Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

A Transfiguração de Jesus Cristo. A vinda de Elias. Expele Jesus um demônio surdo e mudo. Prediz a sua paixão e morte. O maior entre seus discípulos deve ser o mais pequeno. Deve-se arrancar o ôlho que nos serve de escândalo.

1E seis dias depois tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João: E os levou sós a um alto monte em lugar apartado, e transfigurou-se ante êles.[1]Alto monteCfr. Mt 17, 1.

2E os seus vestidos se tornaram resplandecentes, e em extremo brancos como a neve, tanto que nenhum lavandeiro sôbre a terra os poderia fazer tão brancos.

3E lhes apareceu Elias com Moisés e estavam falando com Jesus.

4E respondendo Pedro, disse a Jesus: Mestre, bom será que nós estejamos aqui: E façamos três tendas, para ti uma, e para Moisés outra, e para Elias outra.

5Porque não sabia o que diziam: Pois estavam atônitos de mêdo:

6E formou-se uma nuvem que lhes fez sombra: E saiu uma voz da nuvem, que dizia: Êste é meu Filho diletíssimo: Ouvi-o.

7E olhando logo em roda, não viram ali mais ninguém, senão sòmente a Jesus que estava com êles:[2]Senão sòmente a JesusFez o eterno Pai retirar Moisés e Elias, que na Lei antiga haviam sido os doutores do mundo, porque na Lei da Graça só quer que escutemos a seu Filho. — Amelote.

8E ao descerem êles do monte, mandou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto: Até que o Filho do homem houvesse ressurgido dos mortos.

9E êles guardaram segredo, disputando entre si, sôbre que queria dizer aquela palavra: Até que houvesse ressurgido dos mortos.

10E lhe perguntaram, dizendo: Pois como dizem os fariseus, e os escribas, que Elias deve vir primeiro?

11Êle respondendo, lhes disse: Elias quando vier primeiro, reformará tôdas as coisas: E como está escrito acêrca do Filho do homem, deve padecer muito, e ser desprezado.

12Mas digo-vos que Elias já veio (e fizeram dêle quanto quiseram) como está escrito dêle.

13E vindo a seus discípulos, viu perto dêles uma grande multidão de gente, e que os escribas estavam disputando com êles.

14E logo todo o povo vendo a Jesus, ficou espantado, e todos se encheram de temor, e correndo a êle o saudavam.

15E êle perguntou-lhes: Que é o que estais disputando entre vós outros?

16E respondendo um dentre a gente, disse: Mestre, eu te trouxe meu filho, possuído de um espírito mudo:

17O qual onde quer que o apanha, o lança por terra, e o moço deita escuma pela bôca e range os dentes; e vai-se mirrando: E roguei a teus discípulos que o expelissem, e êles não puderam.

18Respondendo-lhes Jesus, disse: Ó geração incrédula, até quando hei de eu estar convosco? Até quando vos hei de sofrer? Trazei-mo cá.

19Trouxeram-lho então. E ainda bem êle não tinha visto a Jesus, quando logo o espírito imundo o começou a agitar com violência: Até que caiu por terra, onde se revolvia babando-se todo.

20E perguntou Jesus ao pai dêle: Quanto tempo há que lhe sucede isto? E êle disse: Desde a infância:

21E o demônio o tem lançado muitas vezes no fogo, e muitas na água, para o matar: Porém se tu podes alguma coisa, ajuda-nos, tem compaixão de nós.

22Disse-lhe pois Jesus: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê.

23E imediatamente o pai do moço gritando, dizia com lágrimas: Sim, Senhor, eu creio: Ajuda tu a minha incredulidade.

24E Jesus vendo que o povo concorria, ameaçou o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito surdo, e mudo, eu te mando, sai dêsse moço: E não tornes a entrar nêle.

25Então dando grandes gritos, e maltratando-o muito, saiu dêle, e ficou como morto, de sorte que muitos diziam: Está morto.

