Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

Animais limpos e imundos. Dízimos e refeição diante do Senhor.

1Sede filhos d,o Senhor vosso Deus: Não fareis in cisões no vosso corpo, nem vos fareis abrir calva pára cho rardes algum morto:

2Porque és um povo santo para com o Senhor teu Deus: E êle te escolheu dentre tôdas as nações, que há na terra, para sêres particularmente o seu povo.

3Não comais o que é imundo.'

4Êstes são os animais que deveis comer: O boi, e a ovelha, e a cabra,

5o veado e a corça, o búfalo, a cabra montês, o unicórnio, o órige, o camelo pard.o.

6Comereis de todo o animal, que tem a unha fen dida em duas partes, e que remói.

7Não deveis porém comér dos que sim remoem, mas. não têm a unha fendida, como são o camelo, a lebre, o querogrilo: Êstes porque remoem, e não têm a unha fen dida, serão imundos para vós.

8O porco também será para vós imundo, porque ainda que tem unha fendida, não remói: Não comereis da carne dêstes animais, nem tocareis nos seus cadáveres.

9De todos os animais que vivem nas águas, come reis estes: Comei os que têm barbatanas, e escamas:

10Mas não comais daqueles, que não têm barbata nas, nem escamas, porque são imundos.

11Comei de tôdas as aves que são limpas.

12Mas não comereis das imundas: Quais são a águia, e o grifo, e o esmerilhão.

13o ixião, e o abutre e o milhano, segundo o seu gênero:[1]O IXIÃOEspécie de avestruz: « a única ave acres centada à lista correspondente do Levítlco.

14e todo o gênero.de corvos,

15e o avestruz, e a coruja, e a gaivota, e o açor, segundo o seu gênero:

16a cegonha e o cisne, e o íbis,

17e o mergulo, o porfirião e o bufo,

18e o onocrótalo, e o caradrio, cada um no seu gê nero, a poupa também e 6 morcêgo.

19E tudo o que anda de rastos e tem asas, será imundo, e não se comerá.

20Comei de tudo o que é limpo.

21Não comais coisa alguma de animal, que mor resse por si: Mas dá-a para que a coma, ou vende-a ao peregrino, que vive de tuas portas para dentro: Porque tu és o povo santo do Senhor teu Deus. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.

22Porás à parte cada ano o dizimo de todos os fru tos que nascem na terra,

23e comerás na presença do Senhor teu Deus, no lugar que êle escolher para aí ser invocado o seu nome, o dízimo do teu trigo, e do vinho, e do azeite, e os primo génitos das tuas vacas e ovelhas: Para que aprendas a temer o Senhor teu Deus em todo o tempo.1

24Mas quando fôr mais comprido o caminho, e distante o lugar que o Senhor teu Deus escolher, e te aben çoar, e não puderes levar lá tôd^as essas coisas,

25Venderás tudo, e o reduzirás a dinheiro, e o le varás na tua mão, e irás ao lugar que o Senhor teu Deus escolher:

26E comprarás com esse mesmo dinheiro tudo, o que fôr do teu gôsto, ou seja de bois, ou seja de ovelhas, como também vinho e outros licores, e tudo o que a tua alma deseja: e comê-lo-ás diante do Sgphor teu Deus, regalando-te tu, e a tua família:

27e o levita que vive das tuas portas para dentro, vê lá não o desampares, porque êle não tem outra por ção na tua herança.

28Todos os três anos separarás outro.dízimo de tudo o que te nascer nesse tempo: e pô-lo-ás de reserva em tua casa.

29E virão o levita que não tem outra porção nem herança contigo, e o peregrino, e o órfão e a viúva, que estão das tuas portas a dentro, e comerão e se fartarão: para que o Senhor teu Deus te abençoe em tôdas^as obras que trabalhares com as tuas mãos.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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