Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 13

Lava Jesus os pés a seus discípulos. Deve este exemplo ser imitado. Descobre Jesus a João quem é o que o há de entregar. Diz que é chegada a sua glória. Estabelece o seu novo mandamento da caridade. Prediz a Pedro que êle o negará três vêzes.

1Antes do dia da festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora, de passar dêste mundo ao Pai: Como tinha amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim.

2E acabada a ceia, como já o diabo tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a determinação de o entregar:

3Sabendo que o Pai depositara em suas mãos tôdas as coisas, e que êle saíra de Deus, e ia para Deus:

4Levantou-se da ceia, e dispôs suas vestiduras: E pegando numa toalha, cingiu-se.

5Depois lançou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e limpar-lhos com a toalha com que estava cingido.

6Veio pois a Simão Pedro. E disse-lhe Pedro: Senhor, tu a mim me lavas os pés?[1]Tu a mimSenhor, vós que sois o Filho único de Deus vivo, e o Senhor de todo o mundo, vós me haveis de lavar os pés, a mim que sou um grande pecador, e uma formiga da terra! — Santo Agostinho.

7Respondeu Jesus, e disse-lhe: O que eu faço, tu não o sabes agora, mas sabê-lo-ás depois.[2]Mas sabê-lo-ás depoisQuando eu tiver explicado o mistério disto que vos faço, e muito melhor quando vós tiverdes recebido do Espírito Santo a inteligência dêste, e dos outros arcanos.

8Disse-lhe Pedro: Não me lavarás tu jamais os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu te não lavar, não terás parte comigo.

9Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não sòmente os meus pés, mas também as mãos, e a cabeça.

10Disse-lhe Jesus: Aquele que está lavado, não tem necessidade de lavar senão os pés, e no mais todo êle está limpo. E vós outros estais limpos, mas não todos.

11Porque êle sabia qual era o que o havia de entregar, por isso disse: Não estais todos limpos.

12E depois que lhes lavou os pés, tomou logo as suas vestiduras, e tendo-se tornado a pôr a mesa, disse-lhes: Sabeis o que vos fiz?

13Vós chamais-me Mestre e Senhor, e dizeis bem: Porque o sou.

14Se eu logo sendo vosso Senhor, e Mestre, vos lavei os pés, deveis vós também lavar-vos os pés uns aos outros:

15Porque eu dei-vos o exemplo, para que como eu vos fiz, assim façais vós também.

16Em verdade, em verdade vos digo: Não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou.

17Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes.

18Eu não digo isto de todos vós, eu sei os que tenho escolhido: Porém, é necessário que se cumpra o que diz a Escritura. O que come o pão comigo, levantará contra mim o seu calcanhar.[3]LevantaráSl 11, 10. O que deve entender-se de Judas. Literalmente fala o profeta Davi, queixando-se de Aquitofel, que havendo sido admitido à mais estreita confiança dêste príncipe, o vendeu depois vergonhosamente, rebelando-se contra êle, e passando ao partido de Absalão, a quem deu um conselho mui pernicioso contra Davi. Rs 17, 21. Veja-se Santo Agostinho.

19Desde agora vo-lo digo, antes que suceda, para que quando suceder acrediteis que eu sou.[4]Que eu souPara que creiais que eu sou o Messias, que sou o Filho de Deus, pois penetro os corações e anuncio o que há de vir.

20Em verdade, em verdade vos digo: O que recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe, e o que me recebe a mim, recebe aquele que me enviou.

21Tendo Jesus dito estas palavras, turbou-se todo no espírito e protestou, e disse: Em verdade, em verdade vos digo: Que um de vós me há de entregar.

22Olhavam pois os discípulos, uns para os outros, na dúvida de quem falava êle.

23Ora um dos seus discípulos, ao qual amava Jesus, estava recostado à mesa no seio de Jesus.[5]Ao qual amava JesusÊste era S. João. No seio de Jesus — Os orientais não se sentavam à mesa, mas recostavam-se sôbre camas, que se chamavam triclínios, porque eram três os que se acomodavam em cada uma, e ajudados do cotovêlo esquerdo, ficavam em tal disposição, que a cabeça do segundo vinha a cair sôbre o peito do primeiro, e esta era a situação que tinha João a respeito de Jesus Cristo.

24A êste pois fez Simão Pedro um sinal, e disse-lhe: Quem é o de quem êle fala?[6]Quem é o de quem êle fala?O grego diz: «Que perguntasse quem era de quem êle falava». — Pereira.

