Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 15

Jesus apresentado a Pilatos. Barrabás preferido a Jesus. É condenado a morrer crucificado. Ultrajes que lhe fazem os soldados. Caminha para o Calvário, onde é crucificado entre dois ladrões. Repartem os soldados entre si os seus vestidos. Blasfemam muitos dêle. Trevas em tôda a terra. Dá Jesus um grande brado, dizendo: Eli. Chegam-lhe à bôca uma esponja de vinagre. Dá outro grande brado e expira. José de Arimatéia o sepulta com decência.

1E logo pela manhã, tendo conselho os príncipes dos sacerdotes com os anciãos, e os escribas, e com todo o conselho, fazendo amarrar a Jesus, o levaram e entregaram a Pilatos.[1]Entregaram a PilatosDa casa de Caifás conduziram Jesus para o Pretório, onde estava Pilatos.

2E Pilatos lhe perguntou: Tu és o rei dos judeus? E êle, respondendo, lhe disse: Tu o dizes.

3E o príncipe dos sacerdotes o acusava de muitas coisas.

4E Pilatos lhe perguntou outra vez, dizendo: Tu não respondes coisa alguma? Vê de quantos crimes te acusam.

5Mas Jesus não respondeu mais palavra, de sorte que Pilatos estava admirado.[2]Não respondeu mais palavraTocante às acusações que lhe faziam os príncipes dos sacerdotes: porque sôbre outras matérias é certo que êle falou muitas mais vezes. — Sacy.

6Ora, Pilatos costumava no dia da festa soltar-lhes um dos presos, qualquer que êles pedissem.

7E havia um chamado Barrabás, que estava prêso com outros sediciosos, porque em certo motim havia feito uma morte.

8E como concorresse o povo, começou a pedir-lhe a graça que sempre lhes fazia.

9E Pilatos lhes respondeu, e disse: Quereis que vos solte ao rei dos judeus?

10Porque êle sabia que os príncipes dos sacerdotes lho haviam entregado por inveja.

11Mas os pontífices concitaram o povo, para que lhes soltasse antes a Barrabás.

12E Pilatos, falando outra vez, lhes disse: Pois que quereis que eu faça ao rei dos judeus?

13E êles tornaram a gritar: Crucifica-o.

14E Pilatos lhes replicava: Pois que mal fez êle? E êles cada vez gritavam mais: Crucifica-o.

15Então Pilatos, querendo satisfazer ao povo, soltou-lhes Barrabás, e depois de fazer açoutar a Jesus, o entregou para que o crucificassem.

16E os soldados o levaram ao páteo do Pretório, e ali convocam tôda a coorte.

17E o vestem de púrpura, e, tecendo uma coroa de espinhos, lha põem na cabeça.

18E começaram a saudá-lo: Deus te salve, rei dos judeus.

19E lhe davam na cabeça com uma cana: E lhe cuspiam no rosto, e pondo-se de joelhos, o adoravam.

20E depois de o terem assim escarnecido o despiram da púrpura, e lhe vestiram os seus vestidos, e então o tiraram para fora, para o crucificarem.

21E acertando de passar por ali certo homem de Cirene, por nome Simão, que vinha duma herdade, pai de Alexandre, e de Rufo, o obrigaram a levar-lhe a Cruz.[3]Pai de Alexandre e de RufoEsta advertência do Evangelista dá lugar a crer que Alexandre e Rufo eram dois homens conhecidos então em Roma, onde S. Marcos escrevia, e talvez cristãos, que podiam atestar a verdade do caso. — Sacy. A Rufo refere-se S. Paulo, Ep. Rom 16, 13.

22E o levam a um lugar chamado Gólgota: Que quer dizer lugar do Calvário.

