Capítulo 43
1Entretanto a fome assolava extraordinariamente tôda a terra.
2E tendo-se acabado o trigo, que os filhos de Jacó tinham trazido do Egito, êle lhes disse: tornai para nos comprardes ainda algum pouco de trigo.
3Judá lhe respondeu: Aquêle homem, que governa em todo o Egito, nos declarou com juramento qual era sua vontade, dizendo: Vós não me vereis a cara, se não trouxerdes convosco vosso irmão mais pequeno.
4Se tu logo queres mandá-lo conosco, iremos todos juntos, e comprar-te-emos o que hás mister.
5Se o não queres, não iremos: porque aquêle homem, como nós já te dissemos muitas vezes, nos declarou, que não lhe veríamos a cara, se não lhe levássemos nosso irmão mais pequeno.
6Israel lhe disse: Para desgraça minha foi, terdes-lhes vós manifestado, que ainda tínheis outro irmão.
7Mas êles lhe responderam: Êle nos perguntou por ordem todo o séquito da nossa família: se nosso pai vivia; se tínhamos nós ainda outro algum irmão. E nós lhe respondemos consequentemente ao que êle nos tinha perguntado. Acaso podíamos nós adivinhar que êle nos havia de dizer: Trazei convosco vosso irmão?
8Ainda disse mais Judá a seu pai: Manda comigo o menino para partirmos, e termos de que poder viver, e para não morrermos nós, e nossos filhinhos.[1]O MENINO — Não se quer dizer que Benjamim fôsse um infante; tinha já vinte e cinco anos. O têrmo hebraico nahar, que a vulgata traduziu por puer, significa menino e também adolescens, e ainda pelo usus loquendi o irmão mais novo, como se vê frequentemente.
9Eu me encarrego dêste moço: a mim é que tu pedirás conta dêle. Se eu to não tornar a trazer, e to não restituir, eu consinto em que tu me não perdoes nunca esta falta.
10Se nós não tivéssemos diferido tanto a nossa ida, já nos teríamos voltado segunda vez.
11Israel pois, seu pai, lhes disse: Se isto assim é necessário, fazei o que quereis. Tomai para levardes convosco os mais excelentes frutos dêste país, para fazerdes presente dêles a êsse homem: uma pouca de resina, um pouco de mel, um pouco de estoraque, alguma mirra, algum terebinto, e algumas amêndoas.[2]UMA POUCA DE RESINA — No hebreu tsôri, é o bálsamo, um dos perfumes que traziam para o Egito os mercadores ismaelitas. (Gên 37, 25). UM POUCO DE MEL — Êste mel, chamado debas no original, não é o mel das abelhas, mas um preparado a que os árabes dão o nome de dibos, que tem a aparência do mel, mas é composto de uvas, ainda hoje muito apreciado no Egito. O ESTORAQUE corresponde ao nome genérico aromata.
12Tomai também dobrado dinheiro, e tornai a levar aquele, que vós achastes nos sacos, não fôsse isso talvez por engano.
13Enfim levai vosso irmão, e ide ter com aquêle homem.
14Eu rogo ao meu Deus todo poderoso, que vo-lo faça favorável, para que êle remeta convosco a vosso irmão, que êle retém prêso, e a êste Benjamim. Entretanto ficarei eu só, como se não tivesse filhos.
15Tomaram êles pois os presentes, e dinheiro em dôbro, com Benjamim; e tendo partido, chegaram ao Egito, onde se apresentaram diante de José.
16José tanto que os viu, e Benjamim com êles, disse ao seu dispenseiro: Introduze êstes homens em minha casa: mata das reses aquelas, que se costumam escolher para vítimas e prepara um banquete: porque êles hão-de comer comigo ao meio dia.
17Executou o dispenseiro o que se lhe tinha mandado, e introduziu-os em sua casa.
18Então passados de mêdo diziam êles entre si: Sem dúvida que por causa daquele dinheiro, que nós achamos nos sacos, é que êle nos faz entrar aqui, para nos caluniar, e nos oprimir, reduzindo-nos à escravidão, e tomando-nos os nossos burros.
19Pelo que estando ainda à porta, chegaram-se êles ao dispenseiro de José, e lhe disseram:
20Senhor, nós te suplicamos que nos ouças. Nós viemos já uma vez comprar trigo:
21e depois de o termos comprado, quando nós chegamos à estalagem, ao abrir os nossos sacos achamos nas suas bôcas o nosso dinheiro, o qual nós te trazemos agora no mesmo peso.
22E afora êste, te trazemos nós outro dinheiro, para comprarmos o que nos é necessário. Mas nós não sabemos de modo algum, quem foi o que meteu aquêle dinheiro nos nossos sacos.
23O dispenseiro lhes respondeu: Estai sossegados, não tenhais mêdo. O vosso Deus, e o Deus de vosso pai foi o que vos deu êsses tesouros nos vossos sacos. Porque quanto a mim, eu recebi o dinheiro, que vós me destes, e com isso me dou por satisfeito. Fêz também sair para fora a Simeão, e trouxe-lho.
24Depois de os ter feito entrar na casa, trouxe-lhes água, com que lavaram os pés, e deu de comer aos seus burros.
25Entretanto puseram êles prontos os seus presentes, esperando que José entrasse ao meio dia: porque lhes tinham dito que haviam de comer ali.
26Tendo pois entrado José em sua casa, êles lhe ofereceram os seus presentes, que tinham nas suas mãos, e êles o adoraram, prostrando-se por terra.
27José os saudou também, mostrando-lhes bom rosto, e lhes perguntou: E' ainda vivo vosso pai, aquêle bom velho, de que vós me falastes? Passa êle bem?
28Êles lhe responderam: Nosso pai teu servo ainda vive, e passa bem. E êles encurvando-se profundamente, o adoraram.
29José, levantando os olhos, viu a Benjamim, seu irmão uterino, e disse: Êste é vosso irmão mais pequeno, do qual vós me tínheis falado? Meu filho, ajuntou êle, Deus te conserve, e te seja sempre favorável.
30E deu-se pressa a sair, porque se lhe tinham comovido as entranhas, vendo a seu irmão, e não podia conter as lágrimas: passando pois a outra câmara, chorou.
31E depois de ter lavado o rosto, se conteve, e disse: Trazei o comer para a mesa.
32Foi José servido à parte, e seus irmãos à parte, e os egípcios, que comiam com êle, servidos também à parte: porque não é permitido entre os egípcios comer com os hebreus; e têm que um banquete desta sorte seria profano.[3]FOI JOSÉ SERVIDO À PARTE — Era o costume do país a que se subordinava José; esta separação era imposta pela etiqueta, por isso José não comia só separado dos seus irmãos, mas também dos familiares do palácio.
33Êles se assentaram pois em presença de José, primeiro o primogénito segundo a sua ordem, e o mais pequeno segundo a sua idade; e ficaram sumamente admirados,
34ao ver as porções, que José lhes dera, das quais a maior tinha caído a Benjamim: porque esta era cinco vezes mais avantajada que a dos outros. Beberam também com José, e regalaram-se.