Capítulo 13
1E ao sair Jesus do Templo, disse-lhe um de seus discípulos: Olha, Mestre, que pedras, e que fábricas.[1]Que pedras — José, nas suas Antiguidades, nos informa de que estas pedras eram alvíssimas, e duríssimas, como alabastros, e que tinham de comprido vinte e cinco côvados, de largura doze, de grossura oito. — Sacy e Calmet.
2E respondendo Jesus, lhe disse: Vês todos êstes grandes edifícios? Não ficará pedra sôbre pedra, que não seja derribada.[2]Não ficará pedra — Assim aconteceu, como é sabido pela história profana.
3E estando assentado no Monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-lhe em particular Pedro, e Tiago, e João, e André:
4Dize-nos, quando hão de suceder estas coisas? e que sinal haverá de quando tôdas elas se começarem a cumprir?
5Então em resposta a isto começou Jesus a dizer-lhes: Guardai-vos, não vos engane alguém:
6Porque muitos virão em meu nome dizendo: Sou eu: E enganarão a muitos.
7Quando vós porém ouvirdes falar de guerras, e de rumores de guerras, não temais; porque importa que estas coisas sucedam: Mas êste não será ainda o fim.
8Porque se levantará nação contra nação e reino contra reino, e haverá terremotos por diversas partes, e fomes. Estas cousas não serão mais do que o princípio das dores.
9Tende pois sentido convosco. Porque vos hão de entregar nos juízos, e vos hão de açoutar nas sinagogas, e fazer comparecer por meu respeito diante dos governadores, e dos reis, a fim de que perante êles deis testemunho de mim.
10Mas primeiro importa que o Evangelho seja pregado a tôdas as nações.
11Quando pois vos levarem para vos entregarem, não premediteis no que haveis de dizer: Mas dizei o que vos fôr inspirado naquela hora: Porque não sois vós os que falais, mas sim o Espírito Santo.
12Então um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai ao filho: E os filhos se levantarão contra os pais, e lhes darão a morte.
13E vós sereis aborrecidos de todos por amor do meu nome. Mas o que perseverar até o fim, êsse será salvo.
14Quando porém vós virdes estar a abominação da desolação, onde não deve estar, o que lê, entenda: Então os que estiverem em Judéia, fujam para os montes:[3]A abominação da desolação — O texto grego acrescenta, que foi predita pelo profeta Daniel, como lemos em S. Mateus, onde se pode ver a explicação de todo êste capítulo.
15E o que estiver sôbre o telhado, não desça a casa nem entre para levar dela coisa alguma.
16E o que se achar no campo, não volte atrás a buscar o seu vestido.
17Mas ai das que naquele tempo estiverem pejadas, e criarem.
18Rogai pois que não sucedam estas coisas no inverno.
19Porque naqueles dias haverá tribulações tais, quais não houve desde o princípio das criaturas, que Deus fez até agora, nem haverá.[4]Porque naqueles dias haverá tribulações tais — À letra, porque naqueles dias serão tribulações tais, isto é, aqueles dias serão a mesma tribulação. É um hebraísmo enfático. Porque a aflição daquele tempo será tal, qual desde o primeiro momento em que Deus criou tôdas as coisas, até o presente, não houve, nem haverá outra semelhante.
20De sorte que se o Senhor não abreviasse aqueles dias, nenhuma pessoa se salvaria: Mas êle os abreviou em atenção aos escolhidos, de que fez escolha.
21E se então vos disser alguém: Reparai, aqui está o Cristo, ou, ei-lo acolá está, não lhe deis crédito.
22Porque se levantarão falsos Cristos, e falsos profetas, que farão prodígios, e portentos para enganarem, se possível fôra, até os mesmos escolhidos.
23Estai vós pois de sobreaviso; olhai que eu vos preveni de tudo.
24Mas naqueles dias, depois daquela tribulação, o sol se escurecerá, e a lua não dará o seu resplendor:
25E cairão as estrêlas do Céu, e se comoverão as virtudes que estão nos Céus.
26E então verão o Filho do homem que virá sôbre as nuvens, com grande poder e majestade.
27E então enviará os seus Anjos, e ajuntará os seus escolhidos de todos os quatro ventos, desde a extremidade da terra até à extremidade do Céu.
28Aprendei pois o que vos digo, de uma comparação tirada da figueira. Quando os seus ramos estão já tenros, e nascidas as fôlhas, conheceis que está perto o estio:
29Assim também quando vós virdes que acontecem estas coisas, sabei que está perto e já à porta.
30Na verdade vos digo, que não passará esta geração sem que tudo isto seja cumprido.
31Passará o Céu e a terra, mas não passarão as minhas palavras.
32A respeito porém dêste dia, ou desta hora, ninguém sabe quando há de ser, nem os Anjos no Céu, nem o Filho, mas só o Pai:
33Estai de sobreaviso, vigiai, e orai: Porque não sabeis quando chegará êsse tempo.
34Assim como um homem que, ausentando-se para longe, deixou a sua casa, e designou a cada um de seus servos a obra que devia fazer, e mandou ao porteiro que estivesse de vigia.
35Vigiai pois, (visto que não sabeis quando virá o Senhor da casa: se de tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã),
36para que não suceda que quando vier de repente, vos ache dormindo.
37O que eu porém vos digo a vós, isto digo a todos: Vigiai.[5]Vigiai — O preceito da vigilância cristã obriga geralmente a todos os fiéis. Cristo nestas palavras não se cingia a uma só condição de homem, ou de estados, fala com todos, e assim todos devem ter presente e meditar muito esta verdade, que nos diz Santo Agostinho, que o estado em que a cada um achar o último momento da sua vida, que ignora quando será, êsse terá no último dia do mundo, e êste decidirá a sorte que lhe há de caber por tôda a eternidade. É êste e aquele terrível momento, de que depende a eternidade.