Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 15

Jesus Cristo é a videira, e seus discípulos as varas. Repete o preceito do amor. Os Apóstolos são os seus amigos. Êle os escolheu para darem frutos, e os conforta contra as perseguições do mundo. Os Judeus não têm desculpa no seu pecado.

1Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.

2Tôdas as varas, que não derem fruto em mim, êle as tirará, e tôdas as que derem fruto, limpá-las-á, para que o dêem mais abundante.

3Vós já estais puros, em virtude da palavra que eu vos disse.[1]Em virtude da palavraSanto Agostinho: Porque não diz o Senhor: Vós estais limpos em virtude do batismo que recebestes: mas diz, em virtude da palavra que eu vos disse? É porque na mesma água a palavra é a que purifica. Tira a palavra, e que é a água, senão água? — Duhamel.

4Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como a vara da videira não pode de si mesmo dar fruto, se não permanecer na videira: Assim nem vós o podereis dar, se não permanecerdes em mim.

5Eu sou a videira, vós outros as varas: O que permanece em mim, e o em que eu permaneço, êsse dá muito fruto, porque vós sem mim não podeis fazer nada.[2]Sem mim não podeis fazer nadaQue seja útil para a vida eterna. Santo Agostinho. Ou seja logo pouco, ou seja muito, nada se pode fazer sem a graça praeveniente, adjuvante et cooperante daquele, sem o qual nada se pode fazer. Sive ergo parum, vive multum, sive illius gratis praeveniente, adjuvante cooperante fieri non potest sine quo nihil fieri potest.

6Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora como a vara, e secará, e enfeixá-lo-ão, e lançá-lo-ão no fogo, e ali arderá.

7Se vós permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós: Pedireis tudo o que quiserdes, e ser-vos-á feito.[3]E ser-vos-á feitoSe permanecermos em Deus por caridade, e pusermos as suas palavras no fundo do nosso coração, para não pecar, Sl 118, 2, conseguiremos sem dúvida tudo o que pedirmos; porque neste caso não quereremos, nem pediremos, senão o que for conforme a vontade de Deus, e êste Senhor não deixará de nos conceder o que lhe pedirmos, porque êle é o mesmo que no-lo faz pedir. — Santo Agostinho.

8Nisto é glorificado meu Pai, em que vós deis muito fruto, e em que sejais meus discípulos.

9Como meu Pai me amou, assim vos amei eu. Permanecei no meu amor.

10Se guardardes os meus preceitos, permanecereis no meu amor, assim como também eu guardei os preceitos de meu Pai, e permaneço no seu amor.

11Eu tenho-vos dito estas coisas: Para que o meu gôzo fique em vós, e para que o vosso gôzo seja completo.

12O meu preceito é êste, que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei.

13Ninguém tem maior amor do que êste, de dar um a própria vida por seus amigos.

14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.

15Já vos não chamarei servos: Porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos: Porque vos descobri tudo quanto ouvi de meu Pai.

16Vós não fostes os que me escolhestes a mim: Mas eu fui o que vos escolhi a vós e o que vos constituí para que vades e deis fruto, e para que o vosso fruto permaneça, para que tudo quanto vós pedirdes a meu Pai em meu nome, êle vo-lo conceda.

17Isto é o que eu vos mando, que vos ameis uns aos outros.

18Se o mundo vos aborrece: Sabei que primeiro do que a vós, me aborreceu êle a mim.

19Se vós fôsseis do mundo, amaria o mundo o que era seu; mas porque vós não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos aborrece.[4]Amaria o mundoO mundo aborrece tudo o que lhe é oposto; o mundo soberbo aborrece os discípulos do Senhor, que são humildes, e que pregam a necessidade da humildade. O mundo que ama as riquezas aborrece aos pobres, que com o seu exemplo e palavra pregam a pobreza. O mundo entregue aos prazeres, aborrece aos que amam a Cruz e ensinam a penitência. E assim é necessário que seja aborrecido do mundo o que não segue o espírito e as máximas do mundo egoísta.

20Lembrai-vos da minha palavra, que eu vos disse: Não é o servo maior do que seu senhor. Se êles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós: Se êles guardaram a minha palavra, também hão de guardar a vossa.

21Mas êles far-vos-ão todos êstes maus tratamentos por causa do meu nome: Porque não conhecem aquele que me enviou.

22Se eu não viera e não lhes tivera falado, não teriam êles pecado: Mas agora não têm desculpa no seu pecado.[5]Mas agora não têm desculpaNa sua voluntária, e obstinada incredulidade. Eu mesmo vim a pregar-lhes, eu confirmei a minha doutrina com repetidos e nunca vistos prodígios. Eu mesmo lhes tenho feito ver, quão conforme é tudo o que vem em mim, com o que Moisés, e os profetas lhes anunciaram do Messias, que havia de vir para os salvar. Daqui se vê que a infidelidade negativa daqueles a quem não foi pregado o Evangelho, não é pecado. Mas por terem desculpa dêste pecado, não se segue, diz Santo Agostinho, que a tenham também de todos os outros pecados. Habent excusationem non de omni peccato suo, sed de hoc peccato, quod in Christum non crederunt.

23Aquele que me aborrece: Aborrece também a meu Pai.

24Se eu não tivera feito entre êles tais obras, quais não fez outro algum, não haveria da parte dêles pecado, mas agora êles não sòmente as viram, mas ainda me aborreceram, tanto a mim, como a meu Pai.

25Mas isto é para se cumprir a palavra que está escrita na sua lei: Êles me aborrecerão sem motivo.

26Quando porém vier o Consolador, aquele espírito de verdade, que procede do Pai, que eu vos enviarei da parte do Pai, êle dará testemunho de mim.

27E também vós dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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