Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 8

Os ídolos não são nada. Os manjares, que lhes foram oferecidos, não são proibidos. Mas não se deve comer dêles contra o ditame da própria consciência, nem quando outros se escandalizam por isso.

1No tocante porém às coisas que são sacrificadas aos ídolos sabemos que todos temos ciência. A ciência envaidecc, mas a caridade edifica.[1]todos temos ciênciaQUE TODOS TEMOS CIÊNCIA — Que ciência? a de que o Apóstolo fala no verso 4, que é, que isto de ídolos não é nada. — Êstio.

2E se algum se lisonjeia de saber alguma coisa, êste ainda não conheceu de que modo convém que êle saiba.

3Mas se algum ama a Deus, êsse é conhecido dêle.

4Acêrca porém das viandas, que são imoladas aos ídolos, sabemos que os ídolos não são nada no mundo, e que não há outro Deus, senão só um.[2]os ídolos não são nada no mundoSABEMOS QUE OS ÍDOLOS NÃO SÃO NADA NO MUNDO — Os ídolos, não tomados materialmente, segundo os metais, de que são compostos, mas tomados formalmente pelo que no conceito dos gentios significam, que são umas divindades quiméricas. — Êstio.

5Porque ainda que haja alguns que se chamem deuses, ou no Céu, ou na terra (e assim sejam muitos os deuses, e muitos os senhores):[3]e assim sejam muitos os deuses, e muitos os senhoresOU NO CÉU, OU NA TERRA — Alude o Apóstolo à divisão dos deuses que, segundo a Mitologia dos gentios uns eram celestes, outros terrestres. — Êstio.

6Para nós, contudo, há só um Deus, o Padre, de quem tiveram o ser tôdas as coisas, e nós nêle: E só um Senhor Jesus Cristo, por quem tôdas as coisas existem, e nós outros por êle.[4]há só um Deus, o PadreHÁ SÓ UM DEUS, O PADRE — O nomear por Deus sòmente ao Pai, não é porque exclua de ser Deus também o Filho e o Espírito Santo, mas é porque o Pai é a Fonte da Divindade, que comunica o ser Divino às outras duas pessoas. E o nomear por Senhor, sòmente ao Filho, é porque o Filho pelo direito da redenção é com especialidade Senhor dos homens, imitando a locução do Apóstolo, dizemos nós no Símbolo da nossa Fé, com os Santos Padres, que o compuseram. Creio num só Deus, Padre todo poderoso, Criador do Céu e da terra, e num só Senhor Jesus Cristo seu Filho Unigênito. — Êstio.

7Mas nem em todos há conhecimento. Porque alguns até agora com consciência do ídolo, comem como do sacrificado a ídolo: E a consciência dêstes, como está enferma, é contaminada.[5]Porque alguns até agora com consciência do ídoloMAS NEM EM TODOS — O Apóstolo tinha dito no verso 1, que todos tinham ciência. Como diz agora no verso 7, que nem todos a têm? É porque fala do bom uso da ciência no sentido do verso 2. — Êstio. COM CONSCIÊNCIA DO ÍDOLO — Isto é, crendo com consciência errônea, que o ídolo tem alguma virtude para transmutar a natureza dos manjares oferecidos e que assim pode obrar, ou causa alguma contaminação nos que comem deles. — Êstio.

8E a comida não nos faz agradáveis a Deus. Porque nem comendo-a, seremos mais ricos: Nem seremos mais pobres, não a comendo.

9Mas vêde que esta liberdade que tendes, não seja talvez ocasião de tropeço aos fracos.

10Porque se algum vir ao que tem ciência estar assentado à mesa no lugar dos ídolos: Porventura com a sua consciência que está enferma, não se animará a comer do sacrificado aos ídolos?

11E pela tua ciência perecerá o teu irmão fraco, pelo qual morreu Cristo?

12E dêste modo pecando contra os irmãos, e ferindo a sua débil consciência, pecais contra Cristo.

13Pelo que se a comida serve de escândalo a meu irmão: Nunca jamais comerei carne, por não escandalizar a meu irmão.[6]Nunca jamais comerei carneNUNCA JAMAIS COMEREI CARNE — Grande e tremenda doutrina para os que, sem fazerem caso de escandalizar o próximo, comem carne sem nenhuma necessidade e contra o preceito expresso da Igreja. — Pereira.

