Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 22

Leis sôbre o furto, a fornicação, a usura, os dízimos, as primícias.

1Se alguém furtar um boi, ou uma ovelha, e os matar, ou vender, restituirá cinco bois por um boi, e quatro ovelhas por uma ovelha.[1]QUATRO OVELHAS POR UMA OVELHAEstabeleceu o princípio de que a pena deve ser proporcional ao dano causado. Num país agrícola um boi é para o agricultor de primeira necessidade, e por isso o roubo reveste de maior gravidade, porque o dano é maior; a indenização também aumenta progressivamente, para reparar o mal feito.

2Se um ladrão fôr achado arrombando a porta duma casa, ou escavando a parede para entrar, e sendo ferido, morreu da ferida: aquêle, que o feriu, não será culpado da sua morte.

3Se êle matou o ladrão já de dia, cometeu homicídio, e será punido de morte. Se o ladrão não tiver por donde pague o furto, será vendido.

4Se aquilo, que êle roubou, se acha ainda vivo em sua casa, quer seja boi, quer seja jumento, quer seja ovelha, restituirá o dôbro.

5Se algum homem danificou um campo, ou uma vinha, deixando lá entrar a sua bêsta a pastar o que não é seu, dará o melhor que houver no seu campo, ou na sua vinha, para satisfazer o prejuízo, segundo a avaliação, que se fizer dêle.

6Se o fogo prendendo em matérias secas, pegou nas medas de trigo, ou nos feixes que ainda estavam no campo: Aquêle, que acendeu o fogo, pagará a perda, que êle causou.

7Se alguém depositar algum dinheiro, ou puser em guarda qualquer móvel em casa de seu amigo, dado caso que o furtem ao depositário, e se ache o ladrão, pagará êste o dôbro:[2]SE ALGUÉM DEPOSITARNeste versículo e nos seguintes trata Moisés do depósito, prevendo tôdas as hipóteses.

8Se se não acha o ladrão, será obrigado o dono da casa a apresentar-se aos deuses, e a jurar que êle não tomou o que era de seu próximo,

9nem da sua parte houve fraude; ou a coisa fôsse um boi, ou fôsse um jumento, ou fôsse uma ovelha, ou outra qualquer coisa, que se perdesse. Os deuses examinarão a causa dum e doutro: E se êles condenarem o depositário, êste pagará o dôbro ao senhor do depósito.

10Se algum der a guardar a outro um jumento, ou boi, ou uma ovelha, ou outra qualquer coisa; e aquilo, que fôr pôsto em guarda, ou morre, ou se deteriora, ou é apanhado pelos inimigos, sem que ninguém o visse,

11jurará o guarda diante dos juízes, que êle não tomou o que não era seu; e o dono estará por êste juramento, sem que possa constranger o outro a lhe pagar a perda.

12Se o que êle tinha em guarda foi furtado, satisfará do seu ao dono.

13Mas se foi comido por alguma fera, levará ao proprietário o que ficar de resto, sem estar obrigado a dar-lhe mais nada.

14Se um pedir a outro emprestada alguma destas coisas, e ela vier a padecer alguma lesão, ou a morrer em ausência do dono, será o tal obrigado a restituí-la.

15Se o dono se achou presente ao desastre, não restituirá o outro a coisa, principalmente se a tinha alugado para pagar o uso, que fizesse dela.

16Se um enganar uma donzela, que ainda não está ajustada para casar, e a corromper, êle a dotará, e êle mesmo casará com ela.

17Se o pai da donzela lha não quiser dar, dará o corruptor ao pai tanto em dinheiro, quanto é o que se costuma dar em dote a uma donzela.

18Tu castigarás de morte aquêles, que usarem de sortilégios, e de encantamentos.

19Aquêle, que tiver cópula com uma bêsta, será castigado de morte.

20Aquêle, que sacrificar a outros deuses, que não sejam o que só é o único e verdadeiro Senhor, será castigado de morte.

21Não entristecerás, nem afligirás o estrangeiro: porque também vós fôstes estrangeiros na terra do Egito.

22Não farás mal algum à viúva, nem ao órfão.

23Se vós os ofenderdes em qualquer coisa, êles gritarão por mim, e eu ouvirei os seus gritos,

24e o meu furor se acenderá contra vós: eu vos farei morrer ao fio da espada, e as vossas mulheres ficarão viúvas, e os vossos filhos órfãos.

25Se emprestares algum dinheiro aos do meu povo, que são pobres entre vós, não o apertes como exator inexorável, nem o oprimas com usuras.

26Se o teu próximo te deu a sua capa em penhor, restitui-lhe antes do sol pôsto.

27Porque êle não tem outra coisa, com que cubra o seu corpo nem com que se agazalhe, quando dorme. Se êle clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso.

28Não falarás mal dos deuses, nem amaldiçoarás o príncipe do teu povo.[3]DEUSESVeja-se a nota 2 do c. 21 v. 6.

29Não tardarás em pagar os dízimos, e as primícias dos teus bens: e tu me consagrarás o primogénito de teus filhos.

30O mesmo farás dos teus bois, e das tuas ovelhas. Deixá-los-ás estar sete dias com suas mães, e ao dia oitavo oferecer-mos-ás.

31Vós sereis uns homens santos, e particularmente consagrados ao meu serviço. Não comereis da carne, que as bêstas tenham provado, mas deitá-la-eis aos cães.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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