Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 19

Chegada dos anjos a Sodoma. Ló os recebe em sua casa. Violência dos sodomitas. Destruição de Sodoma e Gomorra. A mulher de Ló convertida em estátua de sal. Incesto de Ló com suas filhas.

1Sôbre a tarde chegaram os dois anjos a Sodoma, a tempo que Ló estava assentado à porta da cidade. Tanto que êle os viu, levantou-se e saiu a recebê-los, prostrando-se em terra, e lhes disse:

2Vinde, vos peço, meus senhores, para a casa de vosso servo, e ficai nela. Vós lavareis os vossos pés, e amanhã pela manhã partireis para continuardes o vosso caminho. Êles lhe responderam: Não, nós não iremos para tua casa, mas passaremos a noite na praça.

3Ló apertou com êles instantemente, e os constrangeu a irem com êle; e depois que entraram em sua casa, preparou-lhes um banquete; fêz cozer uns pães asmos, e êles comeram.

4Mas antes que êles se fôssem deitar, os habitantes da cidade desde os meninos até os velhos, numa palavra, todo o povo junto, vieram cercar a casa de Ló.

5E chamando por êle, disseram-lhe: Onde estão aquêles homens, que entraram para tua casa esta tarde? Faze-os sair, que os queremos conhecer.

6Saiu Ló de sua casa: e tendo fechado a porta nas suas costas, lhes disse:

7Peço-vos, irmãos meus, que não façais tamanho mal.

8Eu tenho duas filhas, que ainda são donzelas; eu vo-las trarei, e vós usai delas como fôr do vosso gosto, contanto que não façais mal algum àqueles homens, porque entraram em minha casa, como para um lugar de segurança.[1]É certo que se colocou em má situação, porém as circunstâncias especiais em que se encontrava, atenuam a gravidade da sua culpa, pois que entendeu que assim defendia, como lhe cumpria os sagrados deveres da hospitalidade. "Aliena quippe ille vir justus timendo peccata, quae nisi consentientes inquinare non possunt, perturbatis non attendit suam, quo voluit subdere filias libidinibus impiorum". S. Agostinho, contra a mentira, n.º 21.

9Mas êles lhe disseram: Retira-te daqui: Tu vieste para aqui como forasteiro; acaso queres tu ser nosso juiz? A ti pois trataremos nós ainda muito pior, do que a êles. E lançaram-se sobre Ló com grande violência. E quando êles estavam a ponto de arrombar a porta,

10eis que os dois homens puxaram com as mãos por Ló e tendo-o introduzido para dentro de casa, fecharam a porta;

11e feriram de cegueira aos que estavam de fora, desde o mais pequeno até o maior, de sorte que não puderam mais atinar com a porta.

12E os mesmos dois homens disseram a Ló: Tu tens aqui alguns dos teus próximos genros, ou filhos ou filhas? Faze sair desta cidade todos os que te pertencem.

13Porque nós vamos destruir êste lugar; pois que o clamor dos seus crimes se tem elevado cada vez mais até à presença do Senhor, e êle nos enviou para que os destruíssemos.

14Ló pois, tendo saído, falou a seus genros, que estavam para casar com suas filhas, e disse-lhes: Levantai-vos, e saí dêste lugar, porque o Senhor está para destruir esta cidade. E êles julgaram que Ló lhes dizia isto por zombaria.

15Ao amanhecer apertavam os Anjos com Ló que saísse, dizendo-lhe: Toma depressa a tua mulher e as tuas duas filhas, não suceda que também tu pereças na ruína desta cidade.

16E vendo que Ló ia tardando, êles o tomaram pela mão, porque o Senhor lhe queria perdoar: e tomaram também pela mão a sua mulher e as suas duas filhas.

17E tendo-o tirado de casa, o puseram fora da cidade. Então lhe disseram êles: Salva a tua vida, não olhes para trás, e não pares em parte alguma dêste país e seus arredores; mas salva-te no monte, por não suceder pereceres com os outros.

18Ló lhes respondeu: Rogo-te, meu Senhor,

19que pois o teu servo achou graça diante de teus olhos, e tu usaste comigo da grande misericórdia de tomares à tua conta o livrares-me, consideres que eu me não posso salvar no monte; porque tenho mêdo que me apanhe esta desgraça, e eu morra.

20Mas eis ali está perto uma cidade, a que eu me posso acolher. Ela é pequena, e nela me poderei eu salvar. Não vês como ela é pequena? Ela me salvará a vida.

