Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 31

Moisés nomeia a Josué por seu sucessor. Ordena que se leia a lei ao povo todos os sete anos. Deus lhe anuncia próxima a sua morte e lhe manda que componha um cântico.

1Foi Moisés pois e declarou tôdas estas coisas a todo o Israel,

2e lhes disse: Eu acho-me hoje com cento e vinte anos, não posso daqui em diante sair, nem entrar, prin cipalmente tendo-me'dito o Senhor: Tu não passarás êste Jordão., 1[1]CENTO E VINTE ANOS:Esta idade está perfeitamente de acôrdo com as anteriores; os hebreus passaram quarenta

3O Senhor teu Deus pois passará diante de ti: Êle mesmo extinguirá à vista de teus olhos tôdas estas na ções, e tu as possuirás: E êste Josué passará adiante de ti, como o Senhor disse.[2]JOSUâFilho de Nun, da tribo de Efralm, 1 Par 8, 27, aparece-nos como servo de Moisés no Ex 24, 13. Era dotado de destreza para a arte da guerra. Ex 17, 93; Jos 8, 1. 26 e 10, 9. 43 e foi destinado por Deus,' que o elegeu sucessor de Moisés, para conquistar a Terra Santa, Núm 27, 18-23. Tornou-se Josué digno de tão grande honra, já pela sua fé veemente, já pelo seu inque brantável valor; da sua confiança em Deus deu prova exuberante em Cadesbarne, Núm 14, 6-9 onde mostrou ao mesmo tempo ser dotado dum ânimo corajoso e audaz. Foi esta valentia e mais ainda esta crença ardente na proteção do Céu que lhe valeu a graça de entrar, como Caleb, na Terra Prometida..Núm 14, 30-38. E’ porém agora, quando Moisés o investe na sua missão, que éle aparece com tôdas essas virtudes em grau sublimado; a sua fé torna-se entu siasta; o seu ânimo invencível; o seu caráter inquebrantável; o seu valor irrivalizável: sabe-se impor, e sabe mandar; é dócil e enér gico: é violento e caritativo, ousado e refletido.

4E o Senhor tratará a estes povos, como tratou a Seon e a Og, reis dos amorreus, e ao seu país, e os ex terminará.

5Quando êlè pois vos tiver também entregado es tes,. vós vos havereis com êles da maneira que vos tenho mandado.

6Portai-vos varonilmente, e tende ânimo: não te mais, nem vos atemorizeis à vista deles: Porque o mes mo Senhor teu Deus é o teu condutor, e não te deixará, nem te desamparará.

7Chamou pois Moisés a Josué, e lhe disse diante de todo o Israel: Tem ânimo, e sê robusto: Porque tu hás de introduzir êste povo na terra, que o Senhor jurou a

8E o Senhor que é o vosso condutor, êle mesmo se r á contigo: êle te não deixará, nem te desamparará: Não temas, nem te assustes.

9Escreveu pois Moisés esta lei, e a entregou aos sacerdotes filhos de Levi, que levavam a arca do concerto do Senhor, e a todos os anciãos de Israel.[3]ESTA LEIEstas palavras constituem mais uma prova •da origem mosaica do Pentateuco; porque mesmo que se admitisse •que elas se devem entender estritlssimamente, referindo-as só ao Deateronômio, como êste é o resumo dos quatro livros antecedentes « pressupõe a sua existência, necessàriamente tinha de concluir ser o Pentateuco de Moisés.

10E lhes ordenou, dizendo: Passados sete anos, no ano da remissão, na solenid.ade dos tabernáculos,[4]ANO DA REMISSÃOE* o ano sabático.

11quando todos os filhos de Israel se ajuntarem para aparecer diante do Senhor teu Deus, no lugar que O Senhor tiver escolhido, lerás as palavras desta lei dian te de todo o Israel, ouvindo-as êles,

12e estando congregado todo o povo num mesmo lugar, assim homens, como mulheres, meninos, e estran geiros, que vivem das tuas portas para dentro: Para que ouvindo-a, a aprendam, e temam o Senhor vosso Deus, e guardem e cumpram tôdas as palavras desta lei:

13E também seus filhos, que agora as ignoram; para que as possam ouvir, e temam o Senhor seu Deus todo o tempo, que viverem na terra, que, passado o Jor dão, ides a possuir.

