Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 22

Tratam os príncipes dos sacerdotes de dar a morte a Jesus Cristo. Judas lho vende. Manda o Senhor preparar o necessário para celebrar a Páscoa. Consagra o pão e vinho no seu corpo e sangue. E ordena sacerdotes os Apóstolos. Disputam êstes entre si a primazia. Ora Jesus pela fé de Pedro, prediz-lhe as suas negações. Alegoria das duas espadas. Oração do Horto. Agonia e suor de sangue. A sua prisão. É levado à presença do Pontífice. Nega-o Pedro três vezes. Opróbrios indignos, que Jesus padece dos ministros. Êle se confessa Filho de Deus em presença de todo o conselho.

1Estava pois chegada a festa dos pães ásmos, que se chama a Páscoa:[1]Que se chama a PáscoaCfr. Mc 14, 1.

2E os príncipes dos sacerdotes, e os escribas andavam buscando modo de tirarem a vida a Jesus: Porém temiam o povo.

3Ora, satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, um dos doze:

4E foi, e tratou com os príncipes dos sacerdotes, e com os magistrados, de como lho entregaria.

5E êles folgaram com isso, e ajustaram de lhe darem dinheiro.

6E Judas deu também a sua palavra. Para o que buscava ocasião oportuna de lho entregar sem tumulto.

7Entretanto chegou o dia dos pães ásmos, no qual era necessário imolar-se a Páscoa.[2]No qual era necessárioÉ coisa certamente admirável. Conspiram três Evangelistas em referir, como Jesus Cristo nas vésperas da sua paixão mandara dois de seus discípulos à cidade, a preparar-lhe em casa de certo homem, que êle lhes apontou, o Cenáculo, em que o mesmo Senhor celebrasse a Páscoa com todos êles, na qual Páscoa a cerimônia principal era a comida do cordeiro. Assim Mt 26, 18; Mc 14, 14, e aqui Lc 22, 7. 8. 11. 13. 14. Parece que se não podia escrever mais clara e expressamente, que Jesus Cristo pouco antes de ser prêso e ir a padecer, celebrara, na forma da Lei de Moisés, a festa da Páscoa, e imolara o cordeiro. Pelo menos esta é a persuasão, em que ainda hoje mostra estar a Igreja, quando todos os anos canta: Observata lege plene cibis in legalibus, cibum turbae duodenae se dat suis manibus.

8Enviou pois Jesus a Pedro e a João, dizendo: Ide aparelhar-nos a Páscoa, para a comermos.

9E êles lhe perguntaram: Onde queres tu que nós ta aparelhemos?

10E respondeu-lhes Jesus: Tanto que vós entrardes na cidade, sair-vos-á ao encontro um certo homem, que levará uma bilha de água: Ide seguindo-o até à casa em que êle entrar.

11E direis ao pai de família da casa: O Mestre te manda dizer, onde está o aposento que tu me dás, para eu nele comer a Páscoa com os meus discípulos?

12E êle vos mostrará uma grande sala tôda ornada, e ali fazei os preparos.

13Indo êles pois, acharam tudo como o Senhor lhes dissera, e prepararam a Páscoa.

14E chegada que foi a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com êle os doze Apóstolos:

15E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes da minha Paixão.

16Porque vos declaro que a não tornarei mais a comer, até que ela se cumpra no Reino de Deus.[3]Não tornarei mais a comerJesus quer significar por estas expressões, que não tornará a comer esta vítima figurativa, até que se cumpram os desígnios de Deus, em que a vítima que vai ser imolada se torne a Páscoa da nova gente. 1 Cor 5, 7.

17E depois de tomar o cálice, deu graças, e disse: Tomai-o, e distribuí-o entre vós:[4]E depois de tomar o cáliceNão o cálice de vinho, que depois se consagrou, mas outro, com que o presidente da mesa costumava brindar por sua ordem os convidados. — Caetano, Estio e Calmet, que se não deve confundir com o que abaixo se menciona no vers. 20.

18Porque vos declaro que não tornarei a beber do fruto da vida enquanto não chegar o Reino de Deus.

19Também depois de tomar o pão deu graças, e partiu-o, e deu-lho, dizendo: Este é o meu corpo, que se dá por vós: Fazei isto em memória de mim.[5]Fazei isto em memória de mimNestas palavras ordenou Jesus Cristo de sacerdotes da Nova Lei os Apóstolos, como definiu o sagrado concílio de Trento. Sess. 22. Can. 2.

20Tomou também da mesma sorte o cálice, depois de cear, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento em meu sangue, que será derramado por vós.[6]Que será derramadoNo texto latino fica em dúvida a qual dos dois antecedentes se deve referir o relativo qui, se ao cálice, se ao sangue. O original grego tira tôda a equivocação. Porque, como advertem Amelote, Sacy e Duhamel, diz assim: Poculum quod vobis effunditur: onde necessàriamente se deve referir o relativo ao cálice.

