Capítulo 8
1E aconteceu depois, que Jesus caminhava por cidades e aldeias pregando, e anunciando o reino de Deus: E os doze com êle.
2E também algumas mulheres, que êle tinha livrado de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, que se chama Madalena, da qual Jesus havia expelido sete demônios,
3e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Susana, e outras muitas, que lhes assistiam de suas posses.[1]Que lhes assistiam — Era costume entre os judeus, que as mulheres subministrassem de seus bens o necessário para o alimento e vestido dos que tinham por seus mestres espirituais; e o Senhor quis valer-se dêste meio para socorrer as suas necessidades temporais, ao mesmo tempo que as fazia participantes dos seus tesouros e graças espirituais, ensinando a seus discípulos, com o exemplo destas mulheres, a que assistissem com as coisas temporais aos prègadores do Evangelho, e a êstes que se contentassem só com o preciso para seu alimento e vestido. — S. Jerônimo.
Cuza — Tesoureiro ou ecônomo de Herodes Antipas.
4E como houvesse concorrido um crescido número de povo, e acudissem solícitos a êle das cidades, lhes disse Jesus por semelhança:
5Saiu o que semeia, a semear o seu grão: E ao semeá-lo, uma parte caiu junto ao caminho, e foi pisada, e a comeram as aves do Céu.[2]Saiu — Cfr. Mt 13, 3; Mc 4, 3.
6E outra caiu sôbre pedregulho: E quando foi nascida se secou, porque não tinha umidade.
7E a outra caiu entre espinhos, e logo os espinhos que nasceram com ela, a afogaram.
8E outra caiu em boa terra: E depois de nascer, deu fruto, cento por um. Dito isto, começou a dizer em alta voz: Quem tem ouvidos de ouvir, ouça.
9Então os seus discípulos lhe perguntaram que queria dizer esta parábola.
10Êle lhes respondeu: A vós foi-vos concedido conhecer o mistério do reino de Deus, mas aos outros se lhes fala por parábolas: Para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam.
11É pois êste o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus.
12A que cai à borda do caminho, são aquêles que a ouvem: Mas depois vem o diabo, e tira a palavra do coração dêles, porque não se salvem crendo.
13Quanto à que cai em pedregulho, significa os que recebem com gôsto a palavra quando a ouviram: E êstes não têm raízes: Porque até certo tempo crêem, e no tempo da tentação voltam atrás.
14E a que caiu entre espinhos: Êstes são os que a ouviram, porém indo por diante, ficam sufocados dos cuidados, e das riquezas, e deleites desta vida, e não dão fruto.
15Mas a que caiu em boa terra: Êstes são os que ouvindo a palavra com coração bom, e muito são, a retêm e dão fruto pela paciência.
16Ninguém pois acende uma luzerna, e a cobre com alguma vasilha, ou a põe debaixo da cama: Põe-na sim sôbre um candeeiro, para que vejam a luz os que entram.
17Porque não há coisa encoberta que não haja de ser manifestada: Nem escondida, que não haja de saber-se, e fazer-se pública.
18Vêde pois como ouvis, porque àquele que tem lhe será dado: E ao que não tem, ainda aquilo mesmo que entende ter, lhe será tirado.
19E vieram ter com êle sua mãe, e seus irmãos, e não podiam chegar a êle, pela muita gente.
20E vieram-lhe dizer: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora, querem-te ver.
21Êle respondendo, lhes disse: Minha mãe e meus irmãos são aquêles que ouvem a palavra de Deus, e a põem por obra.
22E aconteceu isto num daqueles dias, que entrou êle e os seus discípulos em uma barca, e lhes disse: Passemos à outra ribeira do lago. E êles partiram.
23E enquanto êles iam navegando, dormiu Jesus, e levantou-se uma tempestade de vento sôbre o lago, e se encheu dágua, e perigavam.
24E chegando-se a êle o despertaram, dizendo: Mestre, nós perecemos. E êle, levantando-se, increpou ao vento, e a tempestade da água, e logo tudo cessou. E veio bonança.
25Disse-lhes então Jesus: Onde está a vossa fé? Êles, cheios de temor, se admiraram, dizendo uns para os outros: Quem cuidas que é êste, que assim manda aos ventos e ao mar, e êles lhe obedecem?
26E navegaram para a terra dos gerasenos, que está fronteira à Galiléia.
27E logo que saltou em terra, veio ter com êle um homem que estava endemoninhado havia já muitos tempos, e não vestia roupa alguma, nem habitava em casa, senão nos sepulcros.
28Êste, logo que viu a Jesus, prostrou-se diante dêle, e gritando muito alto, disse: Que tens tu comigo, Jesus, Filho de Deus Altíssimo? Peço-te que me não atormentes.
