Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 15

Ano sabático. Alforria dos escravos. Cuidados dos pobres. Primogénitos que se devem oferecer ao Senhor.

1No sétimo ano farás a remissão,

2a qual se deve fazer desta maneira: Aquêle a quem seu amigo, ou seu próximo, ou seu irmão devér alguma;. coisa, não a poderá exigir, porque é o ano da remissão do Senhor,[1]NÃO A PODERÁ EXIGIRComo no ano sabático a terra não era cultivada, ficavam os hebreus privados dos recursos que poderiam auferir nos outros anos. Sendo assim era muito justo não se lhes exigir o pagamento das suas dívidas naquele ano.

3Poderás exigi-la do peregrino e do estrangeiro: mas não terás direito de a repetir dos teus compatriotas nem dos teus propínquos.

4E absolutamente não haverá entre vós pobre al gum nem mendigo: para que o Senhor teu Deus te aben çoe' na terra, de que êle está para te dar a posse.[2]NÃO HAVERÁ ENTRE VÓS POBRE ALGUMNão se trata aqui duma promessa, o que estaria em contradição com o versículo 11. Estas palavras têm a fôrça duma proibição e devem entender-se assim: “ Tu não exigirás dos teus concidadãos, durante o ano sabático, pagamentos que os reduzam fatalmente à indigên cia e mendicidade.”

5Bem entendido que se ouvires a voz do Senhor teu Detis, e guardares tudo o que êle te mandou, e o que eu hoje te prescreyo, te abençoará, como prometeu.

6Tu emprestarás a muitos povos, e de ninguém receberás empréstimos. Tu dominarás sôbre muitas na ções, e. a ti nenhuma te dominará.[3]TU EMPRESTARAS A MUITOS POVOSMoisés não autoriza por estas palavras a usura, mas sim o empréstimo com um interésse razoável a respeito dos estrangeiros. Ao mesmo tempo promete aos hebreus a prosperidade e o domínio sôbre muitas na ções. Neste versículo há duas partes paralelas.

7Sé estando tu no país, que o Senhor teu Deus te há de.dar, cair em pobreza um dos teus irmãos, que moram dentro da tua cidade, não endurecerás o teu co ração, nem cerrarás a tua mão,

8mas abri-la-ás para o pobre, e lhe emprestarás o que vires que êle há mister.

9Guarda-te, não te deixes surpreender de ímpio pensamento, e digas lá no teu coração: Está próximo o sétimo ano da remissão; e apartes os teus olhos de teu pobre irmão, não lhe querendo emprestar o que êle te pede: não suceda que êle clame contra ti ao Senhor, e isto te seja imputado a pecado.

10Mas lho darás: e não usarás de destreza algu ma em o socorrer nas suas necessidades: para que o Se nhor teu Deus te abençoe em todo o tempo, e em tôdas as coisas em que meteres a mão.

11Não faltarão pobres na terra que hás de habitar: por isso eu te ordeno, que abras a mão para teu irmão ne cessitado e pobre, que vive contigo no mesmo país.

12Quando te fôr vendido um teu irmão hebreu ou hebréia, e, te tiverem servido seis anos, no sétimo ano tu os deixarás ir livres:

13e não deixarás ir com as mãos vazias aquele a quem deres a liberdade:

14Mas far-lhe-ás o alforje para o caminho dos teus rebanhos, e da tua eira, e do teu lugar, nos quais bens o Senhor teu Deus te tiver abençoado.

15Lembra-te que também tu fôste escravo na ter ra do Egito, e que o Senhor teu Deus te libertou, e por isso eu te ordeno agora êste preceito.

16Porém se o teu servo te disser: Eu não quero sair: porque êle te ama a ti, e à tua casa, e julga que lhe vai bem estar contigo:

17Pegarás numa sovela, e furar-lhe-ás a orelha à*porta da tua casa, e êle te servirá para sempre: o mes mo farás à tua escrava.

18Não apartes dêles os teus olhos, quando os des pedires livres: porque êles te serviram seis anos, como te teria servido um mercenário; para que o Senhor teu Deus te abençoe em tôdas as coisas que fazes.

19Consagrarás ao Senhor teu Deus todos os ma chos dentre os primogénitos das tuas vacas e das tuas ovelhas. Não trabalharás com o primogénito d a. vaca, nem tosquiarás os primogénitos das ovelhas.

20Mas comê-los-ás cada ano na presença do Se nhor teu Deus, tu e a tua casa no lugar, que o Senhor escolher.

21Se o primogénito tiver algum defeito, ou se fôr côxo, ou cego, ou se tiver alguma deformidade ou debili dade em qualquer parte do corpo, não será imolado ao Senhor teu Deus:

22Mas comê-lo-ás das portas para dentro da tua cidade: o limpo e o imundo comerão dêle indiferente mente como duma corça, ou dum veado.

23Terás somente a cautela de não lhe comeres o sangue, mas derramá-lo-ás pela terra como água.[4]COMO ACUAIsto é, sem valor.

