Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

Dão uma ceia a Jesus em Betânia. Maria, irmã de Lázaro, o unge com um precioso bálsamo. Murmuração de Judas por isso. Defende-a Jesus. Meditam os judeus dar a morte a Lázaro. Entrada de Jesus em Jerusalém. Desejam alguns gentios vê-lo. Declara Jesus, que êle não produzirá fruto entre êles, senão depois da sua morte. Turba-se com o pensamento da morte. Depois de crucificado, atraírá tudo a si. Muitos senadores crêem nêle, mas não ousam confessá-lo em público, por medo de serem lançados da sinagoga.

1Seis dias pois antes da Páscoa veio Jesus a Betânia, onde morrera Lázaro, a que Jesus ressuscitou.

2E deram-lhe lá uma ceia: Na qual servia Marta, e onde Lázaro era um dos que estavam à mesa com êle.

3Tomou Maria então uma libra de bálsamo, feito de nardo puro de grande preço, e ungiu os pés de Jesus e lhe enxugou os pés com os seus cabelos: E ficou cheia toda a casa do cheiro do bálsamo.[1]Uma libraA libra valia 326 gramas. Os pés de Jesus — Primeiramente os pés, diz Santo Agostinho, depois a cabeça, como testifica Mt 26, 7; Mc 14, 3. — Amelote.

4Então Judas Iscariotes, um dos discípulos de Jesus, aquele que o havia de entregar, disse:

5Por que se não vendeu êste bálsamo por trezentos dinheiros, e se deu aos pobres?

6E disse isto, não porque êle tivesse cuidado dos pobres, mas porque era ladrão, e sendo o que tinha a bolsa, trazia o que se lançava nela.[2]O que se lançava nelaJudas se apropriava de uma parte do dinheiro, sendo um infiel depositário do que davam ao Senhor para seu sustento, para o de seus discípulos, e para que se distribuísse entre os pobres. Porém êle queria paliar a sua cobiça com pretexto de caridade, o que é muito comum nos avarentos.

7Mas Jesus respondeu: Deixai-a que ela guarde isto para o dia da minha sepultura.

8Porque vós outros sempre tendes convosco os pobres: Mas a mim não me tendes sempre.

9Soube pois um crescido número de judeus, que Jesus estava ali: E vieram, não sòmente por causa dêle, senão também para verem a Lázaro, a quem êle havia ressuscitado dentre os mortos.

10Porém os príncipes dos sacerdotes assentaram matar também a Lázaro:

11Porque muitos por causa dêle se retiravam dos judeus, e criam em Jesus.

12E no dia seguinte uma grande multidão de povo, que tinha vindo à festa, ouvindo dizer que Jesus vinha a Jerusalém:

13Tomaram ramos de palmas, e saíram a recebê-lo, e clamavam: Hosana, bendito seja o Rei de Israel, que vem em nome do Senhor.

14E achou Jesus um jumentinho, e montou em cima dêle, segundo o que está escrito:

15Não temas, filha de Sião. Eis aqui o teu rei, que vem montado sôbre o asninho, filho da jumenta.

16Não fizeram seus discípulos no princípio reflexão nestas coisas: Mas quando Jesus foi glorificado, então se lembraram de que assim estava escrito dêle: E que êles mesmos haviam contribuído para o seu cumprimento.

17E o grande número dos que se achavam com Jesus, quando êste chamou a Lázaro do sepulcro, e o ressuscitou dos mortos, dava testemunho dêle.

18E isto foi o que também fez que o povo o viesse receber: Porque ouviram que êle obrara êste milagre.

19De sorte que disseram entre si os fariseus: Vêdes vós que nada aproveitamos? Eis aí vai após êle todo o mundo.

20Ora, havia alguns gentios, daqueles que tinham vindo adorar a Deus no dia da festa.[3]Ora havia alguns gentiosAlguns são de sentir que eram prosélitos, ou que estavam em disposição de o ser. Os prosélitos eram gentios de nascimento e judeus de religião. — S. João Crisóstomo. Outros entendem que eram verdadeiros gentios, daqueles que habitavam nas vizinhanças da Palestina, e que, atraídos da grandeza, das maravilhas, e da majestade do Deus de Israel, vinham a adorá-lo e a oferecer-lhe também seus sacrifícios. Havia no templo um lugar destinado para êles, que se chamava o átrio dos gentios. Destes fala Salomão naquela excelente oração, que fez a Deus no dia em que celebrou a dedicação do templo, e no em que foi transladada a êle a arca do Testamento, 3 Rs 8, 41. Movidos das aclamações que o povo dava a Jesus Cristo, e da fama que corria dos seus milagres, conceberam grande desejo de o ver.