14Então disse o Senhor a Moisés: Olha que estão perto os dias da tua morte: Chama a Josué, e apresen tai-vos diante do tabernáculo do testemunho, para eu lhe

15e apareceu ali o Senhor na coluna de nuvem, a qual parou à entrada do tabernáculo.

16E disse o Senhor a Moisés: Eis-aí vás tu a dor mir com teus pais, e êste povo, levantando-se, se prosti tuirá a deuses estranhos na terra, em que está para entrar e para habitar nela: Ali me abandonará, e violará o con certo, que eu fiz com êle.

17E o meu furor se acenderá naquele dia contra êle: E eu o deixarei, e esconderei dêle o meu rosto, e êle será devorado: Sôbrc ele virão todos os males e afli ções, sobremaneira que dirá naquele dia: Em verdade, que por Deus não estar comigo, me vieram êstes males.

18Mas eu esconderei e ocultarei a minha face na quele dia, por causa de todos os males que êle fêz. por ter seguido a deuses estranhos.

19Agora pois escrevei para vós êste cântico, e cnsinai-o aos filhos de Israel: Para que êles o saibam de cor, e o cantem, e para que êste cântico me sirva de tes temunho entre os filhos de Israel.[5]ESCREVEI ASTE CÂNTICO:• É o cântico de Moisés que vem no capítulo seguinte; está escrito em verso para ser mais fà- cilmente retido pelo povo. Era costume, na antiguidade, reduzir a verso a narração dos tatos importantes que interessavam à vida dum povo, para que êste os não esquecesse. Até os legisladores re correram a êste meio; mas não é preciso ir tão longe, porque ainda agora.o povo retém íàcilmente quaisquer fatos ou preceitos, civis ou religiosos, quando escritos em verso.

20Porque eu o introduzirei na terra, que prometi com juramento a seus pais, que mana leite e mel. E de pois que tiverem comido, e se tiverem fartado, e engor dado, êles se converterão para deuses alheios, e os ser virão: E falarão contra mim, e violarão o meu pacto.

21Depois que tiverem caído sobre êles muitos ma les e aflições, falará em testemunho contra êle êste cân tico, o qual, andando na bôca de seus filhos, nunca ja mais se apagará por esquecimento. Porque eu conheço os seus pensamentos, e o que êle há de fazer hoje, antes que eu o introduza na terra, que lhes prometi.

22Escreveu Moisés pois o cântico, e o ensinou aos filhos de Israel.

23E ordenou o Senhor a Josué filho de Nun, e lhe disse: Tem ânimo, e sê robusto: Porque tu introduzirás os filhos de Israel na terra, que eu lhes prometi, e eu serei contigo.[6]' E ORDENOU O SENHOR A JOSUÉE’ pela vez pri meira que o Senhor se dirige diretamente só a Josué.

24Logo pois que Moisés acabou de escrever num livro as palavras desta lei:

25Mandou aos levitas, que levavam a arca do concêrto do Senhor, dizendo:

26Tomai êste livro, e ponde-o ao lado da arca d.o concêrto do Senhor vosso Deus, para aí servir de teste munho contra ti.

27Porque eu sei a tua,.poríia, a dureza grande da tua cerviz. Ainda vivendo eu, e andando convosco, vos portastes vós sempre teimoso contra o Senhor: Quanto mais depois que eu morrer?

28Fazei que venham perante mim todos os anciãos das vossas tribos, e doutores e eu pronunciarei diante dê- les estas palavras, e invocarei contra êles o céu e a terra.

29Porque sei que depois da minha mòrte vós pro cedereis iniquamente, e que depressa vos arredareis do caminho, que eu vos prescrevi: E sobrevir-vos-ão calami dades nos últimos tempos, quando fizerdes o mal diante do Senhor, irritando-o com as obras das vossas mãos.

30Pronunciou Moisés pois as palavras deste cântico, e o recitou até o fim, ouvindo-o todo o ajuntamento de Israel.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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