Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 29

Ordenações acêrca do modo, com que se hão de sagrar os sacerdotes. Partes que êles devem ter nas vítimas. Sacrifício perpétuo de dois cordeiros cada dia.

1Eis-aqui o que tu deves fazer, para me sagrares em sacerdotes a Aarão, e seus filhos. Toma do rebanho um novilho, e dois carneiros, que não sejam malhados:

2uns pães asmos; uns bolos também asmos borrifados de azeite; umas tortas da mesma sorte asmas, sôbre que se tenha deitado algum azeite: Tôdas as quais coisas tu farás da mais pura farinha.

3E depois de as teres pôsto num cêsto, oferecer-mas-ás, e trar-me-ás também o novilho, e os dois carneiros.

4Ao mesmo tempo farás chegar Aarão, e seus filhos à entrada do tabernáculo do testemunho. E depois que tiveres lavado com água o pai, e os filhos,[1]E DEPOIS QUE TIVERES LAVADOPreceitua-se a ablução. Esta cerimónia, pelo seu simbolismo tão evidente, foi usada pelos diferentes cultos. É a idéia constante de que o homem para se aproximar de Deus tem de estar lavado de tôda a culpa, purificado de tudo quanto seja pecaminoso. A liturgia católica inicia o sacrifício da nova lei pela ablução das mãos, na qual o sacerdote pede seja purificado de tôda a mácula: Da Domine virtutem manibus meis ad abstergendum omnem maculam, ut sine pollutione mentis et corpore valeam tibi servire.

5vestirás Aarão dos seus vestidos, isto é, da camisa, da túnica, do efod, do racional, que tu atarás com o cíngulo.[2]VESTIRÁSÉ a imposição dos ornamentos sacerdotais: disto também se aproveitou a liturgia católica, que também adotou o uso do cíngulo (cingulus, baltheus, zona).

6E pôr-lhe-ás a mitra na cabeça, e sôbre a mitra a lâmina santa.[3]A MITRARemonta à mais alta antiguidade; nos monumentos assírios aparece coroando a fronte dos Reis. Hoje é o distintivo da jurisdição episcopal.

7Depois derramarás sôbre a sua cabeça o óleo da sagração: E com êste rito ficará êle sagrado.[4]DERRAMARÁS SÔBRE A SUA CABEÇA O ÓLEOA unção do óleo sagrado passou para a lei Nova. Acha-se no batismo, depois na confirmação; ungem-se os enfermos; no ato solene da ordenação dos sacerdotes ungem-se-lhes as mãos, dizendo o Bispo Consecrare et sanctificare digneris, Domine, manus istas per istam unctionem; na sagração episcopal derramam-se os santos óleos sôbre a cabeça do Bispo sagrado; outrora sagravam-se os reis: com o óleo santo consagram-se os altares, as Igrejas, os sinos e os cálices, etc.

8Farás também chegar seus filhos: Vestir-lhes-ás as suas túnicas de linho, e cingi-los-ás com os seus cíngulos.[5]OS CÍNGULOSCorrespondem ao abnet, cinto pendente que usavam os sacerdotes egípcios, diferente do khescheb, a que se faz referência no v. 5.

9Isto é o que tu deves fazer a Aarão, e a seus filhos. Pôr-lhes-ás as mitras nas cabeças, e êles ficarão sendo meus sacerdotes, para me darem um culto perpétuo. Depois que lhes tiveres sagrado as mãos,

10trarás o novilho à entrada do tabernáculo do testemunho: e Aarão e seus filhos porão as suas mãos sôbre a cabeça dêle,

11e tu o sacrificarás diante do Senhor, à entrada do tabernáculo do testemunho.

12Tomarás do sangue do novilho, e com o teu dedo o porás sôbre os cornos do altar, e o resto do sangue derramá-lo-ás ao pé do mesmo altar.

13Tomarás também tôda a gordura, que cobre os intestinos; o redenho do fígado, e os dois rins, e a gordura que os cobre: oferecer-me-ás tudo, queimando-o sôbre o altar.

14Mas a carne do novilho, o seu couro, e sua bosta queimá-la-ás fora do âmbito do campo, por ser esta uma hóstia pelo pecado.

15Tomarás também um dos carneiros, e Aarão, e seus filhos lhe porão as mãos sôbre a cabeça:

16E depois que o tiveres imolado, tomarás do seu sangue, e derramá-lo-ás em tôrno do altar.

17Depois farás o carneiro em pedaços: e lavados os intestinos, e os pés, pô-los-ás sôbre êstes pedaços cortados da sua carne, e sôbre a sua cabeça,

18e oferecerás o carneiro, queimando-o todo sôbre o altar: Porque esta é a oblação do Senhor, e uma hóstia para êle de suavíssimo cheiro.

19Tomarás também o outro carneiro, sôbre cuja cabeça porão as suas mãos Aarão, e seus filhos.

20E depois de o teres imolado, tomarás do seu sangue, e pô-lo-ás na extremidade da orelha de Aarão, e a seus filhos, e sôbre os dedos polegares das suas mãos, e dos seus pés direitos; e o resto do sangue derramá-lo-ás ao redor do altar.

21Tomarás outrossim do sangue, que está sôbre o altar, e do óleo da sagração: e com êles farás aspersão sôbre Aarão, e sôbre os seus vestidos, sôbre seus filhos, e sôbre os vestidos dêstes: e depois de os teres sagrado a êles, e aos seus vestidos,

22tomarás a gordura do carneiro, a sua cauda, a gordura que cobre as entranhas, o redenho do fígado, os dois rins, e a gordura, que está por cima, e a espádua direita: Porque êste é o carneiro da sagração.

