Capítulo 12
1Seis dias pois antes da Páscoa veio Jesus a Betânia, onde morrera Lázaro, a que Jesus ressuscitou.
2E deram-lhe lá uma ceia: Na qual servia Marta, e onde Lázaro era um dos que estavam à mesa com êle.
3Tomou Maria então uma libra de bálsamo, feito de nardo puro de grande preço, e ungiu os pés de Jesus e lhe enxugou os pés com os seus cabelos: E ficou cheia toda a casa do cheiro do bálsamo.[1]Uma libra — A libra valia 326 gramas. Os pés de Jesus — Primeiramente os pés, diz Santo Agostinho, depois a cabeça, como testifica Mt 26, 7; Mc 14, 3. — Amelote.
4Então Judas Iscariotes, um dos discípulos de Jesus, aquele que o havia de entregar, disse:
5Por que se não vendeu êste bálsamo por trezentos dinheiros, e se deu aos pobres?
6E disse isto, não porque êle tivesse cuidado dos pobres, mas porque era ladrão, e sendo o que tinha a bolsa, trazia o que se lançava nela.[2]O que se lançava nela — Judas se apropriava de uma parte do dinheiro, sendo um infiel depositário do que davam ao Senhor para seu sustento, para o de seus discípulos, e para que se distribuísse entre os pobres. Porém êle queria paliar a sua cobiça com pretexto de caridade, o que é muito comum nos avarentos.
7Mas Jesus respondeu: Deixai-a que ela guarde isto para o dia da minha sepultura.
8Porque vós outros sempre tendes convosco os pobres: Mas a mim não me tendes sempre.
9Soube pois um crescido número de judeus, que Jesus estava ali: E vieram, não sòmente por causa dêle, senão também para verem a Lázaro, a quem êle havia ressuscitado dentre os mortos.
10Porém os príncipes dos sacerdotes assentaram matar também a Lázaro:
11Porque muitos por causa dêle se retiravam dos judeus, e criam em Jesus.
12E no dia seguinte uma grande multidão de povo, que tinha vindo à festa, ouvindo dizer que Jesus vinha a Jerusalém:
13Tomaram ramos de palmas, e saíram a recebê-lo, e clamavam: Hosana, bendito seja o Rei de Israel, que vem em nome do Senhor.
14E achou Jesus um jumentinho, e montou em cima dêle, segundo o que está escrito:
15Não temas, filha de Sião. Eis aqui o teu rei, que vem montado sôbre o asninho, filho da jumenta.
16Não fizeram seus discípulos no princípio reflexão nestas coisas: Mas quando Jesus foi glorificado, então se lembraram de que assim estava escrito dêle: E que êles mesmos haviam contribuído para o seu cumprimento.
17E o grande número dos que se achavam com Jesus, quando êste chamou a Lázaro do sepulcro, e o ressuscitou dos mortos, dava testemunho dêle.
18E isto foi o que também fez que o povo o viesse receber: Porque ouviram que êle obrara êste milagre.
19De sorte que disseram entre si os fariseus: Vêdes vós que nada aproveitamos? Eis aí vai após êle todo o mundo.
20Ora, havia alguns gentios, daqueles que tinham vindo adorar a Deus no dia da festa.[3]Ora havia alguns gentios — Alguns são de sentir que eram prosélitos, ou que estavam em disposição de o ser. Os prosélitos eram gentios de nascimento e judeus de religião. — S. João Crisóstomo. Outros entendem que eram verdadeiros gentios, daqueles que habitavam nas vizinhanças da Palestina, e que, atraídos da grandeza, das maravilhas, e da majestade do Deus de Israel, vinham a adorá-lo e a oferecer-lhe também seus sacrifícios. Havia no templo um lugar destinado para êles, que se chamava o átrio dos gentios. Destes fala Salomão naquela excelente oração, que fez a Deus no dia em que celebrou a dedicação do templo, e no em que foi transladada a êle a arca do Testamento, 3 Rs 8, 41. Movidos das aclamações que o povo dava a Jesus Cristo, e da fama que corria dos seus milagres, conceberam grande desejo de o ver.
21Êstes pois se encaminharam a Filipe, que era de Betsaida de Galiléia, e lhe fizeram esta rogativa, dizendo: Senhor, nós quiséramos ver a Jesus:
22Veio Filipe dizê-lo a André: Então André e Filipe o disseram a Jesus.
23E Jesus lhes respondeu, dizendo: E' chegada a hora em que o Filho do homem será glorificado.
