Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 8

Sustenta Jesus quatro mil homens com sete pães. O fermento dos fariseus. Cura um cego. Pergunta aos Apóstolos que conceito formam dêle. Responde Pedro confessando ser êle o Messias. Mas como pouco depois o quer dissuadir de padecer e de morrer, o Senhor o repreende chamando-lhe Satanás. É necessário levar a cruz e ir em seguimento de Jesus Cristo. Nada devemos estimar tanto como a nossa alma.

1Naqueles dias, como o povo houvesse concorrido outra vez em grande número, e não tivessem que comer, tendo chamado Jesus aos seus discípulos, lhes disse:

2Tenho compaixão dêste povo, porque, olhai, há já três dias que andam aturadamente comigo, e não têm que comer:

3E se os despedir em jejum para suas casas, virão a desfalecer no caminho: Porque alguns deles vieram de longe.

4E seus discípulos lhe responderam: De donde poderá alguém fartá-los de pão aqui nesta solidão?

5E Jesus lhes perguntou: Quantos pães tendes vós? Responderam êles: Sete.

6E mandou à gente que se recostasse sôbre a terra. E tomando os sete pães, dando graças, os partiu, e deu a seus discípulos, para que os distribuíssem, e êles os distribuíram pelo povo.

7Tinham também uns poucos de peixinhos, e êle os abençoou, e mandou que lhos pusessem:

8Comeram pois, e ficaram fartos, e dos pedaços que tinham sobejado, levantaram sete cêstos.

9Eram porém os que comeram perto de quatro mil, e Jesus os despediu.

10E entrando logo na barca em companhia de seus discípulos, passou ao território de Dalmanuta.[1]DalmanutaFica, segundo uns, a oeste do lago Tiberíades, segundo outros nas vizinhanças de Magdala.

11E saíram os fariseus, e se puseram a disputar com êle, pedindo-lhe que lhes fizesse ver algum prodígio do Céu, tudo para o tentarem.

12Porém Jesus arrancando do íntimo do coração um suspiro, disse: Por que pede esta geração um prodígio? Em verdade vos digo, que a esta geração se não concederá prodígio.

13E deixando-os, tornou outra vez a embarcar, e passou à outra banda.

14Ora, os discípulos esqueceram-se de tomar pão, e não tinham consigo na barca senão um único.

15E pôs-lhes Jesus um preceito, em que dizia: Vêde bem, e acautelai-vos do fermento dos fariseus, e do fermento de Herodes.[2]Do fermento de HerodesO que S. Mateus, 16, 6, diz fermento dos fariseus, e dos saduceus, diz S. Marcos fermento dos fariseus, e dos Herodes, porque na côrte de Herodes dominava a seita dos saduceus. — Amelote.

16E discorriam entre si, dizendo: É porque não temos pão.[3]É porque não temos pãoParece que é o sentido: Diz porque não temos pão. Outros entendem que o quia é para mais certa expressão, e então entrava a maior diligência e apêrto dos discípulos, se além de não terem pão, não podiam tomá-lo, nem dos fariseus, nem dos herodianos.

17O que conhecendo Jesus, disse-lhes: Que estais vós considerando que não tendes pão? É possível que ainda não no conheçais nem compreendais? ainda tendes cego o vosso coração?

18Tendo olhos não vêdes? e tendo ouvidos não ouvis? e não vos lembrais,

19quando parti cinco pães para cinco mil, quantos cêstos levantastes cheios de pedaços? Responderam êles: Doze.

20E quando eu parti sete pães para quatro mil, quantos cêstos levantastes de pedaços? E êles lhe responderam: Sete.

21E Jesus lhes dizia: Pois como não entendeis ainda?

22E vieram a Betsaida, e lhe trouxeram um cego, e lhe rogavam que o tocasse.

23E tomando ao cego pela mão, o tirou para fora da aldeia, e cuspindo-lhe nos olhos, tendo-lhe imposto as suas mãos, lhe perguntou se via alguma coisa.

24E levantando êle os olhos, disse: Vejo os homens que andam semeando as árvores.[4]As árvoresÊste homem principiou a ver confusamente, via a figura dos corpos humanos como sombras, sem poder distinguir delineamentos dos membros, como quando se olha de noite, ou de longe para os objetos, que não se pode distinguir senão árvores ou homens. Êste cego conheceu pelo movimento, que eram homens os que principiava a ver. O particípio ambulantes se deve referir aos homens, e não às árvores, como se vê claramente no texto grego.

25Depois tornou-lhe Jesus a pôr as mãos sôbre os olhos, e começou êle a ver, e ficou de todo curado, de sorte que via distintamente todos os objetos.

26E Jesus o despediu para sua casa, dizendo-lhe: Vai para tua casa: E se entrares na aldeia não o digas a pessoa alguma.

27E saiu Jesus com os seus discípulos pelas aldeias de Cesaréia de Filipe: E perguntava pelo caminho a seus discípulos, dizendo-lhes: Quem dizem os homens que sou eu?

28Êles lhe responderam, dizendo: Uns dizem que João Batista, outros que Elias, e outros como um dos profetas.

29Então lhes disse Jesus: E vós outros quem dizeis que sou eu? Respondendo Pedro, lhe disse: Tu és o Cristo.

30E Jesus lhes proibiu com ameaças, que a ninguém dissessem isto dêle.

31E começou a declarar-lhes que importava que o Filho do homem padecesse muito, e que fôsse rejeitado pelos anciãos, e pelos príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fôsse entregue à morte: E que ressuscitasse depois de três dias.

32E tudo isto lhes declarava êle abertamente. Sôbre o que Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo.

33Mas Jesus, virando-se, e olhando para seus discípulos, ameaçou a Pedro, dizendo: Tira-te de diante de mim, satanás, que não tens gôsto das coisas de Deus, mas sim das dos homens.

34E chamando assim o povo com seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, negue-se a si mesmo: E tome a sua cruz, e siga-me.

35Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á: Mas o que perder a sua vida por amor de mim, e do Evangelho, salvá-la-á:

36Pois de que aproveitará ao homem, se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?

37Ou que dará o homem em trôco pela sua alma?

38Porque se nesta geração adúltera, e pecadora, se envergonhar alguém de mim, e das minhas palavras: Também o Filho do homem se envergonhará dêle, quando vier na glória de seu Pai acompanhado dos santos anjos.

39Dizia-lhes mais: Em verdade vos affirmo que dos que aqui se acham, alguns há que não hão de gostar a morte, enquanto não virem chegar o reino de Deus no seu poder.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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