23E davam-lhe a beber vinho misturado com mirra: E não o tomou.[4]Misturado com mirraO que S. Mateus, 27, 34, disse que era vinho misturado com fel, diz aqui S. Marcos que era vinho com mistura de mirra. O modo de conciliar os dois evangelistas, é dizer que S. Mateus no seu original não pusera senão o gênero, usando da palavra "Rosch" que significa geralmente "amargor" e que S. Marcos exprimira a espécie, declarando que era de mirra, o que o intérprete de S. Mateus explicou por fel. Dava-se porém esta bebida aos padecentes para os confortar, e para lhes conciliar sono. — Calmet.

24E depois de o crucificarem, repartiram os seus vestidos, lançando sortes sôbre êles, para ver a parte que cada um levaria.

25Era pois a hora de terça: Tempo em que êles o crucificaram:[5]A hora de terçaSegundo o modo de contar do tempo, que já explicamos no cap. 20 de S. Mateus. Êste é o modo ordinário de conciliar S. Marcos com S. João. De sorte que o fim da hora, que S. Marcos chama "terceira" era quase o princípio da que S. João chama "quase sexta", e um e outro denota o espaço de tempo, que corresponde ao nosso meio-dia. Vejam-se Calmet neste lugar, e Tillemont, Tom. 1, pag. 470.

26E a causa da sua condenação estava escrita neste título: O REI DOS JUDEUS.

27Crucificaram também com êle a dois ladrões: Um à sua direita, e outro à esquerda.

28E se cumpriu a Escritura, que diz: E foi contado com os maus.

29E os que iam passando blasfemavam dêle, movendo as suas cabeças, e dizendo: Ó lá, tu que destróis o templo de Deus e que o reedificas em três dias,

30livra-te a ti mesmo, descendo da cruz.

31Desta maneira escarnecendo-o também os príncipes dos sacerdotes com os escribas, diziam uns para os outros: Êle salvou aos outros, a si mesmo não se pode salvar.

32Êsse Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que o vejamos, e creiamos. Também os que haviam sido crucificados com êle, o afrontavam de palavras.

33E chegada a hora de sexta, se cobriu tôda a terra de trevas até à hora de noa.

34E à hora de noa deu Jesus um grande brado, dizendo: Eli, Eli, lamma sabacthani? que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

35E ouvindo isto alguns dos circunstantes, diziam: Vêde que êle chama por Elias.

36E correndo um, e ensopando uma esponja em vinagre, e atando-a numa cana, dava-lhe a beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias vem tirá-lo.

37Então Jesus dando um grande brado, expirou.

38E o véu do templo se rasgou em duas partes, de alto a baixo.

39E o centurião, que estava bem defronte, vendo que Jesus expirara, dando êste brado, disse: Verdadeiramente êste homem era Filho de Deus.

40E achavam-se também ali algumas mulheres vendo de longe: Entre as quais estava Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago Menor, e de José, e Salomé:[6]SaloméMulher de Zebedeu, mãe de Tiago Maior, e de João Evangelista. Os que com o Martirológio romano a 22 de outubro lhe chamam "Maria Salomé" são hoje impugnados geralmente pelos modernos críticos.

41E quando Jesus estava em Galiléia, elas o seguiam, e lhe assistiam com o necessário, e assim muitas outras, que juntamente com êle haviam subido a Jerusalém.

42E quando era já tarde (pois era a Parasceve, que vem a ser a vigília do sábado),

43veio José de Arimatéia, ilustre senador, que também êle esperava o reino de Deus, e foi com tôda a resolução à casa de Pilatos, e pediu-lhe o corpo de Jesus.

44E Pilatos se admirava de que Jesus morresse tão depressa. E chamando ao centurião, lhe perguntou se era já morto.

45E depois que o soube do centurião, deu o corpo a José.

46E José tendo comprado um lençol, e tirando-o da Cruz, o amortalhou no lençol, e depositou-o num sepulcro, que estava aberto em rocha, e arrimou uma pedra à bôca do sepulcro.

47Entretanto Maria Madalena, e Maria, mãe de José, estavam observando onde êle se depositava.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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