Capítulo 26
1Assim como a neve é imprópria no estio, e as chuvas no tempo da ceifa: Assim a glória está mal a um insensato.[1]ESTÁ MAL A UM INSENSATO — As honras, a glória, as dignidades, a autoridade não estão bem num insensato, mas até servem de detrimento igualmente a êle, e ao estado. –Calmet.
2Como um pássaro que voa de uma parte para outra, e um pardal que vai para onde quer: Assim a maldição proferida sem motivo cairá sôbre o que a profere.[2]CAIRÁ SÔBRE O QUE A PROFERE — Ou também noutro sentido: “assim a maldição proferida sem motivo contra alguém, passará por cima dêle em claro”, isto é, não cairá nêle. –Pereira.
3O açoite é para o cavalo, e o freio para o asno, e a vara para as costas dos insensatos.
4Não respondas ao louco segundo a sua loucura, para não vires a ser seu semelhante.[3]NÃO RESPONDAS AO LOUCO — Aqui diz-se, que se não responda ao louco: no verso seguinte, que se responda. É um dito que não se opõe ao outro, atendidas as diversas circunstâncias de tempo, e de lugar que podem ocorrer, segundo as quais circunstâncias umas vêzes será bom desprezar ao louco, outras vêzes reconvencê-lo. –Bossuet.
5Responde ao louco segundo a sua loucura, para que êle não fique entendendo que é sábio.
6Aquêle que envia as suas palavras por intervenção de um mensageiro insensato, fica manco dos pés, e bebendo a iniqüidade.[4]FICA MANCO — Aquêle que comete a execução dos seus negócios a um insensato, e lhe dá instruções fazendo-o seu internúncio, não só mostra ser coxo, porque melhor lhe fôra ir pessoalmente, mas ainda tem de ficar na pessoa do tal medianeiro afrontado pelos erros, em que êle cair, tudo em castigo da sua imprudência, e temeridade. –Pereira.
7Bem como ao coxo não serve de nada ter as pernas bem feitas: Assim não diz bem a parábola na bôca dos insensatos.
8Assim como obra o que lança uma pedra no montão de Mercúrio: Assim também se porta o que dá honra ao insensato.[5]MONTÃO DE MERCÚRIO — Alusão ao costume que tinham os pagãos, que, por superstições, atiravam pedras para um montão que estava junto da estátua de Mercúrio. O sentido é êste: é tão inútil prestar honras ao insensato, como atirar pedras para o montão de Mercúrio. Advirta-se porém que esta expressão é de S. Jerônimo e não do original hebraico, que diz assim: Aquêle que dá glória ao insensato é semelhante ao que ata uma pedra a uma funda; traduzindo assim o têrmo margemah por funda. Esta palavra deriva do verbo ragam, que significa lapidare, cumulare lapides, por conseguinte tem a significação de acervus lapidum, montão de pedras.
9A parábola na bôca dos insensatos é como se nascesse um espinheiro na mão dum homem embriagado.[6]SE NASCESSE UM ESPINHEIRO — Do mesmo modo que o homem embriagado se pegar em espinhos, se ferirá nêles, assim também o insensato, se quiser falar coisas sublimes, manifestará mais a sua demência, encravando-se além disto com os seus mesmos ditos. De maneira que assim como seria monstruosidade nascer em semelhante parte um espinheiro, do mesmo modo o é achar-se a sentença ou dito agudo na bôca do insensato. Menochio tem para si que neste lugar o verbo nascer pode-se tomar também na significação de achar-se.
10A sentença do juiz decide as causas: E aquêle que impõe silêncio a um insensato, apazigua as contendas.
11O imprudente, que repete a sua loucura, é como o cão que torna outra vez ao que tinha vomitado.
12Tens visto a um homem, que crê de si que é sábio? maior esperança terá do que êle um ignorante.
13O preguiçoso diz: O leão está no caminho, e a leoa nas passagens.
14Bem como a porta volta sôbre a sua couceira, assim se revolve o preguiçoso no seu leito.
15O preguiçoso esconde a mão debaixo do seu sovaco, e dá-lhe muito trabalho, quando a tiver de levar à bôca.
16O preguiçoso parece-lhe que é mais sábio do que sete homens que não dizem coisa que não seja acertada.
17Assim como está em perigo aquêle que toma a um cão pelas orelhas, do mesmo modo o que passando se impacienta, e se mete numa bulha que é com outrem.
18Assim como é culpável o que atira frechadas, e lançadas para matar:
19Do mesmo modo o é aquêle homem, que usando de fraude prejudica ao seu amigo: E depois de ter sido apanhado, diz: Eu o fazia por brinco.
20Quando não houver mais lenha apagar-se-á o fogo, e desterrado que seja o mexeriqueiro, apaziguar-se-ão as contendas.
21Assim como os carvões são para as brasas, e a lenha para o fogo, do mesmo modo é o homem iracundo para excitar disputas.
22As palavras dos mexeriqueiros parecem singelas, mas elas penetram até o íntimo das entranhas.
23Os lábios inchados juntos a um coração péssimo, são tanto monta como se quiseras adornar com prata baixa um vaso de barro.[7]LÁBIOS INCHADOS — Isto é, soberbos, orgulhosos.
24Pelos seus lábios se dá a conhecer o inimigo, quando no coração tramar enganos.
25Quando êle te falar num tom humilde, não te fies nêle, porque tem sete malícias no seu coração.
26Aquêle que oculta o seu ódio debaixo duma aparência fingida, será descoberta a sua malícia na assembléia pública.
27Aquêle que abre a cova, cairá nela: E a pedra virá rolando sôbre aquêle que boliu nela.
28A língua enganadora não ama a verdade: E a bôca lúbrica é causa de ruínas.