Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 15

Murmuração dos fariseus por verem que Jesus recebe os pecadores. Parábolas da ovelha, e dracma perdida. O filho pródigo. A alegria do Céu pela conversão de um pecador.

1Chegavam-se pois a Jesus os publicanos, e os pecadores para o ouvirem.

2E os fariseus, e os escribas murmuravam, dizendo: Êste recebe os pecadores, e come com êles.

3E êle lhes propôs esta parábola, dizendo:

4Qual de vós outros é o homem que tem cem ovelhas: E se perde uma delas, não é assim que deixa as noventa e nove no deserto, e vai a buscar a que se havia perdido, até que a ache?

5E que depois de a achar, a põe sôbre seus ombros cheio de gôsto:

6E vindo à casa chama a seus amigos, e vizinhos, dizendo-lhes: Congratulai-vos comigo, porque achei a minha ovelha, que se havia perdido?

7Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu, sôbre um pecador que fizer penitência, que sôbre noventa e nove justos, que não hão mister de penitência.

8Ou que mulher há que, tendo dez dracmas, e perdendo uma, não acende a candeia, não varra a casa, e não a busque com muito sentido, até que a ache?[1]Dez dracmasDinheiro, que só não era vilíssimo, para quem não tinha senão dez. E sendo cada um de nós a respeito de Deus muito menos do que é uma dracma a respeito de um homem rico, Deus, contudo, estima tanto a conversão de uma alma, como esta pobre mulher estimava uma dracma.

9E que, depois de a achar, não convoque as suas amigas, e vizinhas, para lhes dizer: Congratulai-vos comigo, porque achei a dracma que tinha perdido?

10Assim vos digo eu, que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um pecador que faz penitência.

11Disse-lhes mais: Um homem teve dois filhos:

12E disse o mais moço dêles a seu pai: Pai, dá-me a parte da fazenda que me toca. E êle repartiu entre ambos a fazenda.

13E passados não muitos dias, entrouxando tudo o que era seu, partiu o filho mais moço para uma terra muito distante num país estranho, e lá dissipou tôda a sua fazenda vivendo dissolutamente.

14E depois de ter consumido tudo, sucedeu haver naquele país uma grande fome, e êle começou a necessitar.

15Retirou-se pois dali, e acomodou-se com um dos cidadãos da tal terra. Êste porém o mandou para um casal seu a guardar os porcos.

16Aqui desejava êle encher a sua barriga de landes, das que comiam os porcos: Mas ninguém lhas dava.

17Até que tendo entrado em si, disse: Quantos jornaleiros há em casa de meu pai, que têm pão em abundância, eu aqui pereço à fome!

18Levantar-me-ei, e irei buscar a meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o Céu, e diante de ti:

19Já não sou digno de ser chamado teu filho: Faze de mim como de um dos teus jornaleiros.

20Levantou-se pois, e foi buscar a seu pai. E quando êle ainda vinha longe, viu o seu pai, que ficou movido de compaixão, e correndo lhe lançou os braços ao pescoço para o abraçar, e o beijou.[2]Que ficou movido de compaixãoTudo isto representa os diversos graus de conversão do pecador. Volta sôbre si, conhece a sua miséria, e a grande felicidade que há em servir a Deus; resolve-se a deixar o pecado, e a apartar-se de tudo aquilo que lhe pode servir de ocasião de pecar, e volta-se para Deus, a quem olha sempre como para seu pai; pede-lhe, como uma singular graça, que o ponha na sorte dos últimos da sua casa; e por último executa sem dilação o em que tem assentado.

21E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o Céu, e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.

22Então disse o pai aos seus servos: Tirai depressa o seu primeiro vestido, e vesti-lho, e metei-lhe um anel no dedo, e os sapatos nos pés:[3]O seu primeiro vestidoO primeiro, não no tempo, mas na estimação; o vestido (mais precioso), como verteu o siríaco, (e mais roçagante) como verteu o Bispo de Chalons. O texto original diz stole, palavra que designa as vestes usadas pelas pessoas de elevada hierarquia, reis, sacerdotes, etc., que chegam até aos pés.

23Trazei também um vitelo bem gordo, matai-o, para comermos e para nos regalarmos:[4]ViteloCostume oriental para festejar um personagem.

24Porque êste meu filho era morto, e reviveu: Tinha-se perdido, e achou-se. E começaram a banquetear-se.

25E o seu filho mais velho estava no campo e quando veio, e foi chegando a casa, ouviu a sinfonia, e o côro:

26E chamou um dos servos, e perguntou-lhe que era aquilo.

27E êste lhe disse: É chegado teu irmão, e teu pai mandou matar um novilho cevado, porque veio com saude.

28Êle então se indignou, e não queria entrar. Mas, saindo o pai, começou a rogá-lo que entrasse.[5]E não queria entrarA misericórdia de Deus com os pecadores é tão grande, que poderá dar zêlo aos mesmos justos, se êstes fôssem capazes de os ter. Êste filho maior, desgostado desta maneira, representa aos fariseus, que tendo-se por justos, não podiam sofrer que Jesus Cristo conversasse e se familiarizasse tanto com os pecadores, dando-lhes tão particulares mostras do seu amor e benevolência.

Começou a rogá-lo — Representando-lhe amigavelmente, e com carinho, que aquilo, longe de lhe dar razão de queixa, devia pelo contrário enchê-lo de alegria, pelas razões que depois lhe alega.

29Êle porém deu esta resposta a seu pai: Há tantos anos que te sirvo, sem nunca transgredir mandamento algum teu, e tu nunca me deste um cabrito, para me regalar com os meus amigos:

30Mas tanto que veio êste teu filho, que gastou tudo quanto tinha com prostitutas, logo lhe mandaste matar o novilho gordo.

31Então lhe disse o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu:

32Era porém necessário que houvesse banquete, e festim, pois que êste teu irmão era morto, e reviveu: Tinha-se perdido, e achou-se.[6]Êste paiÉ Deus; os dois filhos, as almas inocentes, e os pecadores convertidos. Os bens, de que o pai fez repartição ao mais moço, são os dons da graça, entregues na mão do livre alvedrio. A terra muito distante, é o esquecimento de Deus, e da virtude. A dissipação da fazenda, é a perda da graça. A fome, e a servidão, é a miséria de uma alma, que se sujeita ao demônio. Os mercenários são os que servem a Deus com a esperança dos bens temporais. O pai abraçando a seu filho, é Deus todo misericordioso para com o pecador. O primeiro vestido é a graça santificante. O anel, a imagem de Deus, e o sêlo do Espírito Santo. O novilho cevado, a participação da Eucaristia. Todo o restabelecimento do filho é a restituição da graça, e dos dons de Deus depois da conversão. A alegria, e o banquete, o concêrto, e o côro, é a festa, que se faz no Céu, quando um pecador se converte.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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