Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 20

O Senhor anuncia ao povo os seus mandamentos. Temor, que teve o povo. Moisés o assegura. Ordens de Deus sôbre a construção de um altar.

1Depois falou o Senhor nêstes têrmos.

2Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei do Egito, da casa da servidão.

3Não terás deuses estrangeiros diante de mim.

4Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma de tudo o que há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem de coisa, que haja nas águas debaixo da terra.[1]NÃO FARÁS PARA TI IMAGEMFàcilmente se compreende o alcance desta proibição, que tem evidentemente por fim impedir a idolatria; mas não é lícito inferir daqui que fôssem proibidas, em absoluto, tôdas as representações e imagens; o próprio Moisés mandou esculpir querubins que colocou sôbre a arca (Êx 31, 18.19). Salomão procedeu da mesma maneira (3 Rs 6, 23; 7, 29-44). Demais as representações da Divindade despertam em nossa alma os sentimentos de adoração, amor e reconhecimento, como as imagens dos Santos nos lembram as suas virtudes e nos animam a imitá-los. As palavras seguintes aludem à idolatria egípcia; o culto do sol, adorado sob o nome de Ra, os animais, peixes e crocodilos, por exemplo o Boi Apis, etc. As palavras do texto compreendem-se bem desde que nos lembremos que se dirigiam a um povo, que acabava de assistir a essas práticas idolátricas.

5Não as adorarás, nem lhes darás culto: porque eu sou o Senhor teu Deus, o Deus forte, e zeloso, que vinga a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira, e quarta geração daqueles, que me aborrecem;

6e que faz misericórdia até mil gerações àqueles, que me amam, e que guardam os meus preceitos.

7Não tomarás em vão o nome do Senhor teu Deus: Porque o Senhor não terá por inocente aquêle, que toma em vão o nome do Senhor seu Deus.

8Lembra-te de santificar o dia de sábado.

9Trabalharás seis dias, e farás nêles tudo o que tens para fazer.

10O sétimo dia porém é o dia do descanso consagrado ao Senhor teu Deus. Não farás nesse dia obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu escravo, nem a tua escrava, nem a tua besta, nem o peregrino, que vive das tuas portas para dentro.

11Porque o Senhor fêz em seis dias o céu, e a terra, e tudo o que nêles há, e descansou ao sétimo dia. Por isso o Senhor abençoou o dia sétimo, e o santificou.

12Honrarás a teu pai, e tua mãe, para teres uma vida dilatada sôbre a terra, que o Senhor teu Deus te há de dar.[2]PARA TERES UMA VIDA DILATADANesta e em muitas outras passagens, Deus dá por sanção à sua lei penas temporais. S. Agostinho, no seu comentário ao Êxodo, diz: "Neste testamento, que se chama Antigo e que foi dado sôbre o monte Sinai, não se encontra outra promessa explícita senão de felicidade terrestre. Para homens grosseiros, recompensas grosseiras".

13Não matarás.

14Não cometerás adultério.[3]NÃO COMETERÁS ADULTÉRIOA vulgata traduziu non moechaberis. De fato o verbo naaph, que se encontra no original, significa adulterium committere, os Santos Padres dão-lhe porém mais lata interpretação. Por todos cita-se S. Agostinho. "Nomine moechiae omnis illicitus concubitus, atque illorum membrorum non legitimus usus, prohibitus debet intelligi. Exod quaest. LXXXI."

15Não furtarás.

16Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

17Não cobiçarás a casa de teu próximo: Não desejarás a sua mulher, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma, que lhe pertencer.

18Ora o povo ouvia os trovões, e o som da trombeta, e via os relâmpagos, e o monte coberto de fumo: e como estavam passados de mêdo, e de pavor, deixaram-se estar de longe.

19E êles disseram a Moisés: Fala-nos tu, que nós te ouviremos; e não nos fale o Senhor, não suceda que morramos.

20Respondeu Moisés ao povo: Não temais. Porque o Senhor veio para vos provar, e para imprimir em vós o seu temor, a fim de vós não pecardes.

21O povo pois ficou longe, e Moisés se chegou à escuridade, em que Deus estava.

22Disse outrossim o Senhor a Moisés: Dirás mais aos filhos de Israel: Vós bem vistes que eu vos falei do céu.

23Não fareis para vós nem deuses de prata, nem deuses de ouro.

24Far-me-eis um altar de terra, e oferecereis em cima dêle os vossos holocaustos, as vossas hóstias pacíficas, as vossas ovelhas, e os vossos bois em todos os lugares, onde o meu nome fôr lembrado. Eu virei a ti, e eu te abençoarei.

25Se tu me edificares algum altar de pedra, não o edificarás de pedras cortadas: porque êle ficará poluto, se vós empregardes na sua fábrica o cinzel.[4]ALTAR DE PEDRAEsta proibição dá a esta lei a prova da sua antiguidade. No tempo do Êxodo, o emprêgo do ferro não tinha ainda passado para o uso comum dos hebreus.

26Não subirás por degraus ao meu altar, para que se não revele a tua torpeza.[5]NÃO SUBIRÁS POR DEGRAUSEsta lei caducou quando se regulou o vestuário sacerdotal (Êx 28, 42).

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
📄 PDF
📄 Original