Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Milagres, que Deus faz a favor de Moisés. Torna Moisés para o Egito. Circuncisão de seu filho. Aarão se lhe ajunta.

1Moisés respondeu a Deus: Êles me não darão crédito, nem ouvirão a minha voz, mas dirão: O Senhor não te apareceu.

2Disse-lhe pois Deus: Que é o que tu tens na tua mão? Uma vara, lhe respondeu êle.[1]UMA VARAPelos dados fornecidos pela egiptologia sabemos que tôdas as pessoas de distinção usavam uma vara; assim as representam os mais célebres monumentos.

3Continuou o Senhor: Deita-a em terra. Moisés a deitou, e ela se converteu em serpente, de sorte que Moisés fugiu.

4Disse-lhe mais o Senhor: Estende a tua mão, e pega-lhe pela cauda. Estendeu êle a mão, e pegou-lhe, e no mesmo ponto se converteu ela em vara.

5Isto é, acrescentou o Senhor, para que êles creiam que te apareceu o Senhor Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó.

6Ainda mais lhe disse o Senhor: Mete a tua mão no teu seio. E tendo-a metido no seio, tirou-a cheia duma lepra branca, como a neve.[2]LEPRA BRANCASegundo atesta Celso, esta era a lepra mais comum entre os hebreus e a mais fácil de curar.

7Torna a meter, disse o Senhor, a tua mão no teu seio. Tornou-a êle a meter, e tirou-a tôda semelhante ao mais do seu corpo.

8Se êles te não crerem, disse o Senhor, e se não ouvirem a voz do primeiro milagre, ouvirão a do segundo.

9Se ainda a êstes dois milagres não crerem, e não ouvirem a tua voz, toma uma pouca dágua do rio, e derrama-a sôbre a terra: e tudo o que tirardes do rio se converterá em sangue.

10Então disse Moisés ao Senhor: Senhor, peço-te que atendas que eu nunca tive facilidade de falar; e que depois que tu me começaste a falar, ainda eu tenho a língua mais embaraçada, e mais tarda.

11O Senhor lhe respondeu: Quem fêz a bôca do homem? Quem formou o mudo, e o surdo, o que vê, e o que é cego? Não fui eu?

12Vai pois, e eu serei na tua bôca, e te ensinarei o que hás de falar.

13Rogo-te, Senhor, replicou Moisés, que envies aquêle, que deves enviar.

14Irou-se o Senhor contra Moisés, e disse-lhe: Eu sei que Aarão teu irmão, filho de Levi, é eloquente: êle te sairá ao encontro, e quando te vir, alegrar-se-á no seu coração.[3]IROU-SE O SENHORAinda que estas palavras sejam escritas em sentido metafórico, como no Gên 6, 8, contudo indicam que a conduta de Moisés não foi louvável, pois que deixa entrever uma tal ou qual falta de confiança nas promessas divinas. E só êle seria capaz de escrever isto da sua própria pessoa. Alguns Santos Padres — como S. Basílio, e S. Gregório Magno, — têm o procedimento de Moisés como prova de modéstia e de prudência. Os modernos exegetas não aceitam esta opinião, porque então Deus, que prescruta os corações, não censuraria Moisés, antes louvaria as suas boas intenções.

15Fala-lhe, e põe as minhas palavras na sua bôca: eu serei na tua bôca, e na dêle: e eu vos mostrarei o que deveis fazer.

16Êle falará por ti ao povo, e será a tua bôca: e tu dirigi-lo-ás em tudo aquilo, que diz respeito a Deus.

17Toma também na tua mão esta vara, que será o instrumento, com que tu farás tôdas estas maravilhas.

18Partiu pois dali Moisés, e voltou para casa de Jetro, seu sogro, e disse-lhe: Eu torno outra vez para meus irmãos ao Egito, a ver se êles ainda são vivos. Jetro lhe disse: Vai em paz.

19Ora o Senhor disse a Moisés, quando ainda estava em Madian: Vai, torna para o Egito; porque são mortos todos aqueles, que te queriam tirar a vida.

20Moisés pois tomou sua mulher, e seus filhos, montou-os em cima de um jumento, e tornou para o Egito, levando na sua mão a vara de Deus.

21E quando êle ia no caminho para o Egito, o Senhor lhe disse: Vê que não faltes a fazer diante de Faraó todos os prodígios, que eu te dei poder de obrar. Eu endurecerei o seu coração, e êle não quererá deixar sair o povo.

22Tu pois lhe falarás desta sorte: Eis aqui o que diz o Senhor: Israel é meu filho primogénito.

23Eu te ordenei, que deixasses sair meu filho, para que êle me sirva; e tu não quiseste deixá-lo sair. Pois sabe que também eu matarei teu filho primogénito.

24Quando Moisés ia no caminho, o Senhor se lhe fêz encontradiço numa estalagem, e queria matá-lo.

25Mas Séfora, tomando sem demora uma pedra muito aguda, circuncidou com ela o prepúcio de seu filho; e tocando os pés de Moisés, disse: Tu és para mim um esposo de sangue.

26Então deixou o Senhor a Moisés, depois de Séfora lhe ter dito por causa da circuncisão: Tu és para mim um esposo de sangue.

27Entretanto disse o Senhor a Aarão: Vai encontrar-te com Moisés no deserto. Partiu Aarão a encontrar-se com êle no monte de Deus, e o beijou.

28Então contou Moisés a Aarão tôdas as palavras, com que o Senhor o tinha enviado, e os prodígios que lhe mandara que fizesse,

29e tendo chegado ambos juntos, congregaram todos os anciãos dos filhos de Israel.

30E Aarão expôs tôdas as palavras, que o Senhor tinha dito a Moisés e fêz milagres diante do povo:

31Pelo que o povo lhes deu crédito. E êles conheceram bem que o Senhor tinha visitado os filhos de Israel, e tinha olhado para a sua aflição: e prostrados por terra o adoraram.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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