26Porém tomando-o Jesus pela mão, o levantou, e êle se ergueu.

27E depois que entrou em casa, perguntaram-lhe seus discípulos particularmente: Por que o não pudemos nós expelir?

28E êle lhes disse: Esta casta de demônios não se pode fazer sair, senão à fôrça de oração, e de jejum.

29E tendo partido dali, caminharam mais além de Galiléia: E não queria que ninguém o soubesse.

30Entretanto ensinava a seus discípulos, e dizia-lhes: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens, que lhe tirarão a vida, e êle ressurgirá ao terceiro dia, depois da sua morte.

31Mas êles não entendiam o discurso: E tinham mêdo de lho perguntar.

32Vieram depois a Cafarnaum. Quando êles estavam já em casa, lhes perguntou Jesus: De que vínheis vós tratando pelo caminho?

33Mas êles calaram-se: Porque no caminho haviam disputado entre si qual dêles era o maior.

34E sentando-se chamou aos doze, e lhes disse: Se algum quer ser o primeiro, será o último de todos, e o servo de todos.

35E tomando a si um menino, pô-lo no meio dêles: Depois de o abraçar, disse-lhes:

36Todo o que receber um dêstes meninos em meu nome a mim me recebe: E todo o que me receber a mim, não me recebe a mim, mas recebe àquele que me enviou.

37Respondeu-lhe João, dizendo: Mestre, vimos a um que lançava fora demônios em teu nome, que nos não segue, e lho proibimos.

38E disse Jesus: Não lho proibais: Porque não há nenhum que faça milagre em meu nome, e que possa logo dizer mal de mim:

39Porque quem não é contra vós, é por vós.

40E qualquer que vos der a beber um copo d'água em meu nome, em atenção a que sois coisa de Cristo: Digo-vos em verdade que não perderá a sua recompensa.

41E todo o que escandalizar a um dêstes pequenos que crêem em mim: Melhor lhe fôra que lhe atassem a roda do pescoço uma mó de atafona, e que o lançassem no mar.

42E se a tua mão te escandalizar, corta-a: Melhor te é entrar na vida eterna manco, do que tendo duas mãos, ir para o inferno, para o fogo que nunca jamais se apaga:

43Onde o bicho que os rói nunca morre, e onde o fogo nunca se apaga.

44E se o teu pé te escandaliza, corta-o: Melhor te é entrar na vida eterna côxo, do que tendo dois pés ser lançado no fogo do inferno, que nunca jamais se apaga:

45Onde o bicho que os rói nunca morre, e onde o fogo nunca se apaga.

46E se o teu ôlho te escandaliza, lança-o fora: Melhor te é entrar no reino de Deus sem um ôlho, do que tendo dois ser lançado no fogo do inferno:

47Onde o bicho que os rói nunca morre, e onde o fogo nunca se apaga.[3]Onde o bicho que os róiÉ uma citação de Isaías. Santo Agostinho no livro 21, da Cidade de Deus, cap. 9, observa justissimamente o temor santo, que nos deve causar esta sentença de Cristo, repetida no mesmo lugar três vezes. Non eum piguit uno loco eadem verba ter dicere. Quem non terreat illa repetitio et illius poenae comminatio tam vehemens ore divino? Neste mesmo lugar se inclina o Santo doutor, a que tanto o bicho, como o fogo do condenado, é material e corpóreo.

48Porque todos êles serão salgados no fogo, e tôda a vítima será salgada com sal.[4]E tôda a vítima será salgada etc.Por alusão às vítimas, que se sacrificavam salgadas, como consta do Lev 2, 13, afirma Jesus Cristo, que serão salgados no fogo do inferno, todos os réprobos, como umas vítimas da glória e justiça de Deus. — Sacy.

49O sal é bom: Porém se êle se fizer insípido, com que o haveis de temperar? Tende sal em vós, e guardai paz entre vós.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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