Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 5

Jesus pregando na barca de Pedro, a quem manda lançar as redes com feliz sucesso. Cura um leproso e um paralítico, perdoando-lhes os pecados. Chama para si a Mateus e janta em sua casa. Por que razão come êle com os pecadores, e por que razão não jejuam os seus discípulos.

1E aconteceu que atropelando-o a gente, acudia a êle para ouvir a palavra de Deus: E êle estava à borda do lago de Genesaré.

2E viu duas barcas que estavam à borda do lago: E os pescadores haviam saltado em terra, e lavavam as suas redes.

3E entrando em uma destas barcas, que era de Simão, lhe rogou que o apartasse um pouco da terra. E estando sentado ensinava ao povo desde a barca.

4E logo que acabou de falar disse a Simão: Faze-te mais ao largo, e soltai as vossas redes para pescar.

5E respondendo Simão, lhe disse: Mestre, depois de trabalharmos tôda a noite, não apanhamos coisa alguma: Porém sôbre a tua Palavra soltarei a rede.

6E depois que assim o fizeram, apanharam peixe em tanta abundância, que a rede se lhes rompia.

7O que os obrigou a dar sinal aos companheiros, que estavam em outra barca, para que os viessem ajudar. E vieram, e encheram tanto ambas as barcas, que pouco faltava que elas não fôssem ao fundo.

8O que vendo Simão Pedro, lançou-se aos pés de Jesus, dizendo: Retira-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador.[1]Retira-te de mimComo se julgava indigno da presença do Senhor, não lhe pede que o desampare, mas sim que o livre da soberba, diz Santo Ambrósio. Non rogat ut deseratur, sed ne infletur. — Amelote.

9Porque o espanto o tinha assombrado a êle e a todos os que se achavam com êle, de ver a pesca de peixes que haviam feito:

10E da mesma sorte havia deixado atônitos a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Mas Jesus disse a Simão: Não tenhas mêdo: Desta hora em diante serás pescador de homens.

11E como chegaram à terra as barcas, deixando tudo, foram-no seguindo.

12E sucedeu que se achava Jesus em uma daquelas cidades, e eis que apareceu um homem cheio de lepra, o qual vendo a Jesus, e lançando-se com o rosto em terra, lhe fez esta rogativa, dizendo: Senhor, se tu queres, bem me podes limpar.

13E êle, estendendo a mão, lhe tocou, dizendo: Quero: Sê limpo. E no mesmo ponto desapareceu dêle a lepra:

14E o mesmo Jesus lhe mandou que a ninguém o dissesse: Mas, vai, lhe disse, mostra-te ao sacerdote, e oferece pela tua limpeza o que foi ordenado por Moisés, para lhes servir de testemunho.[2]O que foi ordenado por MoisésPorque a impureza legal, que era como uma excomunhão do leproso, curava-lhe ainda depois de limpo, enquanto êle não fazia a sua oferta.

15Entretanto se dilatava cada vez mais a fama do seu nome: E concorriam muitas gentes para o ouvirem, e para serem curadas das suas enfermidades.

16Mas êle se retirava para o deserto, e se punha em oração.

17E aconteceu um dia que também êle se achava sentado ensinando. E estavam igualmente assentados ali uns fariseus, e doutores da lei, que tinham vindo de tôdas as aldeias de Galiléia, e de Judéia, e de Jerusalém: E a virtude do Senhor operava para os sarar.

18E eis que apareceram uns homens que traziam sôbre um leito um homem que estava paralítico: E o procuravam introduzir dentro na casa, e pô-lo diante dêle.

19Mas não achando por onde o introduzir, por ser muita a gente, subiram ao telhado, e pelas lages desceram-no com o leito no meio da casa diante de Jesus.[3]Ao telhadoJá ficou dito que as casas dos judeus tinham um terraço, onde se reuniam, discutiam, ensinavam, etc.

LAGES — O padre Pereira traduziu por telhas a palavra tegulas da Vulgata, que corresponde ao grego dia ton keramon. Keramon designa tudo o que é feito com terra, e em particular o terraço em terra, que forma o teto das casas orientais. É claro, pois, que não é rigoroso o termo lages, mas ainda menos o é telhas, que pode originar confusão na leitura do texto.

20O qual, como viu a fé dos homens, disse: Homem, os teus pecados te são perdoados.

21Então começaram os escribas, e os fariseus a discorrer lá consigo, dizendo: Quem é êste que diz blasfémias? Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?

22Mas Jesus, como entendia os pensamentos dêles, respondendo, lhes disse: Que considerais vós lá nos vossos corações?

23Qual é mais fácil dizer: São-te perdoados os pecados: Ou dizer: Levanta-te, e anda?

24Pois para que saibais que o Filho do homem tem sôbre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico): A ti te digo, levanta-te, toma o teu leito e vai-te para tua casa.

25E levantando-se logo à vista deles, tomou o leito em que jazia: E foi para sua casa, engrandecendo a Deus.

26E ficaram todos pasmados e engrandeceram a Deus. E penetraram-se de temor, dizendo: Hoje temos visto prodígios.

27E depois disto saiu Jesus, e viu sentado no telônio um publicano, por nome Levi, e disse-lhe: Segue-me.[4]Um publicano, por nome LeviÉ S. Mateus. Cfr. Introdução ao Evangelho de S. Mateus.

28E êle, deixando tudo, levantando-se, o seguiu.

29E Levi lhe deu um grande banquete em sua casa: Onde concorreu grande número de publicanos, e de outros, que estavam sentados à mesa com êles.

30Porém os fariseus, e os escribas dêles murmuravam, dizendo aos discípulos de Jesus: Por que comeis e bebeis vós com publicanos e pecadores?

31E respondendo Jesus, lhes disse: Os que se acham sãos não necessitam de médico, mas os que estão enfermos.

32Eu vim chamar não os justos, mas os pecadores à penitência.

33Então lhe disseram êles: Por que razão os discípulos de João, e assim mesmo os dos fariseus, fazem muitos jejuns, e orações: E os teus comem, e bebem?

34Aos quais respondeu Jesus: Porventura podeis vós fazer que jejuem os amigos do espôso, enquanto o espôso está com êles?

35Mas lá virão dias, nos quais quando o espôso lhes fôr tirado, então jejuarão naqueles dias.

36E também lhes propôs esta comparação: Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho: Porque doutra sorte rompe-se o pano novo e o retalho novo não condiz com o velho.

37Também ninguém lança vinho novo em odres velhos: Porque de outra sorte fará o vinho novo arrebentar os odres, e entornar-se-á o mesmo vinho, e perder-se-ão os odres:

38Mas o vinho novo deve-se recolher em odres novos, e assim tudo se conserva.

39De mais que ninguém bebendo do vinho velho, quer logo do novo, porque diz: É melhor o velho.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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