Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

Vão as santas mulheres ao sepulcro. Sabem por aviso de um anjo ter Jesus ressurgido. Aparece o Senhor a Madalena. Depois a dois discípulos; depois a todos os Apóstolos juntos. Envia-os a pregar por todo o mundo. Prediz os milagres que hão de fazer os que crerem. Sobe ao Céu.

1E como tivesse passado o dia de sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamar a Jesus.[1]Para irem embalsamar a JesusEstas santas mulheres foram então ao sepulcro de Jesus Cristo com os unguentos ou aromas, que haviam comprado no dia da preparação, ou na sexta-feira, como diz Lc 23, 56 e 24, 1. Porque os historiadores ordinàriamente, por abreviar, costumam ajuntar duas coisas, como executadas ao mesmo tempo, ainda que uma o haja sido muito antes. Também poderiam comprar os unguentos, depois de pôsto o sol, na mesma tarde do sábado, cuja festividade se concluía ao pôr do sol, e logo entrava o primeiro dia de semana seguinte.

2E no primeiro dia da semana, partindo muito cedo, chegaram ao sepulcro, quando já o sol era nascido.[2]Partindo muito cedoE saindo para irem ao sepulcro, quando era ainda escuro, Jo 20, 1, não chegaram a êle senão tendo já nascido o sol, como aqui se diz.

3E diziam elas entre si: Quem nos há de revolver a pedra da bôca do sepulcro?

4Mas olhando viram revolvida a pedra, e era ela muito grande.

5E entrando no sepulcro viram assentado da parte direita um mancebo, vestido de roupas brancas, do que elas ficaram muito pasmadas.

