Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

Entrada de Jesus Cristo em Jerusalém. Amaldiçoa uma figueira. Lança fora do Templo os negociantes. Nada é impossível à fé e à oração. Perdão dos inimigos. Confunde os doutores da Lei.

1E quando êles se iam aproximando a Jerusalém, e a Betânia, perto do monte das Oliveiras, enviou dois dos seus discípulos,

2e lhes disse: Ide a essa aldeia que está defronte de vós, e logo que entrardes nela, achareis prêso um asninho, em que ainda não montou homem algum: Soltai-o e trazei-o.

3E se alguém vos perguntar: Que é o que vós fazeis? dizei-lhe que o Senhor tem necessidade dêle: E logo o deixará vir aqui.

4E saindo êles acharam o jumentinho atado de fora da porta na encruzilhada, e desprenderam-no.

5E alguns dos que estavam ali lhes diziam: Que fazeis, desprendendo o jumentinho?

6Êles responderam como Jesus lhes havia mandado, e os homens lho deixaram levar.

7E trouxeram o jumentinho a Jesus, e acobertaram-no com os seus vestidos, e Jesus montou em cima dêle.

8E muitos estenderam os seus vestidos pelo caminho: E outros cortavam ramos das árvores e juncavam com êles o caminho.

9E tanto os que iam adiante, como os que o seguiam atrás davam os vivas a Jesus, dizendo: Hosana.

10Bendito seja o que vem em nome do Senhor: bendito seja o reino que vemos chegar do nosso pai Davi: Hosana nas alturas.

11E entrou em Jerusalém no Templo: E depois de ter observado tudo quanto nêle havia, como fôsse já tarde, saiu a Betânia com os doze.

12E ao outro dia como saíssem de Betânia teve fome.

13E tendo visto ao longe uma figueira que tinha folhas, foi lá a ver se acharia nela alguma coisa: E quando chegou a ela, nada achou senão folhas: Porque não era tempo de figos.

14E falando lhe disse: Nunca jamais coma alguém fruto de ti para sempre. E ouviram-no os seus discípulos.[1]Nunca jamaisSe não era tempo de figos, por que amaldiçoou Jesus a figueira? É porque na Palestina havia figueiras que davam fruto fora de tempo, em fevereiro, março e abril. E Jesus, querendo simbolizar nesta figueira a Sinagoga, amaldiçoou a figueira, que só achou com folhas, para significar que também amaldiçoava a Sinagoga, por não achar nela senão a folhagem dos seus ritos e tradições. — Calmet.

15Chegaram pois a Jerusalém. E havendo entrado no Templo, começou a lançar fora os que vendiam e compravam no Templo, e derribou as mesas dos banqueiros, e as cadeiras dos que vendiam pombas.[2]As mesas dos banqueirosQue davam a câmbio o dinheiro miúdo, que lhes vinham pedir de tôda a parte, os que necessitavam dêle, ou para as contribuições e ofertas do Templo, ou para pagarem os impostos ao César. — Amelote e Calmet.

16E não consentia que qualquer transportasse móvel algum pelo Templo:

17E êle os ensinava, dizendo-lhes: Porventura não está escrito: Que a minha Casa será chamada Casa de Oração entre tôdas as gentes? E vós tendes feito dela um covil de ladrões.

18O que ouvindo os príncipes dos sacerdotes e os escribas, andavam excogitando de que modo o haviam de perder, porque como todo o povo admirava a sua doutrina, tinham mêdo dêle.

19Quando era já pela tarde, saiu da cidade.

20E no outro dia pela manhã, ao passarem pela figueira, viram que ela estava sêca até às raízes.

21Então lembrado Pedro, disse para Jesus: Olha, Mestre, como se secou a figueira que tu amaldiçoaste.

22E respondendo, Jesus lhe disse: Tende a fé de Deus.

23Em verdade vos afirmo, que todo o que disser a êste monte: Tira-te, e lança-te no mar, e isto sem hesitar no seu coração, mas tendo fé de que tudo o que disser sucederá, êle o verá cumprir assim.

24Por isso vos digo, tôdas as coisas que vós pedirdes orando, crêde que as haveis de haver, e que assim vos sucederão.

25Mas quando vos puserdes em oração, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai-lha, para que também vosso Pai, que está nos Céus, vos perdoe vossos pecados.

26Porque se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos Céus, vos não há de perdoar vossos pecados.

27E voltaram outra vez a Jerusalém. E andando Jesus pelo Templo, se chegaram a êle os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e os anciãos:

28E lhe disseram: Com que autoridade fazes tu estas coisas? e quem te deu êste poder de fazer essas coisas?

29E respondendo, Jesus lhes disse: Eu também vos farei uma pergunta, e respondei-me a ela: E eu então vos direi com que autoridade faço estas coisas.

30O batismo de João era do Céu, ou dos homens? Respondei-me.

31Mas êles faziam lá consigo êste juízo, discorrendo: Se nós dissermos que era do Céu, dir-nos-á êle: Por que razão logo não crestes nêle?

32Se dissermos que dos homens, temos mêdo do povo: Porque todos tinham a João em conta de um profeta.

33E respondendo, disseram a Jesus: Não sabemos. E respondendo Jesus, lhes disse: Pois nem eu tampouco vos direi com que autoridade vos faço estas coisas.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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