Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Jejum e tentação de Jesus Cristo no deserto. Lê e explica as Escrituras na sinagoga de Nazaré. Só na sua pátria não tem o profeta estimação. Livra um endemoninhado em Cafarnaum. Cura de uma febre a sogra de Pedro, e obra outras maravilhas em doentes e possessos.

1Cheio pois do Espírito Santo voltou Jesus do Jordão, e foi levado pelo Espírito ao deserto.

2Onde esteve quarenta dias, e foi tentado pelo diabo. E não comeu nada nestes dias, e passados êles teve fome.

3Disse-lhe então o demônio: Se és Filho de Deus, dize a esta pedra que se converta em pão.

4E Jesus lhe respondeu: Está escrito que o homem não vive somente de pão, mas de tôda a palavra de Deus.

5E o demônio o levou a um alto monte, e lhe mostrou todos os reinos da redondeza da terra em um momento de tempo.

6E lhe disse: Dar-te-ei todo êste poder, e a glória dêstes reinos, porque êles me foram dados, e eu os dou a quem bem me parece.

7Portanto, se tu na minha presença prostrado me adorares, todos êles serão teus.

8E respondendo Jesus, lhe disse: Escrito está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a êle só servirás.

9Levou-o ainda a Jerusalém, e pô-lo sôbre o pináculo do Templo, e disse-lhe: Se és Filho de Deus lança-te daqui abaixo.

10Porque está escrito que Deus mandou aos seus Anjos que tivessem cuidado de ti, e que te guardassem.

11E que te sustivessem em seus braços, para não magoares talvez o teu pé em alguma pedra.

12E respondendo Jesus, lhe disse: Dito está: Não tentarás ao Senhor teu Deus.

13E, acabada tôda a tentação, se retirou dêle o demônio, até certo tempo.[1]Até certo tempoIsto é, até ao tempo da Paixão de Jesus Cristo, no qual não tanto veio a tentá-lo, como combatê-lo abertamente. O cristão não se deve contentar com resistir a satanás duas ou três vezes, mas deve estar em contínua vigia temendo os seus assaltos.

14E voltou Jesus em virtude do Espírito para Galiléia, e a fama dêle se divulgou por todo aquêle país.

15E êle ensinava nas Sinagogas dêles, e era aclamado grande por todos.

16E veio a Nazaré, onde se havia criado, e entrou na Sinagoga segundo o seu costume em dia de sábado, e levantou-se para ler.[2]SinagogaDe Nazaré, onde Jesus Cristo ensinou a Lei. Ficava no local onde, segundo a tradição, fica atualmente a Igreja dos gregos unidos, pouco mais ou menos no centro da cidade moderna, perto do mercado. Todos os judeus podiam ler e falar nas sinagogas.

17E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. E quando desenrolou o livro, achou o lugar onde estava escrito:

18O Espírito do Senhor repousou sôbre mim, pelo que êle me consagrou com a sua unção, e enviou-me a pregar o Evangelho aos pobres, a sarar aos quebrantados de coração.

19A anunciar aos cativos redenção, e aos cegos vistas, a pôr em liberdade aos quebrantados para seu resgate, a publicar o ano favorável do Senhor, e o dia da retribuição.

20E havendo enrolado o livro, o deu ao ministro, e se assentou. E quantos havia na Sinagoga tinham os olhos fixos nêle:[3]Ao ministroAquêle a quem os rabinos chamam Khasan, espécie de acólito encarregado de abrir as portas da sinagoga, preparar os manuscritos da Escritura e acondicionar tudo quanto era necessário para os ofícios.

21E começou êle a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura nos vossos ouvidos.

22E todos lhe davam testemunho, e se admiravam da graça das palavras que saíam da sua bôca, e diziam: Não é êste o filho de José?

23Então lhes disse Jesus: Sem dúvida que vós me aplicareis êste provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo: tôdas aquelas grandes coisas que ouvimos dizer, que fizeste em Cafarnaum, faze-as também aqui na tua pátria.[4]Vós me aplicareisDeclara-lhes a objeção que êle estava lendo nos seus corações. — Amelote.

