Capítulo 9
1Tendo porém Jesus convocado os doze Apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sôbre todos os demônios; e virtude de curar enfermidades.[1]Tendo porém — Cfr. Mt 10, 1; Mc 3, 15.
2Depois enviou-os a pregar o Reino de Deus, e a curar os enfermos.
3E disse-lhes: Não leveis coisa alguma pelo caminho, nem bordão, nem alforge, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas.
4E em qualquer casa, em que entrardes, ficai aí, e não saiais dela.
5E quando quaisquer vos não queiram receber: Ao sair dessa cidade, sacudi até o pó dos vossos pés, para servir de testemunho contra êles.
6Tendo êles pois saído, andavam de aldeia em aldeia pregando o Evangelho, e fazendo curas em todo o lugar.
7E chegou à notícia de Herodes tetrarca tudo o que Jesus obrava, e ficou como suspenso, porque diziam
8uns: É João que ressurgiu dos mortos; e outros: É Elias que apareceu; e outros: É um dos antigos profetas que ressuscitou.
9Então lhes disse Herodes: Eu mandei degolar a João: Quem é pois êste, de quem eu ouço semelhantes coisas? E buscava ocasião de o ver.
10E tendo voltado os Apóstolos, lhe contaram tudo quanto haviam feito, e Jesus, tomando-os consigo à parte, foi a um lugar deserto, que é do território de Betsaidá.
11O que ouvindo os povos, o foram seguindo, e Jesus os recebeu, e falava-lhes do Reino de Deus, e sarava os que necessitavam de cura.
12Ora, o dia tinha começado já a declinar, quando chegando a êle os doze, lhe disseram: Despede estas gentes, para que indo êles por essas aldeias, e granjas da comarca, se alberguem, e achem que comer: Porque aqui estamos em lugar deserto.
13Mas Jesus lhes respondeu: Dai-lhes vós de comer. E replicaram êles: Nós não temos mais do que cinco pães e dois peixes, senão é que devemos ir comprar mantimento para todo êste povo.
14Porque eram quase cinco mil homens. Então disse Jesus a seus discípulos: Fazei-os sentar para comer, divididos em ranchos de cinqüenta em cinqüenta.
15E êles assim o executaram. E os fizeram sentar a todos.
16E tendo tomado Jesus os cinco pães e dois peixes, levantou os olhos ao Céu, e os abençoou, e partiu e deu aos seus discípulos, para que os pusessem diante das gentes.
17E comeram todos, e ficaram fartos. E levantaram, do que lhes sobejou, doze cestos de fragmentos.
18E aconteceu que estando só orando, se achavam com êle também os seus discípulos: E Jesus lhes perguntou, dizendo: Quem dizem as gentes que sou eu?[2]Só orando — Em Cesaréia de Filipe. Cfr. Mt 16, 13.
19E êles responderam, e disseram: Uns dizem que João Batista, outros que Elias, e outros, que ressuscitou algum dos antigos profetas.
20Então lhes disse Jesus: E vós quem dizeis que sou eu? Respondendo Simão Pedro, disse: O Cristo de Deus.
21Êle então ameaçando-os mandou que o não dissessem a ninguém,
22dizendo: É necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, e que seja rejeitado dos anciãos e dos príncipes dos sacerdotes, dos escribas, e que seja entregue à morte, e que ressuscite ao terceiro dia.
23E dizia a todos: Se alguém quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz cada dia, e siga-me:
24Porque o que quiser salvar a sua alma, virá a perdê-la: E quem perder a sua alma por amor de mim salva-la-á:
25Porque, que aproveita um homem, se grangear todo o mundo, quando se perde a si mesmo, e se faz dano a si?
26Porque se alguém se envergonhar de mim, e das minhas palavras: Também o Filho do homem se envergonhará dêle, quando vier na sua majestade e na de seu Pai, e santos Anjos.
27E digo-vos na verdade: Que dos que aqui se acham, alguns há que não hão de gostar a morte, até não verem o reino de Deus.
28E aconteceu que passados quase oito dias depois que disse estas palavras, tomou Jesus consigo não só a Pedro, mas a Tiago, e a João e subiu a um monte a orar.
29E enquanto orava, pareceu todo outro o seu rosto: E fez-se o seu vestido alvo e brilhante.
30E eis que falavam com êle dois varões. E êstes eram Moisés e Elias.
31Que apareceram cheios de majestade: E falavam da sua saída dêste mundo, que havia de cumprir em Jerusalém.
32Entretanto Pedro, e os que com êle estavam, se tinham deixado oprimir do sono. E despertando viram a glória de Jesus, e aos dois varões, que com êle estavam.
33E aconteceu que ao tempo que se apartaram dêle, disse Pedro a Jesus: Mestre, bom é que nós aqui estejamos: E façamos três tendas, uma para ti, e outra para Moisés, e outra para Elias: Não sabendo o que dizia.