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Causa determinante desta Epístola.Corinto, a capital de Acaia, era uma cidade declarada colônia romana por Julio César, a primeira da Grécia, pois contava cêrca de seiscentos mil habitantes de todas as nacionalidades, Latinos, Gregos, Judeus, etc. A tão grande e variada população correspondia naturalmente singular opulência, notabilizando-se pela sua vasta atividade e pelo seu luxo. Cícero chamava-lhe Totius Graeciae lumen. A sua posição geográfica, no istmo que une o Peloponeso à Grécia, entre o mar Egeu ao Oriente e o Jônio ao Ocidente, tornava Corinto um importante centro comercial. O comércio imprimia opulência à cidade, e esta aproveitava-se dessa riqueza para se entregar ao luxo e aos prazeres imoderadamente. O espetáculo que a cidade oferecia era de tal ponto dissolvente, que as orgias de agora não são senão pálida sombra de devassidão de então. O culto mais propagado e porventura o único praticado era o de Vênus. Compreende-se portanto bem quanto era árido o terreno sôbre que havia de cair a semente da palavra divina.

Era assim Corinto, a cidade que mais timbrava na corrupção de costumes, que inventava requintes da mais pervertida voluptuosidade no templo de Afrodite, quando S. Paulo, depois dos seus trabalhos Apostólicos na Macedônia, se resolveu ir ali pregar o Evangelho.

Que Corinto, pela sua posição, pela sua importância, pela sua riqueza, lhe oferecia vantagens extraordinárias ao seu Apostolado, fàcilmente se compreende, como se percebe também o desejo do Apóstolo a chegar até ali. Porém como pregar a castidade onde reinava a mais desenfreada crápula? Como pregar penitência e abnegação a quem vivia só da matéria e para a matéria? Por isso às primeiras tentativas seguiu-se o mais desanimador insucesso. E S. Paulo teve de se recolher em casa dum judeu converso, recentemente chegado de Roma, e de procurar pelo trabalho o indispensável para a sua sustentação (At 23, 2). E como se isto não bastasse para atormentar aquêle coração inflamado em zêlo pela salvação de tantas almas imersas no êrro, veio a enfermidade roubar-lhe as fôrças e tolher-lhe o seu apostolado. Todavia não desanimou, e apesar de pobre, fraco e doente, começou a ir ao sábado à sinagoga pregar, mas com uma certa timidez. Continuou o insucesso. Era preciso que a posteridade recolhesse uma lição de constância e de perseverança, era preciso tudo isto para que no decorrer dos séculos os apóstolos, a quem cumpre pregar a Jesus Cristo, aprendessem ali a firmeza no desempenho da sua missão.

Vendo S. Paulo que por êsse lado pouco conseguia, deixou a sinagoga, e abriu em casa de um prosélito uma escola para os pagãos. Foi então que êle mereceu uma visão que lhe encheu a alma de esperança, pois lhe era anunciado que ali estava o germen duma grande cristandade. Redobra o seu zêlo, multiplica a sua atividade, vence a sua própria fraqueza, cogita novas industrias para converter corações endurecidos, inicia rasgadamente a sua pregação, supera tôdas as dificuldades, e dá começo a uma ação apostólica, que se traduzia pelo ensino e pela beneficência, cativando assim todos os corações.

E' um quadro muito amplo êste do Apostolado de S. Paulo em Corinto, e sobretudo duma palpitante oportunidade para aquêles que nestes tempos têm por dever ensinar ao povo a doutrina de Jesus Cristo.

Por êste exemplo de S. Paulo se vê que, quem quiser ser Apóstolo, e conseguintemente benemérito da causa de Deus e da humanidade, não pode circunscrever a sua ação apostólica às quatro paredes do presbitério ou apenas dentro do templo. A sua ação tem de se exercer dum modo muito diverso; tem de aparecer em tôda a parte, destacando-se sempre pelas luzes do seu espírito, que devem iluminar, e pelas virtudes da sua alma que a todos devem edificar. E' preciso ir ao mundo para salvar o mundo.

