Capítulo 9
1E seis dias depois tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João: E os levou sós a um alto monte em lugar apartado, e transfigurou-se ante êles.[1]Alto monte — Cfr. Mt 17, 1.
2E os seus vestidos se tornaram resplandecentes, e em extremo brancos como a neve, tanto que nenhum lavandeiro sôbre a terra os poderia fazer tão brancos.
3E lhes apareceu Elias com Moisés e estavam falando com Jesus.
4E respondendo Pedro, disse a Jesus: Mestre, bom será que nós estejamos aqui: E façamos três tendas, para ti uma, e para Moisés outra, e para Elias outra.
5Porque não sabia o que diziam: Pois estavam atônitos de mêdo:
6E formou-se uma nuvem que lhes fez sombra: E saiu uma voz da nuvem, que dizia: Êste é meu Filho diletíssimo: Ouvi-o.
7E olhando logo em roda, não viram ali mais ninguém, senão sòmente a Jesus que estava com êles:[2]Senão sòmente a Jesus — Fez o eterno Pai retirar Moisés e Elias, que na Lei antiga haviam sido os doutores do mundo, porque na Lei da Graça só quer que escutemos a seu Filho. — Amelote.
8E ao descerem êles do monte, mandou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto: Até que o Filho do homem houvesse ressurgido dos mortos.
9E êles guardaram segredo, disputando entre si, sôbre que queria dizer aquela palavra: Até que houvesse ressurgido dos mortos.
10E lhe perguntaram, dizendo: Pois como dizem os fariseus, e os escribas, que Elias deve vir primeiro?
11Êle respondendo, lhes disse: Elias quando vier primeiro, reformará tôdas as coisas: E como está escrito acêrca do Filho do homem, deve padecer muito, e ser desprezado.
12Mas digo-vos que Elias já veio (e fizeram dêle quanto quiseram) como está escrito dêle.
13E vindo a seus discípulos, viu perto dêles uma grande multidão de gente, e que os escribas estavam disputando com êles.
14E logo todo o povo vendo a Jesus, ficou espantado, e todos se encheram de temor, e correndo a êle o saudavam.
15E êle perguntou-lhes: Que é o que estais disputando entre vós outros?
16E respondendo um dentre a gente, disse: Mestre, eu te trouxe meu filho, possuído de um espírito mudo:
17O qual onde quer que o apanha, o lança por terra, e o moço deita escuma pela bôca e range os dentes; e vai-se mirrando: E roguei a teus discípulos que o expelissem, e êles não puderam.
18Respondendo-lhes Jesus, disse: Ó geração incrédula, até quando hei de eu estar convosco? Até quando vos hei de sofrer? Trazei-mo cá.
19Trouxeram-lho então. E ainda bem êle não tinha visto a Jesus, quando logo o espírito imundo o começou a agitar com violência: Até que caiu por terra, onde se revolvia babando-se todo.
20E perguntou Jesus ao pai dêle: Quanto tempo há que lhe sucede isto? E êle disse: Desde a infância:
21E o demônio o tem lançado muitas vezes no fogo, e muitas na água, para o matar: Porém se tu podes alguma coisa, ajuda-nos, tem compaixão de nós.
22Disse-lhe pois Jesus: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê.
23E imediatamente o pai do moço gritando, dizia com lágrimas: Sim, Senhor, eu creio: Ajuda tu a minha incredulidade.
24E Jesus vendo que o povo concorria, ameaçou o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito surdo, e mudo, eu te mando, sai dêsse moço: E não tornes a entrar nêle.
25Então dando grandes gritos, e maltratando-o muito, saiu dêle, e ficou como morto, de sorte que muitos diziam: Está morto.
26Porém tomando-o Jesus pela mão, o levantou, e êle se ergueu.
27E depois que entrou em casa, perguntaram-lhe seus discípulos particularmente: Por que o não pudemos nós expelir?
28E êle lhes disse: Esta casta de demônios não se pode fazer sair, senão à fôrça de oração, e de jejum.
29E tendo partido dali, caminharam mais além de Galiléia: E não queria que ninguém o soubesse.
30Entretanto ensinava a seus discípulos, e dizia-lhes: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens, que lhe tirarão a vida, e êle ressurgirá ao terceiro dia, depois da sua morte.
31Mas êles não entendiam o discurso: E tinham mêdo de lho perguntar.
32Vieram depois a Cafarnaum. Quando êles estavam já em casa, lhes perguntou Jesus: De que vínheis vós tratando pelo caminho?
33Mas êles calaram-se: Porque no caminho haviam disputado entre si qual dêles era o maior.
34E sentando-se chamou aos doze, e lhes disse: Se algum quer ser o primeiro, será o último de todos, e o servo de todos.
35E tomando a si um menino, pô-lo no meio dêles: Depois de o abraçar, disse-lhes:
36Todo o que receber um dêstes meninos em meu nome a mim me recebe: E todo o que me receber a mim, não me recebe a mim, mas recebe àquele que me enviou.
37Respondeu-lhe João, dizendo: Mestre, vimos a um que lançava fora demônios em teu nome, que nos não segue, e lho proibimos.
38E disse Jesus: Não lho proibais: Porque não há nenhum que faça milagre em meu nome, e que possa logo dizer mal de mim:
39Porque quem não é contra vós, é por vós.
40E qualquer que vos der a beber um copo d'água em meu nome, em atenção a que sois coisa de Cristo: Digo-vos em verdade que não perderá a sua recompensa.
41E todo o que escandalizar a um dêstes pequenos que crêem em mim: Melhor lhe fôra que lhe atassem a roda do pescoço uma mó de atafona, e que o lançassem no mar.
42E se a tua mão te escandalizar, corta-a: Melhor te é entrar na vida eterna manco, do que tendo duas mãos, ir para o inferno, para o fogo que nunca jamais se apaga:
43Onde o bicho que os rói nunca morre, e onde o fogo nunca se apaga.
44E se o teu pé te escandaliza, corta-o: Melhor te é entrar na vida eterna côxo, do que tendo dois pés ser lançado no fogo do inferno, que nunca jamais se apaga:
45Onde o bicho que os rói nunca morre, e onde o fogo nunca se apaga.
46E se o teu ôlho te escandaliza, lança-o fora: Melhor te é entrar no reino de Deus sem um ôlho, do que tendo dois ser lançado no fogo do inferno:
47Onde o bicho que os rói nunca morre, e onde o fogo nunca se apaga.[3]Onde o bicho que os rói — É uma citação de Isaías. Santo Agostinho no livro 21, da Cidade de Deus, cap. 9, observa justissimamente o temor santo, que nos deve causar esta sentença de Cristo, repetida no mesmo lugar três vezes. Non eum piguit uno loco eadem verba ter dicere. Quem non terreat illa repetitio et illius poenae comminatio tam vehemens ore divino? Neste mesmo lugar se inclina o Santo doutor, a que tanto o bicho, como o fogo do condenado, é material e corpóreo.
48Porque todos êles serão salgados no fogo, e tôda a vítima será salgada com sal.[4]E tôda a vítima será salgada etc. — Por alusão às vítimas, que se sacrificavam salgadas, como consta do Lev 2, 13, afirma Jesus Cristo, que serão salgados no fogo do inferno, todos os réprobos, como umas vítimas da glória e justiça de Deus. — Sacy.
49O sal é bom: Porém se êle se fizer insípido, com que o haveis de temperar? Tende sal em vós, e guardai paz entre vós.