DEUTERONÔMIO Êste é o quinto e último livro do Pentateuco Mosai co. Os Rabinos chamam-lhe Ellé Haddebarim, que sig nifica: “ Estas são as palavras”, porque é por esta frase que êle começa. Os gregos e latinos chamam-lhe Deute- ronômio, que quer dizer Segunda lei, por ser o resumo das leis anteriormente promulgadas. Distingue-se dos outros anteriores, com os quais se liga intimamente, por que não contém narrações, mas discursos pronunciados nas planícies de Moab, em frente de Jericó, no undécimo mês do quadragésimo ano do Êxodo. Êstes discursos são em número de três, precedidos de um título geral, 1, 1-5, e seguidos de uma conclusão histórica, 31-34. PRIM EIRO DISCURSO E ’ uma introdução ao Deuteronômio; compreende os quatro primeiros capítulos, em que Moisés faz uma resenha dos acontecimentos que sucederam desde a pro mulgação da lei no Sinai, e exorta o povo ao cumprimen to rigoroso da lei. (1-4.) SEGUNDO DISCURSO E ’ a parte principal do Deuteronômio; compreende os cc. 5-26, e pode subdividir-se em duas partes: a) Lembra aos hebreus os motivos que lhes impõe o dever de gratidão e obediência a Deus, 6, 4; 11. Só Ihavéh é o verdadeiro Deus, e portanto só a êle é devido o amor, respeito e glória, 6, 4-25. Obri gação de extirpar o culto dos ídolos de Canaã, 7, sendo os fundamentos desta obrigação os benefí cios recebidos de Deus, 8, dons gratuitos da sua liberalidade, 9; 10, 11. Anátema contra os infiéis, 10, 12; 11, 32. b) l.° Direito religioso: unidade do culto, 12; 13; proibição dos usos pagãos; declara-se defeso o uso de carnes impuras; satisfação dos dízimos, 14; o ano sabático, resgate dos primogénitos, 15; as três principais festas do ano, 16, 1-17. — 2.° Di reito público', pessoal; determinações contra a ido latria; poder judiciário dos sacerdotes; da esco lha do rei, Í6, 18; 17; direitos e deveres dos le vitas e dos profetas. 18. Direito real: imunidade das cidades de refúgio: testemunhas, 19. Direi to de guerra: serviço militar; tratamento dos ini migos, 20; expiação dum assassínio, cujo autor é desconhecido; tratamento das mulheres cativas na guerra, 21, 1-14. — 3.° Direito privado: di reito dos progenitores; deveres para com os me nores, 21,15-23; objetos perdidos e achados; ves tuário; ninhos de aves; construção de casas, 22, 1-12; virgens, 22, 13-30; leis diversas, 23; dispo sições acêrca do divórcio, dos pobres e dos es trangeiros, 24; flagelação, o levirato; pesos e me didas, etc., 25; oferta dos primogénitos e dos dí zimos, 26, 1-15. Peroração, exortando ao. fiel cumprimento dêsse ponto, 26, 16-19. TERCEIRO DISCURSO Prescrições tendentes a assegurar a fidelidade no cumprimento da lei, 27-30. O discurso final compreende três. partes: l.° Compromisso que o povo hebreu deve tomar, depois de conquistar a Terra Prometida, sôbre os montes Hebal c Garizim, de ser fiel à lei, 27. — 2.° Bênçãos prometidas aos obedientes, maldições reserva das aos infiéis, 28; exortações para a observância da lei, 29 ;30. CONCLUSÃO HISTÓRICA l.° Moisés indica Josué como seu sucessor; vários avisos e entre êles o da leitura da lei no ano sabático; conservação da arca, 31. — 2.° Cântico de Moisés, 32. — 3.° Bênção das tribos de Israel, 33. — 4.° Morte e luto de Moisés, 34. H á no Deuteronômio alguma coisa que não podia ter sido escrita por Moisés; é a narração da sua morte, escrita por mão diversa, talvez a de Josué, que assim completou a história do grande legislador do povo esco lhido, mas também é óbvio que daí nada se pode inferir contra a autenticidade dêsse livro e muito menos contra a autenticidade do Pentateuco. Quem escreveu o c. 34 sabia muito bem que os leitores não atribuiriam essa adição ao autor do Deuteronômio. Em alguns livros profanos sucede o mesmo, por exemplo no último livro dos Commentarii de statu religionis et reipublicae Caro lo V Caesare, por Sleidan, lê-se no fim: Octobris die ul timo Joannes Sleidamis e vita deccdit atque honorifice sepelitur, “ o qual João Sleidan morreu no último dia de outubro e foi sepultado com todas as honras devidas”, e ninguém por isto contesta a autenticidade da obra. Assim fica encerrada a história desse vulto prestigioso, cujo nome tôda a humanidade celebra, como um obreiro in cansável da moralização do povo escolhido, conseguin do dominar as grosseiras inclinações de tôda aquela gen te, e introduzir no meio daquele povo nômada os pro gressos materiais do Egito, tendo sempre em vista asse gurar o progresso e o estabelecimento definitivo dos he breus numa terra escolhida — a Terra da Promissão. — E para que a sua obra, ou melhor, para que a obra de Deus, de que êle era instrumento, fôsse por diante, sen tindo avizinhar-se. o têrmo de sua vida, escolheu um su cessor e apresentou Josué ao povo; e entrevendo ao longe a terra prometida, onde ia desenrolar-se o futuro de Is rael, expirou.
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