21O anjo lhe disse: Também ainda nisso quero estar pelos teus rogos; e não destruirei aquela cidade, a favor da qual me falaste.

22Apressa-te por te salvares ali: Porque eu não posso fazer nada, enquanto tu não tiveres lá entrado. Por isso a esta cidade puseram o nome de Segor.[2]SEGOREm hebreu Tschar — Provàvelmente estava na costa oriental do mar Morto, e era uma das cinco cidades do vale de Sidim.

23Aparecia o sol sôbre a terra, quando Ló entrou em Segor.

24Fêz o Senhor pois, cair sôbre Sodoma, e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo, que o Senhor fêz descer do céu.[3]SÔBRE SODOMA E GOMORRAO autor só menciona estas duas cidades destruídas pelo fogo, porém o mesmo castigo arrasou Seboim e Adama Dt 29, 23. Estrabão (E-XVI) dá-nos notícia, a propósito duma descrição do lago Asfaltite, de treze cidades, que tinham por capital Sodoma, e que foram umas destruídas pelo fogo e outras abandonadas pelos habitantes, que fugiam espavoridos. Solin afirma que a terra está ali coberta de cinzas.

25E êle destruiu estas cidades, e todo o país em roda; todos os que o habitavam, e tudo o que tinha alguma verdura sôbre a terra.

26A mulher de Ló olhou para trás, e ficou convertida em estátua de sal.[4]ESTÁTUA DE SALOs intérpretes tomaram sempre esta passagem à letra; o próprio Filon, que considera tudo alegorias, confessa que êste castigo foi real e que contém grandes ensinamentos. Entre os Cristãos escreveram largamente sôbre esta passagem S. Clemente, S. Ireneu, S. Cirilo de Jerusalém e S. Ambrósio, mas sobretudo está o livro da Sabedoria, c. 10, v. 7.

27Ora Abraão tendo-se levantado ao amanhecer, veio ao lugar, onde antes tinha estado com o Senhor.

28E levantando os olhos para Sodoma, e Gomorra, e para os países em tôrno, viu que se elevaram da terra cinzas inflamadas, como fumo, que sai duma fornalha.

29Ao tempo que Deus destruía as cidades daquele território, êle se lembrou de Abraão, e livrou a Ló da ruína destas cidades, onde êle tinha assentado a sua vivenda.

30Mas Ló se retirou de Segor; e tendo ido buscar o monte, se meteu numa caverna com suas duas filhas, porque teve mêdo de ficar em Segor.

31Então disse a mais velha para a mais moça: Nosso pai está velho, e na terra não ficou homem algum, com quem possamos casar, segundo o costume de todos os países.

32Demos pois a beber vinho a nosso pai, e embebedemo-lo, e durmamos com êle para que êle nos dê filhos.

33Deram pois a beber vinho a seu pai aquela noite; e a mais velha dormiu com êle, sem êle o sentir nem quando ela se deitou, nem quando se levantou.

34Ao outro dia disse a mais velha para a mais moça: Eu ontem dormi com meu pai: Demos-lhe também esta noite a beber vinho, e dormirás tu com êle, para conservarmos a raça de nosso pai.

35Tornaram pois aquela noite a dar de beber vinho a seu pai, e a segunda filha dormiu com êle, sem que êle também sentisse nem quando ela se deitou, nem quando se levantou.

36Assim ambas elas conceberam de seu próprio pai.[5]CONCEBERAM DO SEU PRÓPRIO PAITrata-se dum incesto condenado pela lei natural; o V. 31, porém, pode atenuar-lhes a grave enormidade da culpa. S. Ambrósio desculpa-as da seguinte forma: "Putaverunt non vicinae, et se solas cum pater superstitis ex-omnibus populis remansisse". De Abraam, livro 1.º capítulo 6.º, n.º 66. Julgavam que aquêle cataclismo tivesse sido universal, e que se encontravam só elas e o pai na terra, e assim, como modernamente se diria, pelo instinto da conservação e propagação da espécie, cometeram o incestuoso crime.

37A mais velha pariu um filho, e chamou-o Moab. Êste é o pai dos moabitas, que existem até o dia de hoje.

38A mais moça pariu um filho, e chamou-o Amon, que quer dizer o filho do meu povo. Êste é o pai dos amonitas, que ainda hoje vemos.

📄 PDF
📄 Original