23Tomarás outrossim parte de um pão, um dos bolos borrifados de azeite, uma torta do cêsto dos asmos, que tenha estado exposta diante do Senhor.

24E porás tôdas estas coisas nas mãos a Aarão, e a seus filhos, e santificá-los-ás, elevando estas ofertas diante do Senhor.

25Depois tornarás a tomar das suas mãos tôdas estas coisas, e queimá-las-ás sôbre o altar em holocausto, para elas espalharem um suavíssimo cheiro diante do Senhor, porque esta é a sua oblação.

26Tomarás também o peito do carneiro que tiver servido para a sagração de Aarão, e santificá-lo-ás, elevando-o diante do Senhor, e esta parte do sacrifício ficará para ti.

27Santificarás também o peito, que foi sagrado, e a espádua, que tu separaste do carneiro,

28com a qual Aarão e seus filhos foram sagrados: e estas são as partes, que ficarão reservadas para Aarão, e seus filhos, das oblações dos filhos de Israel por um direito perpétuo: Porque estas são como as primícias, e as primeiras partes das vítimas pacíficas, que êles oferecem ao Senhor.

29Os filhos de Aarão depois da morte dêste trarão as vestimentas, que lhe tiverem servido; para que revestidos delas, recebam a unção santa, e as suas mãos fiquem sagradas.[6]OS FILHOS DE AARÃO DEPOIS DA MORTE DÊSTE TRARÃO AS VESTESAssim sucedeu. Moisés depois da morte de Aarão despojou-o dos seus vestidos, e vestiu com êles seu filho Eleazar, conforme se lê nos Núm 20, 28.

30Aquêle dentre seus filhos que fôr constituído pontífice em seu lugar, e entrar no tabernáculo do testemunho, para exercitar as suas funções no santuário, trará estas vestimentas sete dias.

31Tomarás outrossim o carneiro, que foi oferecido para a sagração do pontífice, e farás cozer a sua carne no santo lugar;[7]TOMARÁS OUTROSSIM O CARNEIROÉ a refeição que deve preceder a consagração (v. 31-34).

32da qual carne comerá Aarão, e seus filhos. Comerão também à entrada do tabernáculo do testemunho os pães, que estiveram postos no cêsto,

33para que êste seja um sacrifício, que lhes torne favorável a Deus, e para que as mãos dos que lho oferecem fiquem santificadas. O estrangeiro não comerá dêstes pães, porque são santos.[8]O ESTRANGEIRO NÃO COMERÁEsta proibição não se entende só a respeito dos estrangeiros ao povo hebreu, mas a respeito de todos os israelitas estranhos à ordem sacerdotal, isto é, a todos os leigos. Cf. Vigouroux, ob. cit.

34Se remanescer alguma coisa desta carne consagrada, ou dêstes pães até pela manhã, queimarás no fogo tôdas estas sobras: elas se não comerão, porque estão santificadas.

35Terás cuidado de fazeres tudo isto, que te mando, tocante a Aarão, e a seus filhos. Sagrarás as suas mãos sete dias:

36e oferecerás cada dia um novilho pela expiação do pecado. Depois que tu tiveres imolado a hóstia da expiação purificarás o altar, e farás nêle as unções santas.

37Purificarás, e santificarás o altar sete dias, e êle será santíssimo. Todo o que o tocar, será santificado.

38Eis-aqui o que tu farás sôbre o altar. Sacrificarás cada dia sem falta dois cordeiros dum ano:[9]CADA DIA SEM FALTAEra o sacrifício quotidiano e perpétuo; em cada manhã e em cada tarde oferecia-se o cordeiro em holocausto, um pão de farinha e uma libação de vinho. Esta prescrição foi reservada posteriormente, com igual minuciosidade, como se verá nos Núm 28, 3-8.

39um de manhã, outro de tarde.[10]DE TARDENo texto original lê-se O outro cordeiro entre duas tardes. Adverte Vigouroux (ob. cit.), que se distinguiam duas tardes ou vésperas, não chegando a um acôrdo as seitas judaicas sôbre a significação precisa desta locução; parece designar o intervalo que decorre entre o princípio e o fim do ocaso do sol.

40Oferecerás com o primeiro cordeiro a décima parte dum efi da mais pura farinha de trigo, misturada com a quarta parte dum hin de azeite de azeitonas pisadas, e com outro tanto de vinho para libações.[11]O HINEra uma medida de origem egípcia, de que temos conhecimento pelos monumentos hieroglíficos, que lhe conservaram o nome e a forma. Equivalia à sexta parte dum efi, ou cêrca de 6 litros e meio.

41Oferecerás de tarde o segundo cordeiro, como um sacrifício de cheiro suavíssimo, da mesma maneira que nós dissemos que se devia fazer a oblação da manhã.

42Êste é o sacrifício, que com um culto continuado de geração em geração, se deve oferecer ao Senhor à entrada do tabernáculo do testemunho diante do Senhor, que é onde eu tenho resolvido falar-te.

43Dali darei eu as minhas ordens aos filhos de Israel, e o altar será santificado com a minha glória.

44Eu santificarei também o tabernáculo do testemunho com o altar, e Aarão com os seus filhos, para que êles exercitem as funções do meu sacerdócio.

45Eu habitarei no meio dos filhos de Israel, e serei o seu Deus.

46E êles saberão, que eu sou o Senhor seu Deus, que os tirei da terra do Egito, para ficar entre êles, eu, que sou o Senhor seu Deus.[12]QUE OS TIREI DA TERRA DO EGITOInsiste-se nesta prova de amor de Deus para com o seu povo, para que se não esquecesse do que ao Senhor devia.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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