Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

Cura Jesus Cristo um hidrópico em dia de sábado. Defende o que fizera. Deve-se escolher o último lugar, e devem-se convidar para a mesa antes os pobres, do que os ricos. Parábola dos que se escusaram de ir às bodas. É necessário dar de mão a tudo, por seguir a Jesus Cristo. O sal que perdeu a fôrça.

1E aconteceu que entrando Jesus um sábado em casa de um dos príncipes fariseus a tomar a sua refeição, ainda êles o estavam ali observando.

2E eis que diante dêle estava um homem hidrópico.

3E Jesus dirigindo a sua palavra aos doutores da lei, e aos fariseus, lhes disse, fazendo esta pergunta: É permitido fazer curas nos dias de sábado?

4Mas êles ficaram calados. Então Jesus pegando no homem o curou, e mandou-o embora.

5E dirigindo a êles o discurso, lhes disse: Quem há dentre vós que se o seu jumento, ou o seu boi cair num poço em dia de sábado, o não tire logo no mesmo dia?[1]O seu boi cairOs poços na Palestina eram abertos à superfície da terra, tapando-se o orifício com uma pedra. Quando por descuido se deixava descoberto, era fatal a queda de animais e de homens.

6E êles não lhe podiam replicar a isto.

7E observando também como os convidados escolhiam os primeiros assentos na mesa, propondo-lhes uma parábola, lhes disse:

8Quando fôres convidado a algumas bodas, não te assentes no primeiro lugar, porque pode ser que esteja ali outra pessoa mais autorizada do que tu convidada pelo dono da casa,

9e que vindo êste, que te convidou a ti e a êle, te diga: Dá o teu lugar a êste, e tu envergonhado vás buscar o último lugar:

10Mas quando fôres convidado, vai tomar o último lugar, para que quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais para cima. Servir-te-á isto então de glória na presença dos que estiverem juntamente sentados à mesa:

11Porque todo o que se exalta, será humilhado, e todo o que se humilha, será exaltado.

12Dizia mais ainda ao que o tinha convidado: Quando deres algum jantar, ou alguma ceia, não chames nem teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos que forem ricos: Para que não aconteça que também êles te convidem a sua vez e te paguem com isso:[2]Não chames nem teus amigosNão reprova com isto o Senhor a liberalidade e civilidade com os amigos e parentes, mas quer dizer, que se queremos ser remunerados mais no Céu do que na terra, o melhor modo de segurarmos a nossa retribuição é gastando com os pobres, porque dos ricos poderemos talvez esperar que êles nos façam o mesmo que nós lhes fazemos. Dos pobres, porém, nada podemos esperar, e assim tôda a remuneração fica da parte de Deus. — Amelote.

13Mas quando deres algum banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, e os cegos:

14E serás bem-aventurado, porque êsses não têm com que te retribuir: Mas ser-te-á isso retribuído na ressurreição dos justos.

15Tendo ouvido estas coisas um dos que estavam à mesa, disse para Jesus: Bem-aventurado o que comer o pão no Reino de Deus.[3]Bem-aventuradoDitoso aquêle que merecer ser admitido no Banquete Celestial, onde Deus alimentará a seus santos duma maneira inefável, enchê-los-á de bens incompreensíveis, e fá-los-á beber na torrente dos prazeres espirituais e Divinos, que tem reservados na sua casa para os seus escolhidos. Sl 35, 9.

16Então lhes disse Jesus: Um homem fez uma grande ceia, para a qual convidou a muitos.

17E quando foi a hora da ceia, enviou um dos seus servos a dizer aos convidados, que viessem, porque tudo estava já aparelhado.

18Porém todos à uma começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Eu comprei uma quinta, e é-me necessário ir vê-la: Rogo-te que me dês por escusado.

19E disse outro: Eu comprei cinco juntas de bois, e vou fazer prova dêles: Rogo-te que me dês por escusado.

20Disse também outro: Eu casei, e por isso não posso ir lá.

21E voltando o servo deu conta a seu Senhor de tudo isto. Então irado o pai de família, disse ao seu servo: Sai logo às praças, e às ruas da cidade: E traze-me cá quantos pobres, e aleijados, e cegos, e coxos achares.

22E disse o servo: Senhor, feito está, como o mandaste, e ainda há lugar para outros mais.

23E respondeu o Senhor ao servo: Sai por êsses caminhos, e cercos: E fôrça-os a entrar, para que fique cheia a minha casa.[4]E fôrça-os a entrarÊste verbo dá bem a conhecer não só a eficácia da Divina Graça, mas também o vivo desejo que teve Deus, representado neste pai de família, de que, pressuposta a incivilidade e rebeldia dos judeus, acudissem à sua vocação, abraçando a fé e recolhendo-se à Igreja os povos idólatras. — Amelote.

24Porque eu vos declaro que nenhum daqueles homens, que foram convidados, provará a minha ceia.

25E muitas gentes iam com êle: E voltando Jesus para todos lhes disse:

26Se algum vem a mim, e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda a sua mesma vida, não pode ser meu discípulo.[5]E não aborrece a seu paiNão quer dizer Jesus Cristo que aborreçamos em si mesmo umas pessoas que nos são tão próximas e tão amáveis, como o pai e mãe; mas que quando estas mesmas pessoas nos queiram apartar de Jesus Cristo, mandando ou aconselhando alguma coisa contrária à nossa salvação e à vontade de Deus, então as devemos considerar não só como estranhas, mas também como inimigas, para lhes resistirmos e desobedecermos. — Bossuet, na primeira Instrução sôbre a versão de Trevoux, com S. Gregório e com o Venerável Beda.

27E o que não leva a sua cruz, e vem em meu seguimento, não pode ser meu discípulo.

28Porque qual de vós, querendo edificar uma tôrre, não se põe primeiro muito de seu vagar a fazer contas dos gastos que são necessários, para ver se tem com que a acabar.

29Para se não expor a que, depois que tiver assentado o fundamento, e não a puder acabar, todos os que a virem, comecem a fazer zombaria dêle,

30dizendo: Êste homem principiou o edifício, e não o pôde acabar?

31Ou que rei há que, estando para ir para a campanha contra outro rei, não tome primeiro muito de assento as suas medidas, a ver se com dez mil homens poderá ir a encontrar-se com o que traz contra êle vinte mil?

32Doutra maneira, ainda quando o outro está longe, enviando sua embaixada, lhe pede tratados de paz.

33Assim pois qualquer de vós que não dá de mão a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo.

34O sal é bom. Porém se o sal perder a fôrça, com que outra coisa se há de temperar?

35Ficará sem servir nem para a terra, nem para o monturo, mas lançar-se-á fora. O que tem ouvidos de ouvir, ouça.[6]Nem para a terraÊste dito de Jesus Cristo faz ver que é um êrro cuidar (como muitos cuidam) que todo sal esteriliza as terras.

O que tem ouvidos de ouvir, ouça — Tôdas as vezes que Jesus Cristo usa desta expressão, é sempre para denotar ser de uma grandíssima importância o que disse, ou vai a dizer. — Sacy.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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