Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 8

A parábola do semeador, que Jesus explica aos seus Apóstolos. Quais são os que êle tem por mãe e por irmãos. Faz acalmar uma tempestade. Livra um possesso de uma legião de demônios. Tocando a orla do vestido de Jesus, recobra saúde uma mulher, que padecia fluxo de sangue. Ressurreição da filha de Jairo.

1E aconteceu depois, que Jesus caminhava por cidades e aldeias pregando, e anunciando o reino de Deus: E os doze com êle.

2E também algumas mulheres, que êle tinha livrado de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, que se chama Madalena, da qual Jesus havia expelido sete demônios,

3e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Susana, e outras muitas, que lhes assistiam de suas posses.[1]Que lhes assistiamEra costume entre os judeus, que as mulheres subministrassem de seus bens o necessário para o alimento e vestido dos que tinham por seus mestres espirituais; e o Senhor quis valer-se dêste meio para socorrer as suas necessidades temporais, ao mesmo tempo que as fazia participantes dos seus tesouros e graças espirituais, ensinando a seus discípulos, com o exemplo destas mulheres, a que assistissem com as coisas temporais aos prègadores do Evangelho, e a êstes que se contentassem só com o preciso para seu alimento e vestido. — S. Jerônimo.

Cuza — Tesoureiro ou ecônomo de Herodes Antipas.

4E como houvesse concorrido um crescido número de povo, e acudissem solícitos a êle das cidades, lhes disse Jesus por semelhança:

5Saiu o que semeia, a semear o seu grão: E ao semeá-lo, uma parte caiu junto ao caminho, e foi pisada, e a comeram as aves do Céu.[2]SaiuCfr. Mt 13, 3; Mc 4, 3.

6E outra caiu sôbre pedregulho: E quando foi nascida se secou, porque não tinha umidade.

7E a outra caiu entre espinhos, e logo os espinhos que nasceram com ela, a afogaram.

8E outra caiu em boa terra: E depois de nascer, deu fruto, cento por um. Dito isto, começou a dizer em alta voz: Quem tem ouvidos de ouvir, ouça.

9Então os seus discípulos lhe perguntaram que queria dizer esta parábola.

10Êle lhes respondeu: A vós foi-vos concedido conhecer o mistério do reino de Deus, mas aos outros se lhes fala por parábolas: Para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam.

11É pois êste o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus.

12A que cai à borda do caminho, são aquêles que a ouvem: Mas depois vem o diabo, e tira a palavra do coração dêles, porque não se salvem crendo.

13Quanto à que cai em pedregulho, significa os que recebem com gôsto a palavra quando a ouviram: E êstes não têm raízes: Porque até certo tempo crêem, e no tempo da tentação voltam atrás.

14E a que caiu entre espinhos: Êstes são os que a ouviram, porém indo por diante, ficam sufocados dos cuidados, e das riquezas, e deleites desta vida, e não dão fruto.

15Mas a que caiu em boa terra: Êstes são os que ouvindo a palavra com coração bom, e muito são, a retêm e dão fruto pela paciência.

16Ninguém pois acende uma luzerna, e a cobre com alguma vasilha, ou a põe debaixo da cama: Põe-na sim sôbre um candeeiro, para que vejam a luz os que entram.

17Porque não há coisa encoberta que não haja de ser manifestada: Nem escondida, que não haja de saber-se, e fazer-se pública.

18Vêde pois como ouvis, porque àquele que tem lhe será dado: E ao que não tem, ainda aquilo mesmo que entende ter, lhe será tirado.

19E vieram ter com êle sua mãe, e seus irmãos, e não podiam chegar a êle, pela muita gente.

20E vieram-lhe dizer: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora, querem-te ver.

21Êle respondendo, lhes disse: Minha mãe e meus irmãos são aquêles que ouvem a palavra de Deus, e a põem por obra.

22E aconteceu isto num daqueles dias, que entrou êle e os seus discípulos em uma barca, e lhes disse: Passemos à outra ribeira do lago. E êles partiram.

23E enquanto êles iam navegando, dormiu Jesus, e levantou-se uma tempestade de vento sôbre o lago, e se encheu dágua, e perigavam.

24E chegando-se a êle o despertaram, dizendo: Mestre, nós perecemos. E êle, levantando-se, increpou ao vento, e a tempestade da água, e logo tudo cessou. E veio bonança.

25Disse-lhes então Jesus: Onde está a vossa fé? Êles, cheios de temor, se admiraram, dizendo uns para os outros: Quem cuidas que é êste, que assim manda aos ventos e ao mar, e êles lhe obedecem?

26E navegaram para a terra dos gerasenos, que está fronteira à Galiléia.

27E logo que saltou em terra, veio ter com êle um homem que estava endemoninhado havia já muitos tempos, e não vestia roupa alguma, nem habitava em casa, senão nos sepulcros.

