Capítulo 22
1Estava pois chegada a festa dos pães ásmos, que se chama a Páscoa:[1]Que se chama a Páscoa — Cfr. Mc 14, 1.
2E os príncipes dos sacerdotes, e os escribas andavam buscando modo de tirarem a vida a Jesus: Porém temiam o povo.
3Ora, satanás entrou em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, um dos doze:
4E foi, e tratou com os príncipes dos sacerdotes, e com os magistrados, de como lho entregaria.
5E êles folgaram com isso, e ajustaram de lhe darem dinheiro.
6E Judas deu também a sua palavra. Para o que buscava ocasião oportuna de lho entregar sem tumulto.
7Entretanto chegou o dia dos pães ásmos, no qual era necessário imolar-se a Páscoa.[2]No qual era necessário — É coisa certamente admirável. Conspiram três Evangelistas em referir, como Jesus Cristo nas vésperas da sua paixão mandara dois de seus discípulos à cidade, a preparar-lhe em casa de certo homem, que êle lhes apontou, o Cenáculo, em que o mesmo Senhor celebrasse a Páscoa com todos êles, na qual Páscoa a cerimônia principal era a comida do cordeiro. Assim Mt 26, 18; Mc 14, 14, e aqui Lc 22, 7. 8. 11. 13. 14. Parece que se não podia escrever mais clara e expressamente, que Jesus Cristo pouco antes de ser prêso e ir a padecer, celebrara, na forma da Lei de Moisés, a festa da Páscoa, e imolara o cordeiro. Pelo menos esta é a persuasão, em que ainda hoje mostra estar a Igreja, quando todos os anos canta: Observata lege plene cibis in legalibus, cibum turbae duodenae se dat suis manibus.
8Enviou pois Jesus a Pedro e a João, dizendo: Ide aparelhar-nos a Páscoa, para a comermos.
9E êles lhe perguntaram: Onde queres tu que nós ta aparelhemos?
10E respondeu-lhes Jesus: Tanto que vós entrardes na cidade, sair-vos-á ao encontro um certo homem, que levará uma bilha de água: Ide seguindo-o até à casa em que êle entrar.
11E direis ao pai de família da casa: O Mestre te manda dizer, onde está o aposento que tu me dás, para eu nele comer a Páscoa com os meus discípulos?
12E êle vos mostrará uma grande sala tôda ornada, e ali fazei os preparos.
13Indo êles pois, acharam tudo como o Senhor lhes dissera, e prepararam a Páscoa.
14E chegada que foi a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com êle os doze Apóstolos:
15E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes da minha Paixão.
16Porque vos declaro que a não tornarei mais a comer, até que ela se cumpra no Reino de Deus.[3]Não tornarei mais a comer — Jesus quer significar por estas expressões, que não tornará a comer esta vítima figurativa, até que se cumpram os desígnios de Deus, em que a vítima que vai ser imolada se torne a Páscoa da nova gente. 1 Cor 5, 7.
17E depois de tomar o cálice, deu graças, e disse: Tomai-o, e distribuí-o entre vós:[4]E depois de tomar o cálice — Não o cálice de vinho, que depois se consagrou, mas outro, com que o presidente da mesa costumava brindar por sua ordem os convidados. — Caetano, Estio e Calmet, que se não deve confundir com o que abaixo se menciona no vers. 20.
18Porque vos declaro que não tornarei a beber do fruto da vida enquanto não chegar o Reino de Deus.
19Também depois de tomar o pão deu graças, e partiu-o, e deu-lho, dizendo: Este é o meu corpo, que se dá por vós: Fazei isto em memória de mim.[5]Fazei isto em memória de mim — Nestas palavras ordenou Jesus Cristo de sacerdotes da Nova Lei os Apóstolos, como definiu o sagrado concílio de Trento. Sess. 22. Can. 2.
20Tomou também da mesma sorte o cálice, depois de cear, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento em meu sangue, que será derramado por vós.[6]Que será derramado — No texto latino fica em dúvida a qual dos dois antecedentes se deve referir o relativo qui, se ao cálice, se ao sangue. O original grego tira tôda a equivocação. Porque, como advertem Amelote, Sacy e Duhamel, diz assim: Poculum quod vobis effunditur: onde necessàriamente se deve referir o relativo ao cálice.
