Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

Recomenda o Apóstolo aos Coríntios o cuidado dos pobres de Jerusalém. Promete ir vê-los. Desculpa a Apolo de não ter vindo. Recomenda-lhes a Timóteo, e a casa de Estéfanas. Conclui com várias saudações.

1Quanto porém às coletas, que se fazem a beneficio dos Santos, fazei também vós o mesmo que eu ordenei às igrejas da Galácia.

2Ao primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte alguma soma em sua casa, guardando assim o que bem lhe parecer: Para que se não façam as coletas quando eu chegar.[1]o que bem lhe parecerO QUE BEM LHE PARECER — É à letra o que diz a Vulgata. O original Grego tem: o em que tiver sido bem sucedido, isto é, uma racionável parte dos ganhos lícitos que tiver conseguido pela sua indústria e favor Divino, dependendo sempre dêste modo segundo as suas posses, como verte Amelote, segundo a fôrça do mesmo Original Grego, que Éstio expende.

3E quando eu fôr presente: Aos que vós aprovardes por cartas, a êsses tais enviarei eu, para que levem a Jerusalém o vosso socorro.[2]Aos que vós aprovardes por cartasAOS QUE VÓS APROVARDES POR CARTAS — Por cartas, que ou me tenhais escrito a mim, apontando quais êles devem ser: (Que é como o entendem Amelote, Calmet) ou por cartas, que hajais de escrever a Jerusalém pelos mesmos portadores, em recomendação sua, como o explica Éstio com Aires Montano.

4E se a coisa merecer que também vá eu mesmo, irão comigo.

5Eu porém irei ver-vos, depois que tiver passado pela Macedônia: Porque tenho de passar pela Macedônia.

6E talvez que ficarei convosco, e passarei também o inverno: Para que vós me acompanheis aonde eu houver de ir.

7Porque não vos quero agora ver de passagem, antes espero demorar-me algum tempo convosco, se o Senhor o permitir.

8E ficarei em Éfeso até à festa de Pentecostes.

9Porque se me abriu uma porta grande, e espaçosa: E os adversários são muitos.

10E se vier Timóteo, vêde que esteja sem temor entre vós: Porque trabalha na obra do Senhor, assim como eu também.

11Portanto nenhum o tenha em pouco: Antes o acompanhai em paz, para que venha ter comigo: Porque o espero com os irmãos.

12E vos faço saber do irmão Apolo, que lhe roguei muito que passasse a vós outros com os irmãos: E na verdade não foi sua vontade o ir agora ter convosco: Mas irá quando tiver oportunidade.

13Vigiai, estai firmes na fé, portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos.

14Tôdas as vossas obras sejam feitas em caridade.[3]Tôdas as vossas obras sejam feitas em caridadeTODAS AS VOSSAS OBRAS SEJAM FEITAS EM CARIDADE — Isto é, por motivo de caridade, de sorte, que a ela se refiram ao menos virtualmente. Assim o explicam Santo Agostinho, tanto no seu Manual, cap. 12, como no Livro da Graça, e do Livre Alvedrio, cap. 17, e com êle Santo Tomás expondo êste mesmo lugar do Apóstolo. Não é preciso porém, como adverte Éstio, que para as nossas ações saírem retificadas, procedam sempre da caridade perfeita, qual é a dos que estão em graça de Deus, mas basta que se radiquem nalguma caridade, ainda que sòmente inicial, imperfeita, como já na outra parte.

15Rogo-vos porém, irmãos, pois já conheceis a casa de Estéfanas, e de Fortunato, e de Acaico; porque são as primícias da Acaia, e se consagraram ao serviço dos Santos:

16Que não só vós sejais obedientes a êstes tais, mas também a todo aquêle que nos ajuda, e trabalha.

17E eu me alegro com a vinda de Estéfanas, e de Fortunato, e de Acaico: Porque o que a vós vos faltava, êles o supriram:

18Porque recrearam assim o meu espírito, como o vosso. Tende pois consideração com tais pessoas.

19As igrejas da Ásia vos saudam. Muito vos saudam no Senhor, Áquila, e Priscila, com a igreja de sua casa: Na qual até me acho hospedado.

20Todos os irmãos vos saudam. Saudai-vos uns aos outros no ósculo santo.

21Eu, Paulo, escrevi de meu próprio punho a seguinte saudação.[4]de meu próprio punhoDE MEU PRÓPRIO PUNHO — Tudo o que precede a esta carta foi ditado pelo Apóstolo, e escrito por amanuense: mas o presente verso, e os seguintes foram escritos pela sua própria mão. — Menóchio.

22Se algum não ama a nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema, Maran-Ata.[5]Se algum não ama a nosso Senhor Jesus Cristo, seja anátema, Maran-AtaSE ALGUM NÃO AMA A NOSSO SENHOR JESUS CRISTO — Como o não amam os judeus, que blasfemam o seu Nome, e os hereges, que impugnam a sua doutrina. Assim Éstio com Santo Tomás. SEJA ANÁTEMA, MARAN-ATA — Anátema já notámos na Epístola aos Romanos, que significa na frase das Escrituras a pessoa, ou coisa, que como excrável se deve separar, e expelir. As outras duas vozes, Maran-Ata, S. Jerônimo, numa carta a Marcela diz, que na língua siríaca e hebraica querem dizer, Nosso Senhor velo. E isto confirma, que os contra quem o Apóstolo fala deste lugar, são principalmente os judeus.

23A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco.[6]A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convoscoA GRAÇA — Depois de interpor no verso antecedente uma execração contra os que não têm amor de Deus, e que por isso são indignos de se salvarem, escreve agora a saudação, que afirmou ter escrito pelo seu próprio punho. — Menóchio.

24O meu amor é por vós todos em Jesus Cristo. Amém.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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