Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

A parábola dos lavradores a quem se arrendou uma vinha. Tentam os fariseus a Jesus sôbre a obrigação de pagar o tributo a César, e tentam-no os saduceus sôbre a Ressurreição. Qual é o primeiro mandamento. Davi chama seu Senhor ao Messias. Cautela contra os doutores da Lei. Louva Jesus a esmola duma pobre viúva.

1Começou depois Jesus a falar-lhes por parábolas: Um homem plantou uma vinha e cercou-a com uma sebe, e cavando fez um lagar, e edificou uma tôrre, e arrendou-a a uns lavradores; depois ausentou-se para longe.[1]Um homemJá em Mt 21, 33, explicamos o sentido desta parábola. — Pereira.

2E chegado o tempo enviou aos lavradores um servo, que fôsse receber dos mesmos lavradores o que lhe deviam do fruto da sua vinha.

3Êles apanhando-o às mãos o feriram e o remeteram com as mãos vazias.

4E enviou-lhes de novo outro servo: E também a êste o feriram na cabeça, e o carregaram de afrontas.

5E de novo enviou outro, e o mataram: E outros muitos: Dos quais feriram a uns, e mataram a outros.

6Mas como tivesse ainda um filho, a quem êle muito amava: Também lho enviou por último, dizendo: Terão respeito a meu filho.

7Porém os lavradores disseram uns para os outros: Êste é o herdeiro: Vinde, mate-mo-lo: E será nossa a herança.

8E pegando nêle mataram-no: E lançaram-no fora da vinha.

9Que fará pois o Senhor da vinha? Virá, e acabará de todo com êstes lavradores: E dará a sua vinha a outros.

10Vós nunca lestes êste lugar da Escritura: A pedra, que fôra rejeitada pelos que edificavam; essa veio a ser a principal da esquina:

11Pelo Senhor é que foi feito isto, e é coisa maravilhosa nos nossos olhos?

12E buscavam meios para o prenderem: Mas temeram o povo: Porque entenderam que contra êles havia dito esta parábola. E deixando-o se retiraram.

13E lhe enviaram alguns dos fariseus, e dos herodianos, para que o apanhassem no que falasse.

14Êles vindo lhe dizem: Mestre, sabemos que és homem verdadeiro, e que não atendes a respeitos humanos: Porque não olhas os homens pela aparência, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade: É-nos permitido dar o tributo a César, ou não lho devemos dar?[2]CésarOu o imperador, que era Tibério.

15Jesus, conhecendo a sua hipocrisia, respondeu-lhes: Por que me tentais? Dai-me cá um dinheiro para o ver.

16E êles lho trouxeram. Então lhes perguntou Jesus: De quem é esta imagem e inscrição? Responderam-lhe êles: De César.

17E, respondendo, Jesus lhes disse: Pois dai a César o que é de César: E a Deus o que é de Deus. E desta resposta ficaram admirados.

18E vieram a êle os saduceus, que negam a Ressurreição: E lhe perguntavam, dizendo:

19Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se morrer o irmão de algum, e deixar mulher, e não tiver filhos, que tome seu irmão a mulher dêle, e que dê sucessão a seu irmão.

20Eram pois sete irmãos: E o maior tomou mulher, e morreu sem deixar sucessão.

21E o segundo a tomou, e morreu: E nem êste deixou filhos. E da mesma sorte o terceiro.

22E assim mesmo a tomaram os sete: E não deixaram filhos. E sendo já a última de todos, morreu também a mulher.

23Ao tempo pois da ressurreição, quando tornarem a viver, de qual dêstes será a mulher? Porque todos sete a tiveram por mulher.

24E, respondendo, Jesus lhes disse: Não vêdes que por isso errais, porque não compreendeis as Escrituras, nem o poder de Deus?

25Porque quando ressuscitarem dentre os mortos, não hão de os homens ter mulheres, nem as mulheres homens, mas todos serão como os anjos nos Céus.

26E dos mortos que têm de ressuscitar, não haveis lido no livro de Moisés, como Deus lhe falou sôbre a sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó?

27Êle não é Deus de mortos, senão de vivos, logo estais vós num grande êrro.

28Então se chegou um dos escribas, que os tinha ouvido disputar, e vendo que Jesus lhes havia respondido bem, lhe perguntou qual era o primeiro de todos os mandamentos.

29E Jesus lhe respondeu: Que de todos o primeiro mandamento era êste: Ouve, Israel, o Senhor teu Deus é só o que é Deus:

30E amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de tôda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de tôdas as tuas fôrças. Êste é o primeiro mandamento.

31E o segundo semelhante ao primeiro é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Nenhum outro mandamento há que seja maior do que êstes.

32Disse-lhe então o escriba: Mestre, na verdade disseste bem, que Deus é um só e que não há outro fora dêle.

33E que o amá-lo cada um de todo o seu coração, e de todo o seu entendimento, e de tôda a sua alma, e de tôdas as suas fôrças: E o amar ao próximo como a si mesmo, é uma coisa que excede todos os holocaustos, e sacrifícios.

34E vendo Jesus que o escriba tinha respondido sàbiamente, lhe disse: Não estás longe do reino de Deus. E desde então ninguém mais se atreveu a fazer-lhe perguntas.[3]Não estás longePorque conhecendo consistirem na observância dos dois preceitos, do amor de Deus e do próximo, os deveres mais essenciais do homem, só lhe faltava, para se salvar, crer em Jesus Cristo. — Sacy e Calmet.

35E falando Jesus dizia ensinando no Templo: Como dizem os escribas que o Cristo é Filho de Davi?

36Porque o mesmo Davi por bôca do Espírito Santo diz: Disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado de teus pés.

37Pois se o mesmo Davi lhe chama Senhor, como é êle logo seu Filho? E uma grande multidão de povo o ouvia com gôsto.

38E êle lhes dizia segundo o seu modo de ensinar: Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com roupas largas, e de que os cumprimentem nas praças,

39e de ocupar nas sinagogas as primeiras cadeiras, e nos banquetes os primeiros lugares.

40Que devoram as casas das viúvas debaixo do pretexto de longas orações: Êstes serão julgados com maior rigor.

41E estando Jesus assentado defronte donde era o gazofilácio, observava êle de que modo deitava o povo ali o dinheiro, e muitos que eram ricos deitavam com mão larga.[4]O gazofilácioAssim chamavam o mealheiro ou arca em que se deitavam as ofertas no Templo. Eram treze e chamavam-lhes trombetas, por causa da sua forma.

42E tendo chegado uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, que importavam um real.[5]Um realÀ letra, um quadrante. Era pois o quadrante a quarta parte do asse, e assim significava o valor de uma moeda de cobre, que por pesar três onças, se chamava teruntius, que vem a ser um real.

43E convocando a seus discípulos, lhes disse: Na verdade vos digo, que mais deitou esta pobre viúva, que todos os outros que lançaram no gazofilácio.

44Porque todos os outros deitaram do que tinham na sua abundância: Porém esta deitou da sua mesma indigência tudo o que tinha, e tudo o que lhe restava para seu sustento.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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