34E quando êle estava ainda dizendo isto, veio uma nuvem, e os cobriu: E tiveram mêdo, entrando êles na nuvem.
35E saiu uma voz da nuvem, dizendo: Êste é aquêle meu Filho especialmente amado, ouvi-o.
36E ao sair esta voz, acharam só a Jesus. E êles se calaram, e a ninguém disseram naqueles dias coisa alguma das que tinham visto.
37E sucedeu no dia seguinte que descendo êles do monte, lhes veio sair ao encontro uma grande multidão de gente.
38E eis que um homem da turba clamou, dizendo: Mestre, rogo-te que ponhas os olhos em meu filho, porque é o único que tenho:
39E eis que um espírito se apodera dêle, sùbitamente dá gritos, e o lança por terra, e o agita com violência, fazendo-o escumar, e apenas o larga deixando-o feito em pedaços:
40E pedi a teus discípulos que o expelissem, e êles não puderam.
41E respondendo Jesus, disse: Ó geração infiel, e perversa, até quando estarei eu convosco, e vos sofrerei? Traze cá o teu filho.
42E quando êste ia chegando, o lançou o demônio por terra, e o agitou com violentas convulsões.
43Mas Jesus ameaçou ao espírito imundo, sarou o menino, e o restituiu a seu pai.
44E pasmavam todos do grande poder de Deus: E admirando-se todos de tôdas as coisas que fazia, disse Jesus aos seus discípulos: Ponde vós nos vossos corações estas palavras: O Filho do homem há de vir a ser entregue nas mãos dos homens.
45Mas êles não entendiam esta palavra, e lhes era tão obscura, que não a compreendiam: E tinham mêdo de lhe perguntar acêrca dela.
46Veio-lhes então ao pensamento qual dêles era o maior.
47Mas Jesus vendo o que êles cuidavam nos seus corações, tomou um menino, e o pôs junto de si,
48e lhes disse: Todo o que receber êste menino em meu nome, a mim me recebe: E todo o que me receber a mim, recebe àquele que me enviou. Porque quem dentre vós todos é o menor, êsse é o maior.
49Então respondendo João, disse: Mestre, nós vimos a um que expelia os demônios em teu nome, e lho vedamos: Porque não te segue conosco.
50E Jesus lhes disse: Não lho proibais; Porque o que não é contra vós, é por vós.
51E aconteceu que sendo chegado o tempo da sua Assunção, mostrou êle um semblante intrépido e resoluto para ir para Jerusalém.[3]Assunção — Esta palavra do texto, segundo os intérpretes, significa aquêle tempo em que Jesus Cristo se havia de ausentar dêste mundo para o seio de seu Pai ou o da sua morte.
52E enviou adiante de si mensageiros: E indo êles entraram em uma cidade dos samaritanos para lhe prevenirem pousada.[4]E indo êles — Para darem notícia de que êle vinha. Porque, como os samaritanos viviam em cisma com os judeus em matéria de religião, e conseqüentemente se abstinham de todo o comércio com êles, justamente se podia recear que o não quisessem admitir.
53E não o receberam, por êle dar mostras de que ia para Jerusalém.
54O que porém tendo visto seus discípulos Tiago e João, disseram: Senhor, queres tu que digamos que desça fogo do Céu, e que os consuma?
55Porém Jesus voltando-se para êles, os repreendeu, dizendo: Vós não sabeis qual é o espírito da vossa vocação.
56O Filho do homem não veio a perder as almas, mas a salvá-las. E foram para outra povoação.
57E aconteceu isto: Indo êle pelo caminho, veio um homem, e disse a Jesus: Eu seguir-te-ei para onde quer que tu fôres.
58Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm suas covas, e as aves do Céu têm seus ninhos: Mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.[5]Mas o Filho — Vale-se o Senhor destas comparações para denotar a extrema pobreza com que vivia entre nós. E se quer chamar o "Filho do homem", isto é, da Virgem Maria, não obstante que o anjo lhe havia chamado "Salvador", ainda antes de nascer, e os profetas o haviam anunciado com os títulos de "Messias, Sacerdote Eterno, Anjo do grande conselho, Deus, Senhor, Príncipe de Paz", e outros, Is 9, 6, para abater o nosso orgulho, e confundir a nossa soberba, ensinando-nos o amor da humildade e da pobreza.
59E a outro disse Jesus: Segue-me: E êle lhe disse: Senhor, permite-me que vá eu primeiro enterrar a meu pai.[6]Segue-me — Oferecendo-se um para o seguir, Jesus o não admite. E quando outro se queria retirar, Jesus o detém em seu serviço.
60E Jesus lhe respondeu: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos: E tu vai, e anuncia o Reino de Deus.
61E disse-lhe outro: Eu, Senhor, seguir-te-ei, mas dá-me licença que eu vá primeiro dispor dos bens que tenho em minha casa.
62Respondeu-lhe Jesus: Nenhum que mete a sua mão no arado, e olha para trás, é apto para o Reino de Deus.