Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 2

Nascimento, e educação de Moisés. Serviços que faz a seus irmãos. Sua fugida para Madian. Seu casamento com Séfora. Clamor dos israelitas ao Senhor.

1Algum tempo depois um homem da tribo de Levi casou com uma mulher da sua estirpe.[1]DA TRIBO DE LEVIPertencia à família de Caat, a mais notável da tribo de Levi. Ex 6, 18.

2Esta mulher concebeu, e deu à luz um filho; e vendo que o menino era de belo parecer, teve-o escondido três meses.

3Como porém não pudesse por mais tempo ter esta coisa encoberta, tomou um cestinho de junco, barrou-o de betume, e de pez, meteu nêle o menino, e expô-lo nuns canaviais, que estavam na ribanceira do rio;

4ficando uma irmã do menino a observar de longe o que depois sucedia.

5Neste tempo veio a filha do Faraó banhar-se no rio, acompanhada das suas damas, que caminhavam ao longo da borda da água. E como desse com os olhos no cestinho entre as canas, mandou a uma delas que lho trouxesse.[2]A FILHA DE FARAÓA tradição judaica conservou-lhe o nome Termoutis, provàvelmente filha de Seti 1.°, pai de Ramsés 2.°. Os monumentos egípcios mencionam uma mulher de Ramsés chamada Termut. Será a mesma? Entendem alguns críticos que sim, baseando-se no costume egípcio de casarem os irmãos com as irmãs, para que se conservasse o sangue divino na família real. A BANHAR-SE NO RIO — Uso muito comum no Egito. NO CESTINHO — No hebreu está tebah, que corresponde ao têrmo egípcio tba que significa cofre ou berço. Há neste livro e nos restantes do Pentateuco muitas palavras semelhantes às egípcias, e que nos mostram como o autor conhecia as duas línguas.

6Trazido que foi, abriu-o, e achou dentro um menino chorando. Do que compadecida disse: Este é algum dos meninos dos hebreus.

7Então chegando-se a irmã do menino, disse para a princesa: É vossa alteza servida, que eu vá buscar alguma mulher dos hebreus, que crie êste menino?

8Disse-lhe ela: Vai. Partiu pois a moça, e fêz que viesse sua mãe.

9A filha de Faraó lhe falou, e disse: Toma êste menino, e cria-mo, que eu te pagarei êste trabalho. Tomou a mãe o menino, criou-o e depois de grande tornou-o a dar à filha de Faraó,[3]TOMA ÊSTE MENINOSe Moisés tivesse sido criado por uma ama egípcia, na côrte de Faraó, seria educado nos costumes e doutrinas da côrte, perderia a crença no verdadeiro Deus e o amor às tradições do seu povo.

10a qual o adotou por seu filho, e lhe pôs o nome de Moisés, dizendo: Porque eu o tirei da água.[4]PÔS O NOME DE MOISÉSModernamente os egiptólogos sustentam que Moisés deriva de mesu, menino, e que êste nome era vulgar no Egito; encontrou-se uma estátua da XIX dinastia, que trazia o nome de Amen-mesu. Porém, nada disto obsta a que possa vir também de musches, que significa tirado da água, segundo a interpretação tradicional.

11Neste tempo, sendo Moisés já homem, foi êle ver seus irmãos. Observou a aflição, em que êles estavam, e viu que um hebreu era ultrajado por um egiptano.

12Então olhando para tôdas as partes, e vendo que não estava por ali ninguém, matou ao egípcio, e o escondeu na areia.

13Ao outro dia achou dois hebreus bulhando, e disse ao que fazia o ultraje: Por que dás tu em teu irmão?

14Respondeu êle: Quem te constituiu a ti nosso príncipe, e nosso juiz? Acaso queres-me tu matar, como mataste ao egípcio? Teve Moisés mêdo, e disse: Como se descobriu isto?

15Faraó tendo notícia do caso, procurava matar a Moisés; mas êste, fugindo de diante dêle, se retirou para a terra de Madian, e se assentou junto a um poço.[5]E SE RETIROU PARA MADIANRetirou-se para êste país porque nêle não tinha que recear o Faraó, e ao mesmo tempo por meio das caravanas que faziam o comércio entre a Ásia e o Egito, ali podia ter conhecimento de tudo quanto se passava no vale do Nilo.

16Ora em Madian havia um sacerdote, que tinha sete filhas, as quais, tendo vindo a tirar água, depois de terem enchido os canos, queriam dar de beber aos rebanhos de seu pai.

17Mas uns pastores, que sobrevieram, as lançaram para fora. Então Moisés levantando-se, e pondo-se em defesa das moças, deu de beber às suas ovelhas.

18Quando elas voltaram para casa de Raguel seu pai, disse-lhe êste: Por que viestes vós mais cedo do costumado?

19Elas lhe responderam: Um egípcio nos livrou da violência dos pastores; e além disto tirou água conosco, e deu de beber às ovelhas.

20Onde está êle? disse o pai. Por que deixastes vós ir êsse homem? Chamai-o, para que coma.

21Jurou pois Moisés que ficaria com êle. E depois casou com sua filha Séfora.

22E ela lhe pariu um filho, a quem êle pôs o nome de Gersão, dizendo: Eu fui viandante numa terra estrangeira. Pariu ela ainda outro filho, e êle o chamou Eliezer, dizendo: O Deus de meu pai, que é o meu socorro, me livrou da mão de Faraó.

23Muito depois morreu o rei do Egito: e os filhos de Israel gemendo debaixo do pêso das obras, que os oprimia, clamaram: e o clamor, que o excesso dos seus trabalhos lhes fazia levantar, chegou a Deus.

24Ouviu êle os seus gemidos, e lembrou-se do pacto, que tinha feito com Abraão, Isaac, e Jacó.

25E o Senhor olhou para os filhos de Israel, e êle os conheceu.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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