Os primeiros sucessos da pregação de S. Paulo em Corinto foram entre o povo; as classes elevadas não aceitavam a palavra do grande Apóstolo. Não admira: aferrados aos seus preconceitos, escravos das suas paixões, no trono do seu orgulho, não querendo fitar desgraças nem sabendo enxugar lágrimas, não lhes soava bem uma doutrina que proclamava felizes os que choravam.

Ficassem êsses, revoltando-se no torvelinho dos seus crapulosos desmandos; os humildes, êsses iam formando, em muito pouco tempo, uma considerável cristandade. Quando frutificou a pregação de S. Paulo, inflamou-se a inveja dos judeus de Corinto, que se queixaram ao procônsul Galião, que pouco ou nenhum caso fêz da acusação, continuando S. Paulo em liberdade para pregar o Evangelho, o que fêz até ao ano 54 em que se retirou para a Palestina.

Estabelecida a Igreja entre os Coríntios, a breve trecho o Helenismo começa a causar uma certa perturbação nos espíritos, havendo uma tal ou qual cisão, agravada com a vinda de novos pregadores, que uns queriam escutar e a quem outros não queriam ouvir.

Daqui as controvérsias, as discussões estéreis, e a formação de vários partidos, e como consequência fatal os abusos. S. Paulo teve conhecimento dêste estado de coisas, amargurou-se extremamente e escreveu a sua Epístola.

Tempo e lugar em que foi escrita. — Esta epístola foi escrita na época em que se fazia a grande coleta para as Igrejas da Judéia; além disso havia dois anos que pregava a fé, e quatro ou cinco que tinha fundado a Igreja de Corinto, e ainda viviam muitos dos discípulos de Jesus que tinham presenciado a sua ressurreição, 1 Cor 15, 6. Por tudo isto os Padres assinam a esta epístola o ano 56. Quanto ao lugar não resta a menor dúvida que foi escrita em Éfeso, pois o próprio Apóstolo diz que ficara algum tempo em casa de Áquila e de Priscila, moradores nesta cidade durante a sua passagem por Corinto, 1 Cor 11, 19 cfr. At 13, 19-26.

Autenticidade. — Não se apresenta um fundamento sério para negar a autenticidade desta Epístola. Basta a sua leitura séria e refletida para trazer o convencimento indestrutível da sua autenticidade. A descrição dos trabalhos do autor, as recomendações doutrinais, as minudências a que chegou, os conselhos que dá, tudo o que aí se encontra só pode ser obra de S. Paulo.

Mas tôdas as considerações são supérfluas em face dos testemunhos decisivos dos Padres, da crença unânime dos fiéis. Além de Inácio Ad. Eph. 18, S. Policarpo, Ad Phil., a Epístola a Diognetes, nós temos um documento irrefragável em S. Clemente, papa, que, trinta anos mais tarde, escrevia aos Coríntios relembrando-lhes esta Epístola.

Divisão. — Esta Epístola difere muito da precedente, não só enquanto à matéria como enquanto à forma.

Esta Epístola não tem nada de dissertação nem de tratado dogmático, é uma série de avisos, reflexões, soluções dirigidas pelas circunstâncias e repartidas em sete artigos. Podemos contudo dividi-la da seguinte forma:

PRÓLOGO. — 1, 1-9.
PRIMEIRA SECÇÃO. — 1, 10-6, 20 Reforma dos abusos notados em Corinto.
    a) Abusos introduzidos por certos pregadores, cc. 1-4.
    b) Diversos escândalos dados por particulares, cc. 5 e 6.
SEGUNDA SECÇÃO. — Resposta às duvidas formuladas.
    a) Sôbre o casamento e sôbre o celibato, c. 7.
    b) Sôbre os manjares consagrados aos ídolos, cc. 8, 1-11, 1.
    c) Acêrca da ordem que deve reinar na assembléia religiosa, c. 11, 2-16.
    d) Do uso dos dons sobrenaturais, cc. 12-14.
    e) Sôbre a ressurreição, c. 15.

A leitura desta Epístola faz conhecer bem o espírito do Apóstolo e a primitiva disciplina da Igreja, ao mesmo tempo que revela o discernimento de S. Paulo, pois êle responde à carta que lhe fôra enviada pelas pessoas da casa de Cloé, à narração oral que lhe foi feita do estado da Igreja de Corinto, por Estéfanas e seus coadjutores, e as questões que os fiéis de Corinto propuseram ao seu critério para que êle lhes desse solução.

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