Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 26

Do insensato. Do que se julga sábio. Do preguiçoso. Do falso amigo. Da má língua. Do que encobre o seu ódio.

1Assim como a neve é imprópria no estio, e as chuvas no tempo da ceifa: Assim a glória está mal a um insensato.[1]ESTÁ MAL A UM INSENSATOAs honras, a glória, as dignidades, a autoridade não estão bem num insensato, mas até servem de detrimento igualmente a êle, e ao estado. –Calmet.

2Como um pássaro que voa de uma parte para outra, e um pardal que vai para onde quer: Assim a maldição proferida sem motivo cairá sôbre o que a profere.[2]CAIRÁ SÔBRE O QUE A PROFEREOu também noutro sentido: “assim a maldição proferida sem motivo contra alguém, passará por cima dêle em claro”, isto é, não cairá nêle. –Pereira.

3O açoite é para o cavalo, e o freio para o asno, e a vara para as costas dos insensatos.

4Não respondas ao louco segundo a sua loucura, para não vires a ser seu semelhante.[3]NÃO RESPONDAS AO LOUCOAqui diz-se, que se não responda ao louco: no verso seguinte, que se responda. É um dito que não se opõe ao outro, atendidas as diversas circunstâncias de tempo, e de lugar que podem ocorrer, segundo as quais circunstâncias umas vêzes será bom desprezar ao louco, outras vêzes reconvencê-lo. –Bossuet.

5Responde ao louco segundo a sua loucura, para que êle não fique entendendo que é sábio.

6Aquêle que envia as suas palavras por intervenção de um mensageiro insensato, fica manco dos pés, e bebendo a iniqüidade.[4]FICA MANCOAquêle que comete a execução dos seus negócios a um insensato, e lhe dá instruções fazendo-o seu internúncio, não só mostra ser coxo, porque melhor lhe fôra ir pessoalmente, mas ainda tem de ficar na pessoa do tal medianeiro afrontado pelos erros, em que êle cair, tudo em castigo da sua imprudência, e temeridade. –Pereira.

7Bem como ao coxo não serve de nada ter as pernas bem feitas: Assim não diz bem a parábola na bôca dos insensatos.

8Assim como obra o que lança uma pedra no montão de Mercúrio: Assim também se porta o que dá honra ao insensato.[5]MONTÃO DE MERCÚRIOAlusão ao costume que tinham os pagãos, que, por superstições, atiravam pedras para um montão que estava junto da estátua de Mercúrio. O sentido é êste: é tão inútil prestar honras ao insensato, como atirar pedras para o montão de Mercúrio. Advirta-se porém que esta expressão é de S. Jerônimo e não do original hebraico, que diz assim: Aquêle que dá glória ao insensato é semelhante ao que ata uma pedra a uma funda; traduzindo assim o têrmo margemah por funda. Esta palavra deriva do verbo ragam, que significa lapidare, cumulare lapides, por conseguinte tem a significação de acervus lapidum, montão de pedras.

9A parábola na bôca dos insensatos é como se nascesse um espinheiro na mão dum homem embriagado.[6]SE NASCESSE UM ESPINHEIRODo mesmo modo que o homem embriagado se pegar em espinhos, se ferirá nêles, assim também o insensato, se quiser falar coisas sublimes, manifestará mais a sua demência, encravando-se além disto com os seus mesmos ditos. De maneira que assim como seria monstruosidade nascer em semelhante parte um espinheiro, do mesmo modo o é achar-se a sentença ou dito agudo na bôca do insensato. Menochio tem para si que neste lugar o verbo nascer pode-se tomar também na significação de achar-se.

10A sentença do juiz decide as causas: E aquêle que impõe silêncio a um insensato, apazigua as contendas.

11O imprudente, que repete a sua loucura, é como o cão que torna outra vez ao que tinha vomitado.

12Tens visto a um homem, que crê de si que é sábio? maior esperança terá do que êle um ignorante.

13O preguiçoso diz: O leão está no caminho, e a leoa nas passagens.

14Bem como a porta volta sôbre a sua couceira, assim se revolve o preguiçoso no seu leito.

15O preguiçoso esconde a mão debaixo do seu sovaco, e dá-lhe muito trabalho, quando a tiver de levar à bôca.

16O preguiçoso parece-lhe que é mais sábio do que sete homens que não dizem coisa que não seja acertada.

17Assim como está em perigo aquêle que toma a um cão pelas orelhas, do mesmo modo o que passando se impacienta, e se mete numa bulha que é com outrem.

18Assim como é culpável o que atira frechadas, e lançadas para matar:

19Do mesmo modo o é aquêle homem, que usando de fraude prejudica ao seu amigo: E depois de ter sido apanhado, diz: Eu o fazia por brinco.

20Quando não houver mais lenha apagar-se-á o fogo, e desterrado que seja o mexeriqueiro, apaziguar-se-ão as contendas.

21Assim como os carvões são para as brasas, e a lenha para o fogo, do mesmo modo é o homem iracundo para excitar disputas.

22As palavras dos mexeriqueiros parecem singelas, mas elas penetram até o íntimo das entranhas.

23Os lábios inchados juntos a um coração péssimo, são tanto monta como se quiseras adornar com prata baixa um vaso de barro.[7]LÁBIOS INCHADOSIsto é, soberbos, orgulhosos.

24Pelos seus lábios se dá a conhecer o inimigo, quando no coração tramar enganos.

25Quando êle te falar num tom humilde, não te fies nêle, porque tem sete malícias no seu coração.

26Aquêle que oculta o seu ódio debaixo duma aparência fingida, será descoberta a sua malícia na assembléia pública.

27Aquêle que abre a cova, cairá nela: E a pedra virá rolando sôbre aquêle que boliu nela.

28A língua enganadora não ama a verdade: E a bôca lúbrica é causa de ruínas.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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