24E prosseguiu: Na verdade vos digo, que nenhum profeta é bem aceito na sua pátria:[5]Que nenhum profetaCom outro provérbio lhes dá a entender que a sua incredulidade os fazia indignos de que êle obrasse ali os milagres, que em outras partes obrava. E a incredulidade dos compatriotas do profeta costuma nascer da inveja e da soberba, que não sofre ver-se excedida pelo que é seu igual. — Amelote.

25Na verdade vos digo, que muitas viúvas havia em Israel nos dias de Elias, quando foi fechado o Céu por três anos e seis meses, quando houve uma grande fome por tôda a terra:

26E a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma mulher viúva de Sarepta de Sidónia.

27E muitos leprosos havia em Israel em tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo senão Naamã, da Síria.[6]Senão Naamã da SíriaO grego tem Neeman. Com êstes exemplos de pessoas estranhas em quem Deus empregou a sua misericórdia lhes deu a entender que o seu orgulho os fazia indignos de receber as graças, que concedia abundantemente aos outros povos. — Santo Ambrósio.

28E todos os que estavam na Sinagoga, ouvindo isto, se encheram de ira.

29E levantaram-se, e o lançaram fora da cidade: E o conduziram até ao cume do monte, sôbre o qual a sua cidade estava fundada, para o precipitarem.[7]MonteÉ o chamado monte de precipitação, isto é, a montanha para a qual os nazarenos conduziram Jesus Cristo para precipitá-lo. Não está perfeitamente identificado. O sítio tradicional é ao sul da cidade, a uma hora de caminho.

30Mas êle, passando pelo meio dêles, se retirou.[8]Se retirouOu fazendo-se invisível, como crêem alguns, ou deixando-os suspensos e imóveis, dando com isto a entender que o haver-se entregado depois à morte, não foi por necessidade, senão por um efeito da sua vontade. — Santo Ambrósio.

31E desceu a Cafarnaum, cidade de Galiléia, e ali os ensinava nos sábados.

32E êles se espantavam da sua doutrina, porque a sua palavra era com autoridade.

33E estava na Sinagoga um homem possesso do espírito imundo, e exclamou em voz alta,

34dizendo: Deixa-nos, que tens tu conosco, Jesus Nazareno? Vieste a perder-nos? Bem sei quem és: És o Santo Deus.[9]És o Santo DeusO texto grego tem com a maior energia aquêle Santo de Deus. E deve-se advertir com os santos Padres, que o que os demónios mostravam conhecer da pessoa e dignidade de Jesus Cristo, não passava de um conhecimento conjectural; não que o Senhor era verdadeiro Deus, mas que era o Messias prometido pelos profetas. — Calmet.

35Mas Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te, e sai dêsse homem. E o demônio depois de o ter lançado em terra no meio de todos, saiu dêle, sem lhe fazer algum mal.

36E ficaram todos cheios de pavor, e falavam uns com os outros, dizendo: Que coisa é esta, porque êle com poder, e com virtude manda aos espíritos imundos, e êstes saem?

37E por todos os lugares do país corria a fama do seu nome.

38E saindo Jesus da Sinagoga, entrou em casa de Simão. Ora a sogra de Simão padecia grandes febres: E pediram-lhe que se compadecesse dela.

39E inclinando-se em pé sôbre ela, pôs preceito à febre: E a febre a deixou. E ela levantando-se logo, se pôs a serví-los.

40E quando foi sol pôsto, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias lhos traziam. E êle, pondo as mãos sôbre cada um dêles, os sarava.

41E de muitos saíam os demônios, gritando, e dizendo: Tu és o Filho de Deus. Mas êle, repreendendo-os, não permitia que êles tal dissessem: Que sabiam que êle mesmo era o Cristo.

42E depois que foi dia, tendo saído, se retirou para um lugar deserto, e as gentes o buscavam, e foram até onde êle estava: E o detinham para que se não apartasse dêles.

43Êle lhes disse: Às outras cidades é necessário também que eu anuncie o reino de Deus: Que para isso é que fui enviado.

44E andava pregando nas Sinagogas de Galiléia.