Por vós — O que em S. Mateus e em S. Marcos se diz, que será derramado por muitos; se diz em S. Lucas, que será derramado por vós. É uma e outra lição repete a Igreja no cânon da missa, quando diz: Qui pro vobis et pro multis effunditur. Sôbre o que é notável a doutrina que nos dá o Catecismo do Concílio de Trento, aprovado por Pio V. e por Gregório XIII. Estas palavras (diz o Catecismo, tratando do Sacramento da Eucaristia) umas são tiradas de S. Mateus, outras de S. Lucas. Porém a Igreja, instruída pelo Espírito Santo, ajuntou umas e outras, para mostrar particularmente o fruto e a utilidade da Paixão de Nosso Senhor. Porque se nós consideramos a virtude, que a sua paixão tem em si mesmo, é necessário confessar que o sangue de Nosso Senhor foi derramado para salvação dos homens todos. Mas se nós olhamos para o fruto que os homens dêle recebem, fàcilmente reconhecemos que êste sangue não aproveita a todos, mas sòmente a muitos.
21Entretanto eis aí a mão de quem me há de entregar, está à mesa comigo.
22E na verdade o Filho do homem vai, segundo o que está decretado: Mas ai daquele homem, por quem êle há de ser entregue!
23Começaram êles então a perguntar entre si, qual dêles seria o que tal houvesse de fazer.
24E excitou-se também entre êles a questão, sôbre qual dêles se devia reputar o maior.
25Porém Jesus lhes disse: Os reis dos gentios dominam sôbre êles: E os que têm sôbre êles autoridade, chamam-se benfeitores.[7]Chamam-se benfeitores — Isto é, grandiosos e liberais. Que isso significa o nome Evergetes de que usa o texto grego, e que se atribuíram muitos reis do Egito. — Duhamel.
26Não há de ser porém assim entre vós outros: Mas o que entre vós é maior, faça-se como o mais pequeno: E o que governa, seja como o que serve.
27Porque qual é maior, o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é maior o que está sentado à mesa? Pois eu estou no meio de vós outros, assim como o que serve:
28Mas vós outros sois os que haveis permanecido comigo nas minhas tentações:
29E por isso eu preparo o reino para vós outros, como meu Pai o tem preparado para mim.
30Para que comais, e bebais à minha mesa, no meu reino: E vos senteis sôbre tronos, para julgar as doze tribos de Israel.
31Disse mais o Senhor: Simão, Simão, eis aí vos pediu satanás com instância para vos joeirar como trigo.
32Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não falte: E tu enfim, depois de convertido, conforta a teus irmãos.[8]Para que a tua fé — O sentido natural e óbvio destas palavras é que Cristo rogara a seu eterno Padre pela fé pessoal de Pedro, pedindo-lhe que, já que Pedro pela sua fraqueza o havia de negar brevemente três vezes, não permitisse o Senhor que a fé lhe faltasse para sempre, mas depois da queda a tornasse a recobrar, e com o seu exemplo confortasse depois os outros discípulos. Mais um testemunho da supremacia conferida a Pedro.
33Respondendo-lhe Pedro: Senhor, eu estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão, como a morrer.
34Mas Jesus lhe disse: Declaro-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, sem que tu por três vezes não hajas negado que me conheces. Depois perguntou-lhes:
35Quando eu vos mandei caminhar sem bolsa, e sem alforge, e sem sapatos, faltou-vos porventura alguma coisa?
36E êles responderam: Nada. Prosseguiu logo Jesus: Pois agora quem tem bolsa, tome-a, e também alforge: E o que a não tem, venda a sua túnica e compre espada.[9]E compre espada — Não quer significar o Senhor com esta alegoria, que se armem os Apóstolos de espadas materiais; mas que serão tais os trabalhos e apertos, em que se hão de ver, que para vencer êstes combates lhes será preciso valer-se das armas, de que nos apertos do corpo se valem as pessoas do mundo, isto é, do escudo da fé, do capacete da esperança, e da espada da palavra de Deus. Assim o entenderam com os antigos Padres todos os bons expositores modernos.
37Porque vos digo, que é necessário que se veja cumprido em mim ainda isto que está escrito: E foi reputado por um dos iníquos. Porque as coisas que dizem respeito a mim, vão já a ter o seu cumprimento.
38Mas êles responderam: Senhor, eis aqui estão duas espadas. E Jesus lhes disse: Basta.[10]Eis aqui estão duas espadas — Daqui se conhece que os Apóstolos não entenderam o sentido em que seu Mestre lhes falava, e que se não enganaram menos os que depois entenderam por estas duas espadas em poder dos Apóstolos, os dois direitos de espiritualidade e temporalidade, que quiseram dar aos sucessores de Pedro.
Basta — Os Apóstolos não compreenderam o sentido das palavras de Jesus Cristo. E como não julgou a propósito explicar-se mais por então, interrompeu o discurso, dizendo: Basta: Como se dissera: "Deixemos isso, passemos a outras coisas: a experiência vos mostrará o que agora não entendeis."
39E tendo saído, foi dali, como costumava, para o monte das Oliveiras. E seus discípulos o seguiram também.
40E quando chegou àquele lugar, lhes disse: Orai para que não entreis em tentação.