25Aquele discípulo pois tendo-se reclinado sôbre o peito de Jesus, perguntou-lhe: Senhor, quem é êsse?

26Respondeu Jesus: E' aquele a quem eu der o pão molhado. E tendo molhado o pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes.

27E atrás do bocado entrou nele satanaz. E Jesus lhe disse: O que fazes, faze-o depressa.[7]O que fazes, faze-o depressaFaze quanto antes o que tens determinado fazer. Não foi êste um mandamento que o Senhor deu a Judas, para que pusesse a última mão à sua aleivôsia, mas sim uma permissão. Não no exorta a que cumpra a sua malvada determinação, mas sim mostra-se disposto e pronto para sofrer tudo. — S. Leão Magno.

28Nenhum porém dos que estavam à mesa percebeu a que propósito êle lhe dizia isto.

29Porque alguns, como Judas era o que tinha a bolsa, cuidavam que lhe dissera Jesus: Compra as coisas que havemos mister para o dia da festa: Ou que desse alguma coisa aos pobres.

30Tendo pois Judas recebido o bocado, saíu logo para fora. E era já noite.

31E depois que êle saiu, disse Jesus: Agora é glorificado o Filho do homem: E Deus é glorificado nele.[8]E Deus é glorificado nelePela sua ressurreição, e pela sua ascensão ao Céu. E a sua morte, destruindo o reino do pecado, vai dar a Deus a glória, que as criaturas rebeldes lhe quiseram tirar.

32Se Deus é glorificado nele, também a êle o glorificará Deus em si mesmo: E glorificá-lo-á logo.

33Filhinhos, ainda estou convosco um pouco. Vós buscar-me-eis, e o que eu disse aos judeus: Vós não podeis vir para onde eu vou: Isso mesmo vos digo eu agora.

34Eu dou-vos um novo mandamento: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei, para que vós também mutuamente vos ameis.[9]Um novo mandamentoNovo não na substância, mas na maior perfeição, de que Jesus Cristo o revestiu: qual é amarmos os nossos próximos, como êle nos amou, até dar a vida por nós. Assim o explicam comumente os Santos Padres. Outros querem que se chama «novo», porque o que se achava escrito na Lei de Moisés, estava como esquecido, entre os mesmos judeus, e corrompido com as más interpretações dos seus doutores, e porque na lata acepção em que Jesus o tomara nunca havia sido escutado.

35Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.

36Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, para onde vais tu? Respondeu-lhe Jesus: Para onde eu vou não podes tu agora seguir-me: Mas seguir-me-ás depois.

37Disse-lhe Pedro: Por que te não posso eu seguir agora? Eu darei a minha vida por ti.[10]Eu dareiNão podia ouvir falar de apartar-se de Cristo, ainda que fosse por pouco tempo. Era como um enfermo, a quem enganava a vontade, porém não conhecia enfermidade que o consumia e acabava. Tinha ouvido dizer ao Senhor, que não poderia segui-lo, e isso não obstante, replica, que bem podia. Mas a experiência lhe ensinou depois, que o amor que cria ter a seu mestre, era vão sem o socorro que vem do alto. — Santo Agostinho.

38Respondeu-lhe Jesus: Hás de dar a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Que não cantará o galo, sem que tu me negues três vezes.

A tradição é unânime em atribuir o quarto Evangelho a S. João. Todos os Padres que falam dêste Evangelho proclamam como seu autor o apóstolo S. João, o discípulo a quem Jesus amava; apenas a seita dos Aloges, que negava a Divindade do Verbo, discordou desta afirmação. S. João, irmão de Tiago, era filho de Zebedeu e de Salomé, e natural de Betsaida. André, confiado na palavra do Mestre, foram com Pedro, Filipe e Natanael procurar Jesus, sendo os primeiros que ao Divino Mestre se juntaram (Jo 1, 35). Um ano mais tarde Jesus escolhe os doze Apóstolos e a lista insere S. João ao lado de Pedro (At 1, 13). S. João está porém bem averiguado que mais tarde partiu para Éfeso, onde continuou os seus trabalhos apostólicos, e onde esteve até ao fim do primeiro século. Êste Evangelho, destinado à Igreja Universal, foi dirigido duma maneira especial às Igrejas da Ásia menor e à sua metrópole, Éfeso, onde S. João tinha trabalhado, e cujas necessidades o determinaram a escrever.
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