Por vós — O que em S. Mateus e em S. Marcos se diz, que será derramado por muitos; se diz em S. Lucas, que será derramado por vós. É uma e outra lição repete a Igreja no cânon da missa, quando diz: Qui pro vobis et pro multis effunditur. Sôbre o que é notável a doutrina que nos dá o Catecismo do Concílio de Trento, aprovado por Pio V. e por Gregório XIII. Estas palavras (diz o Catecismo, tratando do Sacramento da Eucaristia) umas são tiradas de S. Mateus, outras de S. Lucas. Porém a Igreja, instruída pelo Espírito Santo, ajuntou umas e outras, para mostrar particularmente o fruto e a utilidade da Paixão de Nosso Senhor. Porque se nós consideramos a virtude, que a sua paixão tem em si mesmo, é necessário confessar que o sangue de Nosso Senhor foi derramado para salvação dos homens todos. Mas se nós olhamos para o fruto que os homens dêle recebem, fàcilmente reconhecemos que êste sangue não aproveita a todos, mas sòmente a muitos.

21Entretanto eis aí a mão de quem me há de entregar, está à mesa comigo.

22E na verdade o Filho do homem vai, segundo o que está decretado: Mas ai daquele homem, por quem êle há de ser entregue!

23Começaram êles então a perguntar entre si, qual dêles seria o que tal houvesse de fazer.

24E excitou-se também entre êles a questão, sôbre qual dêles se devia reputar o maior.

25Porém Jesus lhes disse: Os reis dos gentios dominam sôbre êles: E os que têm sôbre êles autoridade, chamam-se benfeitores.[7]Chamam-se benfeitoresIsto é, grandiosos e liberais. Que isso significa o nome Evergetes de que usa o texto grego, e que se atribuíram muitos reis do Egito. — Duhamel.

26Não há de ser porém assim entre vós outros: Mas o que entre vós é maior, faça-se como o mais pequeno: E o que governa, seja como o que serve.

27Porque qual é maior, o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é maior o que está sentado à mesa? Pois eu estou no meio de vós outros, assim como o que serve:

28Mas vós outros sois os que haveis permanecido comigo nas minhas tentações:

29E por isso eu preparo o reino para vós outros, como meu Pai o tem preparado para mim.

30Para que comais, e bebais à minha mesa, no meu reino: E vos senteis sôbre tronos, para julgar as doze tribos de Israel.

31Disse mais o Senhor: Simão, Simão, eis aí vos pediu satanás com instância para vos joeirar como trigo.

32Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não falte: E tu enfim, depois de convertido, conforta a teus irmãos.[8]Para que a tua féO sentido natural e óbvio destas palavras é que Cristo rogara a seu eterno Padre pela fé pessoal de Pedro, pedindo-lhe que, já que Pedro pela sua fraqueza o havia de negar brevemente três vezes, não permitisse o Senhor que a fé lhe faltasse para sempre, mas depois da queda a tornasse a recobrar, e com o seu exemplo confortasse depois os outros discípulos. Mais um testemunho da supremacia conferida a Pedro.

33Respondendo-lhe Pedro: Senhor, eu estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão, como a morrer.

34Mas Jesus lhe disse: Declaro-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, sem que tu por três vezes não hajas negado que me conheces. Depois perguntou-lhes:

35Quando eu vos mandei caminhar sem bolsa, e sem alforge, e sem sapatos, faltou-vos porventura alguma coisa?

36E êles responderam: Nada. Prosseguiu logo Jesus: Pois agora quem tem bolsa, tome-a, e também alforge: E o que a não tem, venda a sua túnica e compre espada.[9]E compre espadaNão quer significar o Senhor com esta alegoria, que se armem os Apóstolos de espadas materiais; mas que serão tais os trabalhos e apertos, em que se hão de ver, que para vencer êstes combates lhes será preciso valer-se das armas, de que nos apertos do corpo se valem as pessoas do mundo, isto é, do escudo da fé, do capacete da esperança, e da espada da palavra de Deus. Assim o entenderam com os antigos Padres todos os bons expositores modernos.

37Porque vos digo, que é necessário que se veja cumprido em mim ainda isto que está escrito: E foi reputado por um dos iníquos. Porque as coisas que dizem respeito a mim, vão já a ter o seu cumprimento.

38Mas êles responderam: Senhor, eis aqui estão duas espadas. E Jesus lhes disse: Basta.[10]Eis aqui estão duas espadasDaqui se conhece que os Apóstolos não entenderam o sentido em que seu Mestre lhes falava, e que se não enganaram menos os que depois entenderam por estas duas espadas em poder dos Apóstolos, os dois direitos de espiritualidade e temporalidade, que quiseram dar aos sucessores de Pedro.

Basta — Os Apóstolos não compreenderam o sentido das palavras de Jesus Cristo. E como não julgou a propósito explicar-se mais por então, interrompeu o discurso, dizendo: Basta: Como se dissera: "Deixemos isso, passemos a outras coisas: a experiência vos mostrará o que agora não entendeis."

39E tendo saído, foi dali, como costumava, para o monte das Oliveiras. E seus discípulos o seguiram também.