29Porque Jesus mandava ao espírito imundo, que saísse do homem. Porque havia muitos tempos que o arrebatava, e ainda que o guardassem prêso em cadeias, e grilhões, logo rompia as cadeias, e agitado do demônio, fugia para os desertos.
30E fez-lhe Jesus esta pergunta, dizendo: Que nome é o teu? Êle então respondeu: Legião: Porque eram em grande número os demônios que tinham entrado nêle.
31E êstes lhe pediram que os não mandasse ir para o abismo.
32Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos, e lhe rogavam que lhes permitisse entrar nêles. E Jesus lho permitiu.[3]E Jesus lho permitiu — Jesus Cristo não os enviou, mas permitiu-lhes que entrassem. Deus envia o mal de pena, para castigar os pecados dos homens, e permite o mal de culpa, deixando-os correr desenfreadamente pelos seus apetites, para maior castigo dos mesmos.
33Saíram pois do homem os demônios, e entraram nos porcos, e logo a manada dos porcos se arrojou por um despenhadeiro impetuosamente no lago, e ali ficou tôda afogada.
34Quando isto viram os porqueiros, fugiram e foram-no contar às cidades, e pelas granjas.
35E saíram a ver o que havia acontecido, e vieram ter com Jesus, e acharam a seus pés sentado, já vestido, e em seu juízo, ao homem, de quem haviam saído os demônios, e tiveram grande mêdo.
36E os que haviam presenciado o que tinha sucedido, lhes contaram também como o possesso fôra livrado da legião:
37E tôda a gente do território dos gerasenos pediu a Jesus que se retirasse dêles: Porque estavam possuídos de grande mêdo. Pelo que êle, embarcando-se, se retirou de volta.
38E pedia-lhe o homem, de quem tinham saído os demônios, que o deixasse estar com êle. Porém Jesus o despediu, dizendo:
39Volta para tua casa, e conta as grandes coisas que Deus te fez. E foi publicando por tôda a cidade as singulares graças, que lhe fizera Jesus.
40E aconteceu que tendo voltado Jesus, o receberam as gentes: Pois todos o estavam esperando.
41E eis que veio um homem chamado Jairo, que era príncipe da Sinagoga: E lançou-se aos pés de Jesus, pedindo-lhe que viesse a sua casa.[4]Jairo — É o chefe da Sinagoga. Cfr. Mc 5, 22.
42Porque tinha uma filha única que teria doze anos, e estava morrendo. E sucedeu que enquanto ia Jesus caminhando, molestavam-no os apertões do povo.
43E uma mulher padecia fluxo de sangue havia doze anos, e tinha dispendido com médicos todo o seu cabedal, sem poder de nenhum dêles ser curada:
44Chegou por detrás, e tocou a orla do vestido de Jesus: E no mesmo instante lhe parou o fluxo de sangue.[5]E no mesmo instante — Eusébio na sua História Eclesiástica livro 5, cap. 14, refere que esta mulher, em agradecimento e memória de tão estupendo benefício, mandara levantar a Jesus Cristo uma estátua de bronze em Cesaréia.
45Disse então Jesus: Quem é que me tocou? E respondendo todos que nenhum fôra, disse Pedro, e os que com êle estavam: Mestre, as gentes te apertam e oprimem, e ainda perguntas: Quem é que me tocou?
46Replicou todavia Jesus: Alguém me tocou: Porque eu conheci que de mim saía uma virtude.
47Quando a mulher se viu assim descoberta, veio tôda tremendo e se prostrou aos pés de Jesus: E declarou diante de todo o povo a causa por que lhe havia tocado: E como ficara logo sã.
48E êle lhe disse: Filha, a tua fé te salvou: Vai-te em paz.
49Ainda êle não tinha acabado de falar, quando veio um dizer ao príncipe da sinagoga: É morta tua filha, não lhe dês o trabalho de cá vir.
50Mas Jesus, tendo ouvido estas palavras, disse para o pai da menina: Não temas, crê sòmente, e ela será salva.
51E depois de chegar à casa, mandou que ninguém entrasse com êle, senão Pedro, e Tiago, e João, e o pai, e a mãe da menina.
52Entretanto todos a choravam, e se feriam de pena. Porém Jesus lhes disse: Não choreis, que a menina não está morta, mas dorme.
53Mas os que sabiam que ela estava morta, zombavam dêle.
54Então Jesus tomando-lhe a mão, disse em alta voz: Menina, levanta-te.
55Então a sua alma tornou ao corpo, e ela se levantou logo. E Jesus mandou que lhe dessem de comer.
56Ficaram pois cheios de assombro seus pais, a quem Jesus pôs preceito de não contarem a pessoa alguma o que se tinha passado.