6Êle lhes disse: Não tenhais pavor, vós buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado. Êle ressurgiu, já não está aqui; eis o lugar onde o depositaram.[3]Êle ressurgiuA ressurreição de Cristo é, sem dúvida alguma, o ponto capital do Novo Testamento. Já S. Paulo disse "se Cristo não ressuscitou vã é a nossa fé". A ressurreição de Jesus foi o cumprimento das muitas profecias que desde muito tempo tinham feito entrever ao mundo êste grande acontecimento. Is cc. 52 e 53, apresenta-nos as humilhações de Cristo, e no cap. 11, 10, prenuncia a ressurreição e a glória do túmulo de Jesus. Davi antecipou-se a Isaías Sl 16, predizendo a ressurreição do Santo por excelência, o Messias prometido. Jesus predisse que estaria no seio da terra três dias e três noites, ao cabo das quais ressuscitaria Mt 12, 30-40; Mt 16, 14; Lc 11, 29; Jo 2, 18-22, e principalmente Mc 14, 28; 16, 7, em que conta que o Divino Mestre acrescentara: Mas depois da minha ressurreição preceder-vos-ei na Galiléia. Êste texto tão simples e tão claro lança por terra a afirmação caluniosa de Renan, quando diz: "Jesus, ainda que falando incessantemente da ressurreição, nunca dissera claramente que ressuscitaria em sua carne". Les Apôtres, 1866, p. 1. Que mais claro de que estas palavras citadas, onde se pode encontrar afirmação mais categórica? Por certo que não. Por isso os Apóstolos tiveram por missão principal dar ao mundo inteiro testemunho dêste assombroso fato, tomando-o por base das suas pregações, e sofrendo o martírio por confessarem Jesus ressuscitado. A realidade histórica da ressurreição de Cristo prova-se com fatos incontestáveis. Os príncipes dos sacerdotes e os fariseus tomaram precauções sérias e solenes, a fim de que se evitasse qualquer tentativa de roubo do Divino Crucificado. Dirigiram-se ao sepulcro, postaram guardas e selaram a pedra com os selos do Estado. Esta circunstância é primordial no estudo do fato que vamos analisando. Depois destas precauções, de todos êstes cuidados e de tôdas estas medidas, as santas mulheres não encontraram o cadáver de Jesus, apenas o lugar onde o depositaram. A hipótese de roubo do sacrossanto cadáver é inadmissível. O sepulcro fechado por uma grande pedra, guardado pelos soldados romanos, então o roubo só podia ser perpetrado por uma das três formas — ou o subôrno, ou a fôrça, ou a astúcia. Quanto à hipótese de subôrno cai pela base, porquanto os fariseus tinham escolhido gente sua, e não era um nem dois que ali estavam, eram muitos; como se pode admitir que todos se deixavam subornar, não obstante as recomendações especiais do sinédrio? E se tal tivesse acontecido, qual teria sido o procedimento das autoridades judaicas e romanas, tão interessadas em impedir tôda a mistificação? Não tem mais valor a segunda hipótese, que afirma que os discípulos podiam usar da violência para com os soldados? Mas como? Quem ignora que os Apóstolos eram nimiamente tímidos, derivando essa timidez do seu caráter e da sua humilde posição? Quem ignora que os Apóstolos fugiram durante a paixão, abandonaram na hora mais crítica o Mestre? Pedro negou Jesus com juramento à voz duma mulher serva, e junto à cruz só esteve S. João. Como pretender que êstes homens fôssem atacar ousadamente os representantes armados do Pretório, no exercício das suas funções? E para quê? Descoberto o embuste, que provocaria um grande ruído, ficariam completamente desacreditados; escusavam de pregar que ninguém os ouviria. Pelo que respeita à astúcia, era preciso admitir que todos os soldados dormiam a sono sôlto, para que não sentissem o ingresso dos discípulos, a quebra dos selos, a deslocação da pesada pedra, etc., o que demandaria de muito tempo, de muita coragem e de muito descanso da parte dos guardas, circunstâncias impossíveis de se realizarem conjuntamente em tal ocasião. Era necessário supor tal intrepidez, tal sangue frio, que os antecedentes não deixam admitir. Depois se tal tivesse acontecido, cairiam aos primeiros interrogatórios, trair-se-iam às primeiras investigações. E como haviam de persuadir o mundo da ressurreição de Jesus e os seus próprios colegas do Apostolado? Como destruir a incredulidade do Apóstolo S. Tomás, que não quis acreditar sem ver, sem meter o dedo nas chagas? Como podiam arraigar a sua convicção, firmar a sua fé tão robusta, que os fez com que se decidissem a afrontar os mais horríveis tormentos, até à morte, preferindo-a a apresentar a menor dúvida sôbre a realidade da ressurreição de Jesus Cristo? Mas ainda mais seria necessário que todos os cúmplices se entendessem mutuamente, e concordassem em que, autores ou fautores da mesma intriga, teriam todos que testemunhá-la com igual e firme energia, deixando-se loucamente entregar à morte pelo prazer de assegurar o sucesso de uma mistificação, o que é absurdo admitir. E então tudo seria uma igual mistificação: a doutrina era falsa, os pregoeiros impostores, os milagres embustes, e o mundo que se converteu um louco. Teria de se admitir que a mentira destruísse uma velha sociedade, e que a humanidade prestasse culto à fraude. Dir-se-ia então que foi a falsidade que fez correr o sangue dos mártires, que ocupou o espírito dos apologetas, que foi vingado pelos doutores e que encheu o deserto de penitentes; e que todos êstes apóstolos, mártires, filósofos, pagãos convertidos, os mais insignes talentos não descobriram o lôgro. Haverá alguém de boa e má fé, e de são critério que possa aceitar estas consequências que derivariam naturalmente dos princípios expostos pelos adversários da ressurreição? Batidos em tôda a linha lançaram mão doutro sofisma: socorreram-se da alucinação. Maria Madalena foi vítima das suas alucinações, os Apóstolos da sua credulidade. Ouçamos o próprio Renan, e transcrevamos as palavras do autor da Vie de Jesus, p. 433: "Heure solennelle où la passion d'une hallucinée donne au monde un Dieu ressuscité... Le cri: Il est ressuscité! courut parmi les disciples comme un éclair. L'amour lui fit trouver partout une creance facile". Foram, com efeito, três mulheres que se dirigiram ao sepulcro, mas também é certo que nenhuma delas pensava na ressurreição de Jesus, porque levavam os perfumes que tencionavam derramar no túmulo de Jesus. Quando não encontraram o cadáver perguntaram com espanto onde estava, e dirigindo-se Madalena a Pedro e a João, não lhes anunciou a ressurreição mas disse-lhes que levaram o corpo de Jesus. Depois João certificou-se da ausência do cadáver do Redentor, mas igualmente formulou a primeira hipótese aventada por Madalena, e certamente atribuíram ao sinédrio o sacrílego roubo. E tanto que Madalena começou a chorar, considerando como mais uma tortura infligida aos discípulos de Jesus, e mais uma ofensa dirigida ao Mestre. Depois pergunta: dizei-me onde o puseram? Até aqui Madalena via tudo, acreditava em tudo, anunciava tudo, menos que Jesus ressuscitou. Quando o viu tomou-o por um jardineiro: quando o reconheceu, acreditou com dificuldade, quis primeiro convencer de que não era vítima duma ilusão; e quando depois anuncia a ressurreição, exprime-se a mêdo. Julgue-se depois desta atitude se foi paixão duma mulher alucinada que deu ao mundo um Deus ressuscitado. E a credulidade dos Apóstolos? Começaram por não acreditar nas santas mulheres; no caminho de Emaús encontram o Mestre, não o reconhecem, mas confessam que Jesus está morto há três dias, que as mulheres foram ao sepulcro e não o encontraram, mas nem uma palavra só acêrca da ressurreição. Onde está a nímia credulidade? Aparece-lhes várias vezes Jesus, e sempre êles se perturbam, crêem ver um fantasma, julgam-se iludir, é preciso que Jesus coma com êles, fale com êles para assim se convencerem da ressurreição. O caso de S. Tomás é frisante. Êsse declara terminantemente que não acredita, quer ver primeiro, e só depois acreditará. Onde está a demasiada credulidade? Ao contrário, parece que se obstinavam na incredulidade, e só depois de repetidas aparições se convencem. Seria crível que tantas testemunhas, diferentes na idade, no sexo, no caráter, tivessem sido vítimas duma alucinação? Se tal hipótese fôsse admitida, seria necessário renunciar a tôda a certeza experimental, fechar para sempre os livros da história, duvidar de tudo, até do sol que nos alumia. Afirmar em semelhante êrro, uma constância e uma harmonia tão admiráveis que se comunicou depois a indivíduos tão diferentes na educação, na posição social, em tantos lugares e em tempos tão diversos, seria querer fugir de confessar um milagre pela afirmação dum outro milagre. E não se diga que as testemunhas da ressurreição quiseram iludir o mundo, se fôsse possível o mundo ser iludido! pois deram uma prova indiscutível da sua sinceridade, morreram pela fé, e é caso de se dizer com Pascal: Creio nas testemunhas que se deixam estrangular.

7Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que êle vai adiante de vós esperar-vos em Galiléia: Lá o vereis como êle vos disse.

8E elas saindo logo fugiram do sepulcro, porque as tinha assaltado o sobressalto, e o pavor, e a ninguém disseram coisa alguma, porque estavam possuídas de mêdo.

9E Jesus tendo ressurgido de manhã no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual êle tinha expulsado sete demônios.[4]Da qual êle tinha expulsadoSanto Ambrósio e outros intérpretes o explicam e entendem literalmente, isto é: que efetivamente havia sido possuída de sete demônios, que o Senhor expulsou do seu corpo. Alguns antigos o explicam em sentido espiritual, entendendo por êstes demônios todos os vícios, e principalmente os sete capitais, que a dominavam. Porém esta explicação não convém com o que diz Lc 8, 2. Pode-se dizer que esta possessão, que os demônios tinham do seu corpo, era figura da tirania com que dominavam na sua alma. O Senhor distinguiu particularmente a Madalena. Parece que se empenhava em fazê-lo com os que alumiados da sua graça o buscavam e se convertiam.

10Foi ela noticiá-lo aos que haviam andado com êle, os quais estavam aflitos, e chorosos.

11Mas êles, ouvindo dizer que Jesus estava vivo e que fôra visto por ela, não o creram.

12E depois disto se mostrou em outra forma a dois dêles que iam caminhando para uma aldeia:

13E êstes o foram dizer aos outros, que também lhe não deram crédito.

14Finalmente apareceu Jesus aos onze, a tempo que êles estavam à mesa, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade, e dureza de coração, pois não haviam dado crédito aos que o viram ressuscitado.

15E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a tôda a criatura.

16O que crer e fôr batizado, será salvo: o que porém não crer será condenado.

17E êstes sinais seguirão aos que crerem: Expulsarão os demônios em meu Nome, falarão novas línguas.

18Manusearão as serpentes: E se beberem alguma potagem mortífera, não lhes fará mal: Porão as mãos sôbre os enfermos, e sararão.

19E na realidade o Senhor Jesus, depois de assim lhes haver falado, foi assunto ao Céu, onde está assentado à mão direita de Deus.[5]Depois de assim lhes haver faladoNão só esta vez, mas outras muitas, no espaço de quarenta dias, como declara S. Lucas nos Atos dos Apóstolos. — Amelote.

20E êles tendo partido, pregaram em tôda a parte, cooperando com êles o Senhor, e confirmando a sua pregação com os milagres que a acompanhavam.

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Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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