21Êstes pois se encaminharam a Filipe, que era de Betsaida de Galiléia, e lhe fizeram esta rogativa, dizendo: Senhor, nós quiséramos ver a Jesus:

22Veio Filipe dizê-lo a André: Então André e Filipe o disseram a Jesus.

23E Jesus lhes respondeu, dizendo: E' chegada a hora em que o Filho do homem será glorificado.

24Em verdade, em verdade vos digo, que se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer:

25Fica êle só: Mas se êle morrer, produz muito fruto. O que ama a sua vida, perdê-la-á: E o que aborrece a sua vida neste mundo, conserva-la-á para a vida eterna.

26Se alguém me serve, siga-me: E onde eu estiver, estará ali também o que me serve: Se alguém me servir meu Pai o honrará.

27Agora presentemente está turbada a minha alma. E que direi eu? Pai, livra-me desta hora. Mas para padecer nesta hora é que eu vim a ela.[4]Está turbadaCom a memória da morte, excitada pela espécie da futura conversão do gentilismo, que havia de ser consequência, e fruto da mesma morte. — Amelote. E que direi eu? — Aqui se está vendo o combate, que a memória da morte excitou entre a porção inferior e a superior da humanidade; não porque esta pudesse desobedecer ao decreto absoluto do Pai, mas para mostrar como era verdadeiro homem, lhe era custosa a sua execução: Pai, livra-me desta hora. Eis aqui a voz da natureza fugindo da morte. Mas para padecer nesta hora é que eu vim. Eis aqui a voz da obediência resignando-se no decreto do Pai. — Amelote.

28Pai, glorifica o teu nome. Então veio esta voz do Céu: Eu não só o tenho já glorificado, mas ainda o glorificarei.

29Ora, o povo que ali estava, e ouvira aquela voz, dizia que havia sido um trovão. Outros diziam: Algum Anjo lhe falou.

30Respondeu Jesus, e disse: Esta voz não veio por amor de mim, mas veio por amor de vós outros.

31Agora é o juízo do mundo: Agora será lançado fora o príncipe dêste mundo.

32E eu quando fôr levantado da terra, tôdas as coisas atrairei a mim mesmo:

33(E dizia isto, para designar de que morte havia de morrer.)

34Respondeu-lhe o povo: Nós temos ouvido da lei que o Cristo permanece para sempre: Como dizes tu logo: Importa que o Filho do homem seja levantado? Quem é êste Filho do homem?

35Respondeu-lhes então Jesus: Ainda por um pouco de tempo está a luz convosco. Andai enquanto tendes luz, para que vos não apanhem as trevas, porque quem caminha em trevas, não sabe por onde vai.

36Enquanto tendes a luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Isto disse Jesus, e retirou-se, e escondeu-se dêles.

37Mas sendo tantos os milagres que fizera em sua presença, não criam nêle.

38Para se cumprir a palavra do profeta Isaías, a qual êle proferiu: Senhor, quem chegou a crêr o que ouviu de nós? E a quem foi revelado o braço do Senhor?[5]O braço do SenhorÊste braço de Deus é o mesmo Jesus Cristo, que é a virtude e força do Pai, figurada no braço, e o seu instrumento para concluir a grande obra do estabelecimento da Igreja, e da redenção dos homens. — Sacy.

39Por isso não podiam crer, porque outra vez disse Isaías:

40Êle obcecou-lhes os olhos, e obdurou-lhes o coração: Para que não vejam com os olhos, e não entendam com o coração: E se convertam, e eu os sare.

41Isto disse Isaías, quando viu a sua glória, e falou dêle.[6]Quando viu a sua glória e falou dêleOs Padres entendem estas palavras daquela célebre visão que se descreve no capítulo 6, dêste profeta, na qual lhe foi representada a glória de Deus, e por conseguinte a de seu Filho, de que aqui fala. Tão patente está neste lugar a Divindade de Jesus Cristo, que só ela bastaria para confundir aos Socinianos. — Pereira.

42Contudo isto também creram nêle muitos senadores, mas por causa dos fariseus não o confessavam, por não serem expulsos da Sinagoga:

43Porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus.

44Mas Jesus levantou a voz, e disse: O que crê em mim, não crê em mim, mas naquele que me enviou.

45E o que me vê a mim vê aquele que me enviou.

46Eu, que sou a luz, vim ao mundo: Para que todo o que crê em mim, não fique em trevas.

47E se alguém ouvir as minhas palavras e não as guardar: Eu não o julgo: Porque não vim a julgar o mundo, mas a salvar o mundo.

48O que me despreza, e não recebe as minhas palavras, tem quem no julgue: A palavra, que eu tenho falado, essa o julgará no dia último.

49Porque eu não falei de mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, é o mesmo que me prescreveu pelo seu mandamento, o que eu devo dizer, e o que devo falar.

50E eu sei que o seu mandamento é a vida eterna. Assim que o que eu digo digo-o segundo mo disse o Pai.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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