Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

Ressuscita Jesus a Lázaro. Ajunta-se o supremo conselho contra Jesus. O pontífice Caifás profetiza que devia um morrer por todos. Retira-se Jesus a Efrem. Dá o conselho ordem para o prenderem.

1Estava pois enfêrmo um homem, chamado Lázaro, que era da aldeia de Betânia, onde assistiam Maria e Marta, suas irmãs.

2(E esta Maria era aquela que ungiu o Senhor com o bálsamo, e lhe limpou os pés com os seus cabelos; cujo irmão Lázaro estava enfermo.)[1]Que ungiu o SenhorEm casa de Simão o leproso, como ouvimos em Mt 14, 3. — Pereira.

3Mandaram pois suas irmãs dizer a Jesus: Senhor, eis aí está enfêrmo aquele que tu amas.

4E ouvindo isto Jesus, disse-lhes: Esta enfermidade não se encaminha a morrer, mas a dar glória a Deus, para o Filho de Deus ser glorificado por ela.

5Ora, Jesus amava a Marta, e a sua irmã Maria, e a Lázaro:

6Tanto que ouviu pois que Lázaro estava enfermo, deixou-se então ficar ainda dois dias no mesmo lugar:

7Depois, passado isto, disse a seus discípulos: Tornemos outra vez para a Judéia.

8Disseram-lhe os discípulos: Mestre, ainda agora queriam apedrejar-te os judeus, e tu vais outra vez para lá?[2]E tu vaisAinda que os discípulos amavam a seu mestre e o temor de perdê-lo sugeria estas razões, para o persuadirem a que não voltasse à Judéia, isto não obstante se conhece que nasciam de amor próprio e de pusillanimidade, porque viam que na necessidade de seguir ao Senhor, expunham êles também a sua vida, ao mesmo perigo, e por isso procuram dissuadi-lo. Êstes discípulos tão covardes e tão fracos durante a vida, e à vista do seu mestre, depois da sua morte, Ressurreição, Ascensão e vinda do Espírito Santo, fizeram frente a todos os perigos, e derramando o seu sangue, deram e deixaram a todo o mundo, um testemunho inegável da verdade de todos êstes grandes mistérios. — Pereira.

9Respondeu-lhes Jesus: Não são doze as horas do dia? Aquele que caminhar de dia não tropeça, porque vê a luz dêste mundo:

10Porém o que andar de noite tropeça, porque lhe falta a luz.

11Assim falou, e depois disto lhes disse: Nosso amigo Lázaro dorme: Mas eu vou despertá-lo do sono.

12Disseram-lhe então seus discípulos: Senhor, se êle dorme estará são.

13Mas Jesus tinha falado da sua morte: e êles entenderam que falava do dormir do sono.

14Disse-lhes pois Jesus então abertamente: Lázaro é morto.

15E eu por amor de vós folgo de me não ter achado lá, para que acrediteis: Mas vamos a êle.[3]Para que acrediteisPara que se confirme e aumente a vossa fé.

16Disse então Tomé, chamado Dídimo, aos outros condiscípulos: Vamos nós também, para morrermos com êle.

17Chegou enfim Jesus, e achou que Lázaro estava na sepultura havia já quatro dias.

18(Estava pois Betânia em distância de Jerusalém, perto de quinze estádios).

19E muitos dos judeus tinham vindo a Marta e a Maria, para as consolarem na morte de seu irmão.

20Marta pois tanto que ouviu que vinha Jesus, saiu a recebê-lo: E Maria ficou em casa.

21Disse então Marta a Jesus: Senhor, se tu houveras estado aqui, não morrera meu irmão.

22Mas também sei agora que tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá.[4]Que tudo o que pedires a DeusDepois da amorosa queixa, se animou a dizer-lhe, que ainda que seu irmão fosse morto e estivesse supultado de quatro dias, com isso estava persuadida que Deus lhe concederia tudo o que pedisse, que era como pedir-lhe que o ressuscitasse. Com estas palavras manifesta também, que o respeitava como um grande profeta e como um santo de um grande valimento para com Deus. S. Cirilo. Porém, ao mesmo tempo nos ensina, que se roga a Deus com maior eficácia, quando com uma humilde resignação nos entregamos à sua vontade, e lhe pedimos que nos conceda aquilo que conhece ser-nos mais útil e conveniente. — S. Bernardo.