28Êste, logo que viu a Jesus, prostrou-se diante dêle, e gritando muito alto, disse: Que tens tu comigo, Jesus, Filho de Deus Altíssimo? Peço-te que me não atormentes.

29Porque Jesus mandava ao espírito imundo, que saísse do homem. Porque havia muitos tempos que o arrebatava, e ainda que o guardassem prêso em cadeias, e grilhões, logo rompia as cadeias, e agitado do demônio, fugia para os desertos.

30E fez-lhe Jesus esta pergunta, dizendo: Que nome é o teu? Êle então respondeu: Legião: Porque eram em grande número os demônios que tinham entrado nêle.

31E êstes lhe pediram que os não mandasse ir para o abismo.

32Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos, e lhe rogavam que lhes permitisse entrar nêles. E Jesus lho permitiu.[3]E Jesus lho permitiuJesus Cristo não os enviou, mas permitiu-lhes que entrassem. Deus envia o mal de pena, para castigar os pecados dos homens, e permite o mal de culpa, deixando-os correr desenfreadamente pelos seus apetites, para maior castigo dos mesmos.

33Saíram pois do homem os demônios, e entraram nos porcos, e logo a manada dos porcos se arrojou por um despenhadeiro impetuosamente no lago, e ali ficou tôda afogada.

34Quando isto viram os porqueiros, fugiram e foram-no contar às cidades, e pelas granjas.

35E saíram a ver o que havia acontecido, e vieram ter com Jesus, e acharam a seus pés sentado, já vestido, e em seu juízo, ao homem, de quem haviam saído os demônios, e tiveram grande mêdo.

36E os que haviam presenciado o que tinha sucedido, lhes contaram também como o possesso fôra livrado da legião:

37E tôda a gente do território dos gerasenos pediu a Jesus que se retirasse dêles: Porque estavam possuídos de grande mêdo. Pelo que êle, embarcando-se, se retirou de volta.

38E pedia-lhe o homem, de quem tinham saído os demônios, que o deixasse estar com êle. Porém Jesus o despediu, dizendo:

39Volta para tua casa, e conta as grandes coisas que Deus te fez. E foi publicando por tôda a cidade as singulares graças, que lhe fizera Jesus.

40E aconteceu que tendo voltado Jesus, o receberam as gentes: Pois todos o estavam esperando.

41E eis que veio um homem chamado Jairo, que era príncipe da Sinagoga: E lançou-se aos pés de Jesus, pedindo-lhe que viesse a sua casa.[4]JairoÉ o chefe da Sinagoga. Cfr. Mc 5, 22.

42Porque tinha uma filha única que teria doze anos, e estava morrendo. E sucedeu que enquanto ia Jesus caminhando, molestavam-no os apertões do povo.

43E uma mulher padecia fluxo de sangue havia doze anos, e tinha dispendido com médicos todo o seu cabedal, sem poder de nenhum dêles ser curada:

44Chegou por detrás, e tocou a orla do vestido de Jesus: E no mesmo instante lhe parou o fluxo de sangue.[5]E no mesmo instanteEusébio na sua História Eclesiástica livro 5, cap. 14, refere que esta mulher, em agradecimento e memória de tão estupendo benefício, mandara levantar a Jesus Cristo uma estátua de bronze em Cesaréia.

45Disse então Jesus: Quem é que me tocou? E respondendo todos que nenhum fôra, disse Pedro, e os que com êle estavam: Mestre, as gentes te apertam e oprimem, e ainda perguntas: Quem é que me tocou?

46Replicou todavia Jesus: Alguém me tocou: Porque eu conheci que de mim saía uma virtude.

47Quando a mulher se viu assim descoberta, veio tôda tremendo e se prostrou aos pés de Jesus: E declarou diante de todo o povo a causa por que lhe havia tocado: E como ficara logo sã.

48E êle lhe disse: Filha, a tua fé te salvou: Vai-te em paz.

49Ainda êle não tinha acabado de falar, quando veio um dizer ao príncipe da sinagoga: É morta tua filha, não lhe dês o trabalho de cá vir.

50Mas Jesus, tendo ouvido estas palavras, disse para o pai da menina: Não temas, crê sòmente, e ela será salva.

51E depois de chegar à casa, mandou que ninguém entrasse com êle, senão Pedro, e Tiago, e João, e o pai, e a mãe da menina.

52Entretanto todos a choravam, e se feriam de pena. Porém Jesus lhes disse: Não choreis, que a menina não está morta, mas dorme.

53Mas os que sabiam que ela estava morta, zombavam dêle.

54Então Jesus tomando-lhe a mão, disse em alta voz: Menina, levanta-te.

55Então a sua alma tornou ao corpo, e ela se levantou logo. E Jesus mandou que lhe dessem de comer.

56Ficaram pois cheios de assombro seus pais, a quem Jesus pôs preceito de não contarem a pessoa alguma o que se tinha passado.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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