Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 13

Destruição do Templo. Guerras e perseguições. Falsos Cristos e falsos profetas. Sinais no sol e na lua. Vinda de Jesus Cristo em grande glória. Incerto o dia da sua vinda.

1E ao sair Jesus do Templo, disse-lhe um de seus discípulos: Olha, Mestre, que pedras, e que fábricas.[1]Que pedrasJosé, nas suas Antiguidades, nos informa de que estas pedras eram alvíssimas, e duríssimas, como alabastros, e que tinham de comprido vinte e cinco côvados, de largura doze, de grossura oito. — Sacy e Calmet.

2E respondendo Jesus, lhe disse: Vês todos êstes grandes edifícios? Não ficará pedra sôbre pedra, que não seja derribada.[2]Não ficará pedraAssim aconteceu, como é sabido pela história profana.

3E estando assentado no Monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-lhe em particular Pedro, e Tiago, e João, e André:

4Dize-nos, quando hão de suceder estas coisas? e que sinal haverá de quando tôdas elas se começarem a cumprir?

5Então em resposta a isto começou Jesus a dizer-lhes: Guardai-vos, não vos engane alguém:

6Porque muitos virão em meu nome dizendo: Sou eu: E enganarão a muitos.

7Quando vós porém ouvirdes falar de guerras, e de rumores de guerras, não temais; porque importa que estas coisas sucedam: Mas êste não será ainda o fim.

8Porque se levantará nação contra nação e reino contra reino, e haverá terremotos por diversas partes, e fomes. Estas cousas não serão mais do que o princípio das dores.

9Tende pois sentido convosco. Porque vos hão de entregar nos juízos, e vos hão de açoutar nas sinagogas, e fazer comparecer por meu respeito diante dos governadores, e dos reis, a fim de que perante êles deis testemunho de mim.

10Mas primeiro importa que o Evangelho seja pregado a tôdas as nações.

11Quando pois vos levarem para vos entregarem, não premediteis no que haveis de dizer: Mas dizei o que vos fôr inspirado naquela hora: Porque não sois vós os que falais, mas sim o Espírito Santo.

12Então um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai ao filho: E os filhos se levantarão contra os pais, e lhes darão a morte.

13E vós sereis aborrecidos de todos por amor do meu nome. Mas o que perseverar até o fim, êsse será salvo.

14Quando porém vós virdes estar a abominação da desolação, onde não deve estar, o que lê, entenda: Então os que estiverem em Judéia, fujam para os montes:[3]A abominação da desolaçãoO texto grego acrescenta, que foi predita pelo profeta Daniel, como lemos em S. Mateus, onde se pode ver a explicação de todo êste capítulo.

15E o que estiver sôbre o telhado, não desça a casa nem entre para levar dela coisa alguma.

16E o que se achar no campo, não volte atrás a buscar o seu vestido.

17Mas ai das que naquele tempo estiverem pejadas, e criarem.

18Rogai pois que não sucedam estas coisas no inverno.

19Porque naqueles dias haverá tribulações tais, quais não houve desde o princípio das criaturas, que Deus fez até agora, nem haverá.[4]Porque naqueles dias haverá tribulações taisÀ letra, porque naqueles dias serão tribulações tais, isto é, aqueles dias serão a mesma tribulação. É um hebraísmo enfático. Porque a aflição daquele tempo será tal, qual desde o primeiro momento em que Deus criou tôdas as coisas, até o presente, não houve, nem haverá outra semelhante.

20De sorte que se o Senhor não abreviasse aqueles dias, nenhuma pessoa se salvaria: Mas êle os abreviou em atenção aos escolhidos, de que fez escolha.

21E se então vos disser alguém: Reparai, aqui está o Cristo, ou, ei-lo acolá está, não lhe deis crédito.

22Porque se levantarão falsos Cristos, e falsos profetas, que farão prodígios, e portentos para enganarem, se possível fôra, até os mesmos escolhidos.

23Estai vós pois de sobreaviso; olhai que eu vos preveni de tudo.

24Mas naqueles dias, depois daquela tribulação, o sol se escurecerá, e a lua não dará o seu resplendor:

25E cairão as estrêlas do Céu, e se comoverão as virtudes que estão nos Céus.

26E então verão o Filho do homem que virá sôbre as nuvens, com grande poder e majestade.

27E então enviará os seus Anjos, e ajuntará os seus escolhidos de todos os quatro ventos, desde a extremidade da terra até à extremidade do Céu.

28Aprendei pois o que vos digo, de uma comparação tirada da figueira. Quando os seus ramos estão já tenros, e nascidas as fôlhas, conheceis que está perto o estio:

29Assim também quando vós virdes que acontecem estas coisas, sabei que está perto e já à porta.

30Na verdade vos digo, que não passará esta geração sem que tudo isto seja cumprido.

31Passará o Céu e a terra, mas não passarão as minhas palavras.

32A respeito porém dêste dia, ou desta hora, ninguém sabe quando há de ser, nem os Anjos no Céu, nem o Filho, mas só o Pai:

33Estai de sobreaviso, vigiai, e orai: Porque não sabeis quando chegará êsse tempo.

34Assim como um homem que, ausentando-se para longe, deixou a sua casa, e designou a cada um de seus servos a obra que devia fazer, e mandou ao porteiro que estivesse de vigia.

35Vigiai pois, (visto que não sabeis quando virá o Senhor da casa: se de tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã),

36para que não suceda que quando vier de repente, vos ache dormindo.

37O que eu porém vos digo a vós, isto digo a todos: Vigiai.[5]VigiaiO preceito da vigilância cristã obriga geralmente a todos os fiéis. Cristo nestas palavras não se cingia a uma só condição de homem, ou de estados, fala com todos, e assim todos devem ter presente e meditar muito esta verdade, que nos diz Santo Agostinho, que o estado em que a cada um achar o último momento da sua vida, que ignora quando será, êsse terá no último dia do mundo, e êste decidirá a sorte que lhe há de caber por tôda a eternidade. É êste e aquele terrível momento, de que depende a eternidade.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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