41E Jesus se arrancou dêles obra de um tiro de pedra: E pôsto de joelhos, orava,
42dizendo: Pai, se é do teu agrado, transfere de mim êste cálice: Não se faça contudo a minha vontade, senão a tua.
43Então lhe apareceu um anjo do Céu, que o confortava. E pôsto em agonia, orava Jesus com maior instância.[11]Que o confortava — Jesus Cristo não tinha necessidade dêste socorro, porém, quis ser consolado e confortado por um anjo, como também quis entregar-se ao temor e à tristeza: para nos ensinar com o seu exemplo a vencer as nossas repugnâncias, a esperar de Deus o socorro nas nossas angústias. — Santo Agostinho.
44E veio-lhe um suor, como de gotas de sangue, que corria sôbre a terra.
45Depois, tendo-se levantado da oração, e vindo ter com seus discípulos, achou-os dormindo de tristeza.
46E disse-lhes: Que, vós dormis? Levantai-vos, orai, para que não entreis em tentação.
47Estando êle ainda falando, eis que chega um tropel de gente: E um dos doze, que se chamava Judas, vinha à testa dêles: O qual se chegou a Jesus para o beijar.
48E Jesus lhe disse: Judas, basta que entregues o Filho do homem, dando-lhe um ósculo?
49Então os que estavam com Jesus, vendo no que isto viria a parar, disseram para êle: Senhor, firamo-los à espada?
50E um dêles deu um golpe num servo do sumo pontífice, e cortou-lhe a orelha direita.
51Mas respondendo Jesus, disse: Deixai-os, basta. E tendo-lhe tocado a orelha, o sarou.
52E voltando-se Jesus para os príncipes dos sacerdotes, e para os magistrados do templo, e para os anciãos, que tinham vindo contra êle, disse: Viestes armados de espadas e de varapaus como contra um ladrão?[12]E para os magistrados — Isto é, para os capitães da guarda do templo, cujo prefeito se chamava "comandante do monte do templo", que era diferente do outro que presidia a todo o ministério sagrado, do qual se faz menção nos At 4, 1.
53Havendo eu estado cada dia convosco no templo, nunca estendestes as mãos contra mim: Porém esta é a vossa hora, e o poder das trevas.
54Prendendo logo a Jesus, o levaram à casa do sumo pontífice: E Pedro o ia seguindo de longe.
55E tendo-se acendido fogo no meio do pátio, e sentando-se todos em roda, estava Pedro no meio dêles.
56Então uma escrava, que o viu sentado ao lume, depois de encarar bem nele, disse: Êste também era da companhia daquele homem.
57Mas Pedro o negou, dizendo: Mulher, eu não o conheço.
58E daí a pouco vendo-o outro, disse-lhe: Tu também és dos tais. Ao que Pedro respondeu: Homem, não o sou.
59E tendo-se passado o intervalo quase de uma hora, afirmava outro o mesmo, dizendo: Certamente que êste também estava com êle: Pois que também é galileu.
60E Pedro lhe respondeu: Homem, eu não sei que é o que tu dizes. E no mesmo ponto, quando êle ainda falava, cantou o galo.
61E voltando-se o Senhor pôs os olhos em Pedro. E Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Antes que o galo cante, me negarás três vezes:[13]Pôs os olhos em Pedro — Como se supõe que o Senhor estava na sala com os sacerdotes, e Pedro no pátio com os oficiais, diz S. Agostinho no livro "Da graça de Cristo", cap. 45, que êste olhar do Senhor para Pedro se não deve entender dos olhos do corpo, mas da ilustração, e toque interior da sua graça. Outros todavia, combinando de novo os Evangelistas entre si, julgam que Cristo depois de examinado e pronunciado na sala, descera ao pátio entre os soldados e servos, e que ali pudera muito bem olhar corporalmente para Pedro. — Calmet.
62E tendo saído para fora, chorou Pedro amargamente.
63Entretanto os que tinham prêso a Jesus, faziam escárneo dêle, ferindo-o.
64E vendaram-lhe os olhos, e davam-lhe na cara: E perguntavam-lhe, dizendo: Adivinha quem é o que te deu?
65E diziam outras muitas afrontas, blasfemando contra êle.
66E depois que foi dia se ajuntaram os anciãos do povo, e os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e o levaram ao seu conselho, dizendo ali: Se tu és o Cristo, dize-no-lo.
67E respondeu-lhes Jesus: Se vo-lo disser, não me haveis de dar crédito.
68E também se vos fizer qualquer pergunta, não me haveis de responder, nem deixar ir.
69Mas depois disto estará sentado o Filho do homem à mão direita do poder de Deus.
70Então disseram todos: Logo tu és o Filho de Deus? Respondeu êle: Vós o dizeis, que eu o sou.
71E êles prosseguiram: Que mais testemunho nos é necessário? quando nós mesmos o ouvimos da sua bôca.