40E quando chegou àquele lugar, lhes disse: Orai para que não entreis em tentação.

41E Jesus se arrancou dêles obra de um tiro de pedra: E pôsto de joelhos, orava,

42dizendo: Pai, se é do teu agrado, transfere de mim êste cálice: Não se faça contudo a minha vontade, senão a tua.

43Então lhe apareceu um anjo do Céu, que o confortava. E pôsto em agonia, orava Jesus com maior instância.[11]Que o confortavaJesus Cristo não tinha necessidade dêste socorro, porém, quis ser consolado e confortado por um anjo, como também quis entregar-se ao temor e à tristeza: para nos ensinar com o seu exemplo a vencer as nossas repugnâncias, a esperar de Deus o socorro nas nossas angústias. — Santo Agostinho.

44E veio-lhe um suor, como de gotas de sangue, que corria sôbre a terra.

45Depois, tendo-se levantado da oração, e vindo ter com seus discípulos, achou-os dormindo de tristeza.

46E disse-lhes: Que, vós dormis? Levantai-vos, orai, para que não entreis em tentação.

47Estando êle ainda falando, eis que chega um tropel de gente: E um dos doze, que se chamava Judas, vinha à testa dêles: O qual se chegou a Jesus para o beijar.

48E Jesus lhe disse: Judas, basta que entregues o Filho do homem, dando-lhe um ósculo?

49Então os que estavam com Jesus, vendo no que isto viria a parar, disseram para êle: Senhor, firamo-los à espada?

50E um dêles deu um golpe num servo do sumo pontífice, e cortou-lhe a orelha direita.

51Mas respondendo Jesus, disse: Deixai-os, basta. E tendo-lhe tocado a orelha, o sarou.

52E voltando-se Jesus para os príncipes dos sacerdotes, e para os magistrados do templo, e para os anciãos, que tinham vindo contra êle, disse: Viestes armados de espadas e de varapaus como contra um ladrão?[12]E para os magistradosIsto é, para os capitães da guarda do templo, cujo prefeito se chamava "comandante do monte do templo", que era diferente do outro que presidia a todo o ministério sagrado, do qual se faz menção nos At 4, 1.

53Havendo eu estado cada dia convosco no templo, nunca estendestes as mãos contra mim: Porém esta é a vossa hora, e o poder das trevas.

54Prendendo logo a Jesus, o levaram à casa do sumo pontífice: E Pedro o ia seguindo de longe.

55E tendo-se acendido fogo no meio do pátio, e sentando-se todos em roda, estava Pedro no meio dêles.

56Então uma escrava, que o viu sentado ao lume, depois de encarar bem nele, disse: Êste também era da companhia daquele homem.

57Mas Pedro o negou, dizendo: Mulher, eu não o conheço.

58E daí a pouco vendo-o outro, disse-lhe: Tu também és dos tais. Ao que Pedro respondeu: Homem, não o sou.

59E tendo-se passado o intervalo quase de uma hora, afirmava outro o mesmo, dizendo: Certamente que êste também estava com êle: Pois que também é galileu.

60E Pedro lhe respondeu: Homem, eu não sei que é o que tu dizes. E no mesmo ponto, quando êle ainda falava, cantou o galo.

61E voltando-se o Senhor pôs os olhos em Pedro. E Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Antes que o galo cante, me negarás três vezes:[13]Pôs os olhos em PedroComo se supõe que o Senhor estava na sala com os sacerdotes, e Pedro no pátio com os oficiais, diz S. Agostinho no livro "Da graça de Cristo", cap. 45, que êste olhar do Senhor para Pedro se não deve entender dos olhos do corpo, mas da ilustração, e toque interior da sua graça. Outros todavia, combinando de novo os Evangelistas entre si, julgam que Cristo depois de examinado e pronunciado na sala, descera ao pátio entre os soldados e servos, e que ali pudera muito bem olhar corporalmente para Pedro. — Calmet.

62E tendo saído para fora, chorou Pedro amargamente.

63Entretanto os que tinham prêso a Jesus, faziam escárneo dêle, ferindo-o.

64E vendaram-lhe os olhos, e davam-lhe na cara: E perguntavam-lhe, dizendo: Adivinha quem é o que te deu?

65E diziam outras muitas afrontas, blasfemando contra êle.

66E depois que foi dia se ajuntaram os anciãos do povo, e os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e o levaram ao seu conselho, dizendo ali: Se tu és o Cristo, dize-no-lo.

67E respondeu-lhes Jesus: Se vo-lo disser, não me haveis de dar crédito.

68E também se vos fizer qualquer pergunta, não me haveis de responder, nem deixar ir.

69Mas depois disto estará sentado o Filho do homem à mão direita do poder de Deus.

70Então disseram todos: Logo tu és o Filho de Deus? Respondeu êle: Vós o dizeis, que eu o sou.

71E êles prosseguiram: Que mais testemunho nos é necessário? quando nós mesmos o ouvimos da sua bôca.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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