Replicou Faraó: Assim seja o Senhor convosco, como eu vos hei de deixar ir, e às vossas crianças. Quem duvidará que nisto levais vós algum mau sentido?
11Não há de ser assim: ide somente vós os homens, e sacrificai ao Senhor: porque isto é o que vós mesmos pedistes. E no mesmo ponto os lançaram fora da presença de Faraó.
12Então disse o Senhor a Moisés: Estende a tua mão sôbre o Egito, para fazeres vir os gafanhotos, que subam a pôr-se na terra, e que devorem tôda a erva, que tenha ficado da chuva de pedra.
13Estendeu Moisés a sua vara sôbre o Egito, e o Senhor fêz que um vento, que queimava, assoprasse todo o dia, e tôda a noite. Chegada a manhã, êste vento abrasador levantou os gafanhotos,
14que vieram sôbre todo o Egito, e pararam em tôdas as terras dos egípcios numa tão espantosa quantidade qual nunca antes se tinha visto, nem jamais se tornará a ver.
15Êles cobriram tôda a superfície da terra e devastaram tudo. Comeram tôda a erva, e todos os pomos que nas árvores tinham escapado à pedra; e não ficou absolutamente nada nem nas árvores, nem da erva em todo o Egito.
16Pelo que a tôda a pressa chamou Faraó a Moisés, e a Aarão, e lhes disse: Eu pequei contra o Senhor vosso Deus, e contra vós.[2]CHAMOU FARAÓ A MOISÉS — A angústia de Faraó deixa entrever o que tem de extraordinário esta praga; os males que trouxe, as perdas que causou, e as aflições a que deu origem.
17Mas perdoai-me ainda esta vez o meu pecado, e rogai ao Senhor vosso Deus, que tire de mim esta morte.
18Moisés tendo saído da presença de Faraó, fêz oração ao Senhor;
19o qual tendo feito assoprar da banda do poente um vento fortíssimo, levou os gafanhotos, e os lançou no mar Vermelho. E não ficou nem um só em todo o Egito.[3]UM VENTO FORTÍSSIMO — Uma forte corrente de vento, um furacão, é o melhor agente de destruição duma nuvem de gafanhotos.
20Mas o Senhor obdurou o coração de Faraó, e êste não deixou ir o povo.
21Disse pois o Senhor a Moisés: Estende a tua mão para o céu, e formem-se na terra do Egito umas trevas tão espessas que se possam apalpar.[4]UMAS TREVAS — Os exegetas modernos concordam em que se trata aqui do khamsin, vento fortíssimo, que sopra da África. Dura perto de cinquenta dias, e daí lhe vem o nome, que significa cinquenta. No deserto levanta montes de areia, e sepulta caravanas inteiras. A história relata-nos a perda do exército de Cambises; modernamente sabemos de uma peregrinação muçulmana, que em 1838 foi vítima de um furacão terrível. Quando sopra violento obscurece o ar, e a terra fica mergulhada em trevas profundas. Mas estas trevas em nada se parecem com as que cobriram o Egito durante três dias. (Drieux, Bible.) O khamsin não sopra de noite. (Ebelling, Der Chamsin.) O khamsin é sempre muito quente, tolhe a respiração, e é impossível escapar à ação da poeira imperceptível, que penetra em tôda a parte, e que produz no organismo uma irritação violenta, causando um abatimento profundo, congestionando o cérebro, atacando a vista e o olfato. Se são êstes os efeitos do khamsin, soprando pouco intensamente, e com grandes intervalos, qual não seria o estado do Egito enquanto durou esta nona praga? Começa quando Moisés estendeu a sua mão; as trevas tendo uma duração superior à costumada, simbolizavam as trevas em que estava imerso o Faraó; o desconhecimento geral entre os habitantes daquela região; a exceção feita mais uma vez ao país de Gessen, imune dêste castigo, tudo põe em relêvo a intervenção direta de Deus, e nos faz considerar esta praga milagrosa, como as demais, tendo o mesmo fim, mover o Faraó a conceder a liberdade a Israel.
22Estendeu Moisés a sua mão para o céu: e umas horríveis trevas cobriram tôda a terra do Egito por três dias.
23Ninguém viu a seu irmão, nem se moveu do lugar, onde estava: mas em tôda a parte, onde habitavam os filhos de Israel, era dia claro.
24Então chamou Faraó a Moisés, e a Aarão, e lhes disse: Ide sacrificar ao Senhor: Fiquem somente as vossas ovelhas, e o vosso gado: E vão convosco as vossas crianças.
25Moisés lhe respondeu: Também nos hás de dar hóstias e holocaustos, que ofereçamos ao Senhor nosso Deus.
26Irão conosco todos os nossos rebanhos: Não ficará dêles nem uma unha, porque tudo havemos mister para o culto do Senhor nosso Deus: E tanto mais, que nós não sabemos o que se lhe deverá imolar, enquanto não chegamos àquele lugar.
27Mas o Senhor empederniu o coração de Faraó, e êste os não quis deixar ir.
28Disse pois Faraó a Moisés: Guarda-te de me tornares a aparecer; porque em qualquer dia, que me apareceres morrerás.
29Moisés lhe respondeu: Assim se fará, como tu disseste: Eu não te verei mais a cara.