23Respondeu-lhe Jesus: Teu irmão há de ressurgir.[5]Teu irmãoNão lhe diz: eu o ressuscitarei, porque como Deus que sou, não necessito de valer-me de outro, senão ressuscitará dando-nos em todos os seus discursos um exemplo admirável de humildade e de modéstia. — S. João Crisóstomo.

24Disse-lhe Marta: Eu sei que êle ha de ressurgir na ressurreição, que haverá no último dia.

25Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida: O que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.

26E todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Crês isto?

27Ela lhe disse: Sim, Senhor, eu já estou na crença de que tu és o Cristo, Filho de Deus vivo, que vieste a êste mundo.

28E dito isto, retirou-se Marta, e foi chamar em segrêdo a sua irmã Maria, a quem disse: E' chegado o Mestre, e êle te chama.

29Ela, como ouviu isto, levantou-se logo, e foi buscá-lo.

30Porque ainda Jesus não tinha entrado na aldeia: Mas estava ainda naquele mesmo lugar, onde Marta saira a recebê-lo.

31Então os judeus, que estavam com ela em casa, e a consolavam, como viram que Maria se havia levantado tão depressa, e tinha saído, foram nas suas costas dizendo: Ela vai chorar ao sepulcro.

32Maria, porém, depois de chegar aonde Jesus estava, tanto que o viu, lançou-se aos seus pés, e disse-lhe: Senhor, se tu houveras estado aqui, não morrera meu irmão.

33Jesus, porém, tanto que viu chorar a ela, e chorar os judeus, que tinham vindo com ela, afligira-se em seu espírito, e turbou-se a si mesmo.[6]E turbou-se a si mesmoOs mais homens, diz Santo Agostinho, turbam-se sem querer turbar-se, Jesus turba-se, porque quer. — Duhamel.

34E perguntou: Onde o pusestes vós? Responderam-lhe êles: Senhor, vem e vê.

35Então chorou Jesus.

36O que foi causa de dizerem os judeus: Vejam como êle o amava.

37Mas alguns de entre êles disseram: Êste, que abriu os olhos ao que era cego de nascença, não podia fazer que êste outro não morresse?

38Jesus, pois, tornando a bramir em si mesmo, veio ao sepulcro: E era êste uma gruta: E em cima dela se havia pôsto uma campa.[7]E em cima dela se havia pôsto uma campaOutros trasladam: «cuja entrada haviam tapado com uma pedra». Os mais pobres eram simplesmente enterrados em terra, porém os mais ricos tinham sepulcros à parte para si e para a sua família. Êstes sepulcros eram, ou grutas feitas pela natureza, como se acham em crescido número na Síria, ou que faziam abrir em uma rocha. Depois de haverem depositado nelas os cadáveres, tapavam a entrada com uma pedra, para os defenderem dos insultos, principalmente das feras e dos animais.

39Disse Jesus: Tirai a campa. Respondeu-lhe Marta, irmã do defunto: Senhor, êle já cheira mal, porque é já de quatro dias.

40Disse-lhe Jesus: Não te disse eu, que se tu crêres verás a glória de Deus?

41Tiraram pois a campa: E Jesus levantando os olhos ao Céu, disse: Pai, eu te dou graças, porque me tens ouvido:

42Eu pois bem sabia que tu sempre me ouves, mas falei assim por atender a êste povo, que está à roda de mim, para que êles creiam que tu me enviaste.[8]Sempre me ouvesPorque sendo verdadeiramente seu único Filho, pela união inefável do homem com Deus na Pessoa do Verbo, não podia deixar de ser ouvido, porque o Pai e o Filho querem sempre uma mesma coisa. — Santo Tomás.

43Tendo dito estas palavras, bradou em alta voz: Lázaro, sai para fora.[9]Bradou em alta vozPara denotar, diz o mesmo Santo Agostinho, quão dificultosa seja a conversão de um pecador inveterado nos vícios. Sacy. — Esta é a voz de um Deus Onipotente, que tem em seu poder as chaves da morte e da vida, e isto mesmo quis o Senhor que compreendessem os que o ouviam clamar desta maneira. Assim se obram os milagres que excedem às forças e às leis da natureza. Obram-se em um instante, e sem empregar mais que a palavra ou a vontade. A ressurreição dos mortos se obra do mesmo modo que a criação, assim que uma e outra são obra do mesmo poder.