Introdução

Autor. — S. Lucas era médico (Col 4, 14) e natural de Antioquia na Síria, segundo os testemunhos de Eusébio, Hist. Eccl. 3-4, Hieron. de Vir. ill. cap. 7. Parece que era grego de nascimento: Eusébio, Comment. in Luc. Collect. Nov. p. 149, e Sedúlio diz em confirmação desta hipótese: Hic Lucas primitus Apostolorum discipulus, postea Paulum magistrum gentium quasi gentilis et virgo virginem secutus fuerat. O próprio nome Lucas pode ser uma abreviatura de Lucanus. O que é certo é que S. Lucas se exprime muito melhor em grego do que os outros hagiógrafos do Novo Testamento, e também se sabe que a Igreja de Antioquia era primitivamente composta na quase totalidade de gregos, o que tudo confirma a opinião supra indicada.

Não sabemos quando nem como S. Lucas se converteu ao Cristianismo, Valroger, Introduction historique et critique aux livres du Nouveau Testament, t. 2, § 13, p. 74. Segundo tôdas as aparências, professou o cristianismo em Antioquia, onde travou relações com S. Barnabé e S. Paulo e depois com S. Pedro. Quando nos Atos dos Apóstolos 16, 10, se refere a S. Paulo fala do Príncipe dos Apóstolos como dum antigo conhecido, o que não acontece a respeito de Timóteo, At 16, 1. Acompanha S. Paulo de Tróade para Filipos, na Macedônia, onde ficou, enquanto que o Apóstolo se dirigia para a Grécia com os seus companheiros. Estêve bastante tempo ausente de S. Paulo, a quem depois seguiu para o Oriente, voltando à Itália, permanecendo ambos em Roma durante dois anos.

Durante êste último lapso de tempo, S. Paulo fala dêle duas vezes nas suas Epístolas (Col 6, 14; Flm 24). Na 2.ª Epístola a Timóteo (4, 11), diz que S. Lucas tinha ficado em sua companhia. Abandonou depois Roma e veio a morrer na Acaia com setenta e quatro anos. Sedúlio Argum. in Luc. 5, 11. As suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, no vigésimo ano do reinado de Constâncio, 357. S. Gregório Nazianzeno conta-o entre os mártires. Orat. 6 e 69. Cfr. Act. Sanct. die 18 oct.

Data. — Todos os autores eclesiásticos, exceto Clemente de Alexandria, atestam que êste Evangelho apareceu depois do de S. Marcos. O próprio S. Lucas confessa que não é o primeiro que tentou escrever a vida de Jesus Cristo, Lc c. 1. Sabe-se também que publicou o seu Evangelho antes de escrever os Atos dos Apóstolos, At 1, 1. Ora o livro dos Atos terminou no ano 62 ou 63, em que acaba bruscamente.

Fim. — A idéia de escrever êste Evangelho foi sugerida a S. Lucas, pelas lacunas que se encontram nos dois Evangelhos precedentes, procurando dar ao seu trabalho uma ordem mais rigorosa, e fortificar nos seus leitores a convicção das coisas anunciadas. S. Lucas, escrevendo para os gentios — Evangelium graecis scripsit, como diz S. Jerônimo — trata de pôr ante os olhos dêstes tudo quanto lhes podia interessar ou comover, como o perdão ao filho pródigo e à pecadora, a preferência dada ao publicano sôbre o fariseu e ao samaritano sôbre o próprio levita. S. Mateus apresentara Jesus aos hebreus como Messias, e S. Marcos aos romanos como Filho de Deus; S. Lucas apresenta-O aos gregos, isto é, a todos os povos civilizados, como o Salvador de todo o gênero humano.

Estilo. — É o livro mais cuidado do Novo Testamento, tendo muita analogia com o livro dos Atos. A linguagem é correta, as imagens vivas, os têrmos escolhidos, havendo mesmo o emprêgo frequente de palavras diletas do autor, tocantes, afetuosas, cheias de delicadeza; períodos que se destacam pela simplicidade e harmonia, etc. Jesus Cristo é chamado o Senhor, e preconiza-se a confiança no Salvador como meio indispensável para se obter a salvação. Há uma circunstância notável neste livro e que deriva da profissão do autor. No presente Evangelho, S. Lucas descreve as doenças curadas por Jesus Cristo com muita precisão, e com a terminologia adequada, vigente na época. Além disso o seu trabalho reveste a forma histórica. Começa por um prólogo, e por uma dedicatória a um Teófilo, cristão de Roma ou de Acaia, como era uso entre os gregos. Vai buscar o início dos fatos evangélicos, segue a sua narração até ao fim, concatenando os acontecimentos e observando a ordem cronológica. É êste o único que menciona os setenta e dois discípulos que, ao mesmo tempo que revela a precisão histórica do autor, faz supor que êle pertenceu a êsse corpo.