24Em verdade, em verdade vos digo, que se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer:
25Fica êle só: Mas se êle morrer, produz muito fruto. O que ama a sua vida, perdê-la-á: E o que aborrece a sua vida neste mundo, conserva-la-á para a vida eterna.
26Se alguém me serve, siga-me: E onde eu estiver, estará ali também o que me serve: Se alguém me servir meu Pai o honrará.
27Agora presentemente está turbada a minha alma. E que direi eu? Pai, livra-me desta hora. Mas para padecer nesta hora é que eu vim a ela.[4]Está turbada — Com a memória da morte, excitada pela espécie da futura conversão do gentilismo, que havia de ser consequência, e fruto da mesma morte. — Amelote. E que direi eu? — Aqui se está vendo o combate, que a memória da morte excitou entre a porção inferior e a superior da humanidade; não porque esta pudesse desobedecer ao decreto absoluto do Pai, mas para mostrar como era verdadeiro homem, lhe era custosa a sua execução: Pai, livra-me desta hora. Eis aqui a voz da natureza fugindo da morte. Mas para padecer nesta hora é que eu vim. Eis aqui a voz da obediência resignando-se no decreto do Pai. — Amelote.
28Pai, glorifica o teu nome. Então veio esta voz do Céu: Eu não só o tenho já glorificado, mas ainda o glorificarei.
29Ora, o povo que ali estava, e ouvira aquela voz, dizia que havia sido um trovão. Outros diziam: Algum Anjo lhe falou.
30Respondeu Jesus, e disse: Esta voz não veio por amor de mim, mas veio por amor de vós outros.
31Agora é o juízo do mundo: Agora será lançado fora o príncipe dêste mundo.
32E eu quando fôr levantado da terra, tôdas as coisas atrairei a mim mesmo:
33(E dizia isto, para designar de que morte havia de morrer.)
34Respondeu-lhe o povo: Nós temos ouvido da lei que o Cristo permanece para sempre: Como dizes tu logo: Importa que o Filho do homem seja levantado? Quem é êste Filho do homem?
35Respondeu-lhes então Jesus: Ainda por um pouco de tempo está a luz convosco. Andai enquanto tendes luz, para que vos não apanhem as trevas, porque quem caminha em trevas, não sabe por onde vai.
36Enquanto tendes a luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Isto disse Jesus, e retirou-se, e escondeu-se dêles.
37Mas sendo tantos os milagres que fizera em sua presença, não criam nêle.
38Para se cumprir a palavra do profeta Isaías, a qual êle proferiu: Senhor, quem chegou a crêr o que ouviu de nós? E a quem foi revelado o braço do Senhor?[5]O braço do Senhor — Êste braço de Deus é o mesmo Jesus Cristo, que é a virtude e força do Pai, figurada no braço, e o seu instrumento para concluir a grande obra do estabelecimento da Igreja, e da redenção dos homens. — Sacy.
39Por isso não podiam crer, porque outra vez disse Isaías:
40Êle obcecou-lhes os olhos, e obdurou-lhes o coração: Para que não vejam com os olhos, e não entendam com o coração: E se convertam, e eu os sare.
41Isto disse Isaías, quando viu a sua glória, e falou dêle.[6]Quando viu a sua glória e falou dêle — Os Padres entendem estas palavras daquela célebre visão que se descreve no capítulo 6, dêste profeta, na qual lhe foi representada a glória de Deus, e por conseguinte a de seu Filho, de que aqui fala. Tão patente está neste lugar a Divindade de Jesus Cristo, que só ela bastaria para confundir aos Socinianos. — Pereira.
42Contudo isto também creram nêle muitos senadores, mas por causa dos fariseus não o confessavam, por não serem expulsos da Sinagoga:
43Porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus.
44Mas Jesus levantou a voz, e disse: O que crê em mim, não crê em mim, mas naquele que me enviou.
45E o que me vê a mim vê aquele que me enviou.
46Eu, que sou a luz, vim ao mundo: Para que todo o que crê em mim, não fique em trevas.
47E se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar: Eu não o julgo: Porque não vim a julgar o mundo, mas a salvar o mundo.
48O que me despreza, e não recebe as minhas palavras, tem quem no julgue: A palavra, que eu tenho falado, essa o julgará no dia último.
49Porque eu não falei de mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, é o mesmo que me prescreveu pelo seu mandamento, o que eu devo dizer, e o que devo falar.
50E eu sei que o seu mandamento é a vida eterna. Assim que o que eu digo digo-o segundo mo disse o Pai.