44E no mesmo instante saiu o que estivera morto, ligados os pés e mãos com as ataduras, e o seu rosto estava envolto num lenço. Disse Jesus aos circunstantes: Desatai-o e deixai-o ir.[10]Num lençoAqui se viu um duplicado milagre, porque não sòmente ressuscitou Lázaro à voz do Autór da Natureza, senão que atado como estava saiu do sepulcro, tirando dêste modo aos judeus tôda a ocasião de poderem duvidar do milagre, ou de calúniá-lo de que havia usado de alguma ilusão para os enganar. E por esta razão mandou que êles mesmos o desatassem, para que reconhecessem se era verdade que estava vivo, e que realmente andava pelo seu pé, o que havia quatro dias que estava enterrado, com sinais indefectíveis de estar morto. A maneira de amortalhar que costumavam os judeus, era cobrir com um lenço a cabeça e a cara do defunto, envolvendo o resto do corpo em um pano ou lençol, que enfaixavam com muitas tiras desde as costas até aos pés. Desatai-o — Ainda depois de ressurgir, e de sair do sepulcro, é necessário ao pecador que o desatem, isto é, que o absolvam os ministros da Igreja, Santo Agostinho neste lugar: Quid est solvite, et sinite abire? Quae solveritis in terra, soluta erunt in caelo. — Duhamel. A ressurreição de Lázaro é um dos assuntos mais triviais nas catacumbas de Priscila e de Domitila.

45Então muitos dentre os judeus, que tinham vindo visitar a Maria e a Marta, e que tinham presenciado o que Jesus fizera, creram nêle.

46Porém alguns dêles foram ter com os fariseus, e disseram-lhes o que Jesus tinha feito.

47Por cuja causa se ajuntaram os pontífices e os fariseus em conselho, e diziam: Que fazemos nós, que êste homem faz muitos milagres?

48Se o deixamos assim livre, crerão todos nêle: e virão os romanos e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nossa gente.

49Mas um dêles, por nome Caifás, que era o pontífice daquele ano, disse-lhes: Vós não sabeis nada.

50Nem considerais que vos convém que morra um homem pelo povo, e que não pereça tôda a nação.

51Ora, êle não disse isto de si mesmo: Mas como era pontífice daquele ano, profetou que Jesus tinha de morrer pela nação,[11]ProfetouDeus, que costumava falar ao seu povo pela bôca do Sumo Sacerdote, dirigiu nesta ocasião a língua e espírito de Caifás, para que pronunciasse um oráculo, cujo verdadeiro sentido êle mesmo não entendia. Êle falou de si mesmo, que convinha tirar do mundo, e fazer morrer aquele homem, para que por sua causa não perecesse tôda a nação; e êste conselho lhe foi sugerido por uma falsa política, que lhe ditara, que devia ser oprimido um inocente, por um perigo remoto e imaginário. Mas não falou de si mesmo a verdade do mistério que compreendiam estas mesmas palavras, isto é, que o Filho de Deus, feito homem, devia morrer para salvar o universo. E assim o Senhor se serviu da bôca de Caifás, como em outro tempo da de Balaão, para profetizar o mistério inefável da nossa Redenção. Ao mesmo tempo quis o Senhor dar-nos a entender, quanto respeito se deve aos seus ministros, e aos que estão em seu lugar, ainda que sejam maus e perversos, pois assim honrou o mesmo Senhor a dignidade de que estão revestidos, e os lugares que ocupam em seu nome. — Santo Tomás.

52E não sòmente pela nação, mas também para êle unir num corpo os filhos de Deus que estavam dispersos.

53Desde aquele dia pois cuidavam êles em ver como lhe dariam a morte.

54De sorte que já não andava Jesus em público entre os judeus, mas retirou-se para uma terra vizinha do deserto, a uma cidade chamada Efrem, e lá estava com seus discípulos.

55E estava próxima a Páscoa dos judeus: E muitos daquela terra subiram a Jerusalém antes da Páscoa, para se purificarem a si mesmos.

56E buscavam a Jesus: E diziam uns para os outros estando no Templo: Que julgais vós de não ter vindo a êste dia de festa? Mas os pontífices e fariseus tinham passado ordem, que todo o que soubesse onde Jesus estava, o denunciasse para o prenderem.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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