Notam-se-lhe alguns hebraísmos, é certo, mas os que apresenta têm certa correção, sendo sem dúvida alguma o mais correto dos Evangelistas.

Divisão. — Podem distinguir-se neste Evangelho quatro partes e um prólogo.

Prólogo — cap. 1, 1-4.

Primeira parte: Infância e juventude de Jesus Cristo, cap. 1, 5 — 4, 13.

Segunda parte: Preparação na Galiléia, 4, 14 — 9, 50.

Terceira parte: Viagem da Galiléia a Jerusalém, 9, 51 — 18, 30.

Quarta parte: Últimos mistérios, 18, 31 — 24.

Autenticidade do Evangelho de S. Lucas. — Prova-se com vários argumentos extrínsecos e intrínsecos.

I — Argumentos extrínsecos: 1.° Testemunhos formais da antiguidade: O catálogo de Muratori apresenta-nos um testemunho indiscutível do século II: "O terceiro livro do Evangelho segundo S. Lucas. Êste Lucas, médico, que S. Paulo, depois da Ascensão do Senhor, associou aos seus trabalhos, escreveu no seu próprio nome, seguindo as idéias de S. Paulo. Todavia êle não viu o Senhor em carne, e por isso conta os fatos pelo modo como pôde dêles ter conhecimento". Tertuliano censura Marcião por ter alterado o Evangelho de S. Lucas, que foi recebido por tôdas as Igrejas. Reivindica em favor dêste escrito a própria autoridade dos Apóstolos; Adv. Marcion. IV, 5. S. Irineu reproduz a mesma opinião, e ao cabo duma análise minuciosa conclui dizendo que corresponde aos antecedentes. Clemente de Alexandria invoca, em prova duma das suas asserções, o Evangelho segundo S. Lucas. S. Tron. F. 21.

2.° Testemunhos indiretos: Todos os antigos manuscritos e tôdas as antigas versões dão ao terceiro Evangelho a inscrição — segundo S. Lucas. S. Justino, do segundo século, narra a Anunciação e o Nascimento de Jesus parafraseando S. Lucas, cujas palavras também reproduz a propósito da Instituição da Eucaristia. A carta da Igreja de Viena, documento do mesmo tempo, aplica aos seus mártires as palavras que S. Lucas dirigia a Zacarias. Os próprios gnósticos apropriam-se de palavras dêste Evangelho, como Basílides a propósito da saudação de S. Gabriel à SS. Virgem; Valentim, falando de S. Irineu, emprega textos que só se encontram em S. Lucas, e finalmente Marcião, rejeitando os outros Evangelhos, admitia sòmente o de S. Lucas, fazendo-lhe mutilações e interpolações. Celso compara textos de S. Lucas com os dos outros Evangelhos, para deduzir as considerações que lhe apraz, mas mostra, como as citações precedentes, que no segundo século o Evangelho de S. Lucas era universalmente recebido como livro sagrado.

II — Argumentos intrínsecos. — Analisando o terceiro Evangelho, descobrem-se nêle indícios claros da influência de S. Paulo, que correspondem à tradição; segundo a qual S. Lucas foi discípulo do grande Apóstolo das gentes, e se propôs reproduzir nos seus escritos os ensinamentos de tão grande mestre. Primeiramente, segundo nota Corluy, há entre o terceiro Evangelho e as Epístolas de S. Paulo uma certa concordância digna de nota. Muitas expressões comuns a S. Lucas e S. Paulo não aparecem nas obras dos demais escritores do Novo Testamento. As palavras da instituição da SS. Eucaristia são referidas do mesmo modo por S. Paulo na I Epístola aos Cor 11, 24. 25, etc.

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