Capítulo 5
1E passaram à outra banda do mar ao território dos gerasenos.[1]Gerasenos — De Gerasa, que ficava situada, segundo a opinião comum, no local onde hoje estão as ruínas informes de Khersa, na margem esquerda do Ouadi do Semak, que desagua a este do lago de Genesaré. Estas ruínas de Khersas estão rodeadas dum muro.
2E ao sair Jesus da barca, veio logo a êles dos sepulcros um homem possesso do espírito imundo.
3O qual tinha nos sepulcros o seu domicílio, e nem com cadeias o podia já alguém suster preso:
4Porque tendo sido atado muitas vezes com grilhões, e com cadeias, tinha quebrado as cadeias, e despedaçado os grilhões e ninguém o podia domar:
5E sempre de dia e de noite andava pelos sepulcros, e pelos montes, gritando, e ferindo-se com pedras.
6Vendo pois a Jesus de longe, veio correndo e adorou-o:
7E dando um grande grito, disse: Que tens tu comigo, Jesus, Filho de Deus Altíssimo? eu te esconjuro por Deus, que me não atormentes.
8Porque Jesus lhe dizia: Espírito imundo, sai dêsse homem.
9E perguntou-lhe: Que nome é o teu? Ao que êle respondeu: Legião é o meu nome, porque somos muitos.[2]Legião — A palavra legião toma-se aqui indefinidamente no sentido dum grande número. Vê-se aqui a intenção de S. Marcos empregando um têrmo conhecido pelos romanos. A legião romana, no tempo de Augusto, compunha-se de 6.800 homens.
10E pedia-lhe instantemente que o não lançasse fora do país.
11Andava pois ali pastando ao redor do monte uma grande manada de porcos.
12E os imundos espíritos suplicavam a Jesus, dizendo: Manda-nos para os porcos, para nos metermos neles.
13Deu-lhes Jesus logo esta permissão. E saindo os espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada que era de alguns dois mil, foi precipitar-se com grande violência no mar, e ali todos se afogaram.
14E os que os andavam apascentando, fugiram e foram dar a notícia à cidade, e pelos campos. Então saíram muitos a ver o que tinha sucedido:
15E vão ter com Jesus: E vêem ao que tinha sido vexado do demônio, sentado, vestido, e em seu perfeito juízo: E tiveram mêdo.
16E os que se tinham achado presentes lhes contaram todo o fato, como havia acontecido ao endemoninhado, e o dos porcos.
17E começaram a rogar a Jesus que se retirasse dos confins dêles.
18E ao tempo que êle ia para entrar na barca, então começou o que fôra vexado do demônio a pedir-lhe que o deixasse ir com êle.
19E Jesus o não admitiu, mas disse-lhe: Vai para a tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, e a misericórdia que usou contigo.
20E foi-se, e começou a publicar em Decápolis quão grandes coisas lhe havia feito Jesus: E todos se admiravam.[3]Em Decápolis — Território ao oriente do mar de Tiberíades, chamado assim das dez cidades principais, que nele havia. Cfr. Mt 4, 25.
21E tendo passado Jesus segunda vez à banda dalém, numa barca, concorreu a êle muita gente do povo, que se achava junto na ribeira.
22E chegou um dos príncipes da sinagoga, por nome Jairo: E vendo a Jesus, lançou-se a seus pés.
23E pediu-lhe com instância, dizendo: Eu tenho uma filha que está nas últimas; vem impor-lhe a mão para a curares, e para lhe dares vida.
24E foi Jesus com êle, e era tanto o povo que o seguia, que o apertavam.
25Então uma mulher, que havia doze anos que padecia um fluxo de sangue:
26E que tinha sofrido muito às mãos de vários médicos: E que havia gastado tudo quanto tinha, nem por isso aproveitara coisa alguma, antes cada vez se achava pior:
27Tendo ouvido falar de Jesus, veio por detrás entre a chusma, e tocou-lhe o vestido:
28Porque dizia: Se eu tocar ainda que seja só o seu vestido, ficarei sã.
29E no mesmo instante se lhe secou a fonte do seu sangue: Ela sentiu no seu corpo estar curada do mal.[4]Do mal — Daquele açoite. As enfermidades são verdadeiramente um açoite com que Deus misericordiosamente nos desperta do letargo em que vivemos. A que padecia esta mulher era daquelas que lhe impediam tratar com os demais. Lev 15, 19, e por isto com muito tento, e como às escondidas, se chegou por detrás a tocar a roupa do Senhor, dando-lhe lugar para isto a grande confusão e tropel da gente. As outras circunstâncias que refere S. Marcos servem para realçar a verdade e grandeza do milagre.
30Mas Jesus, conhecendo logo em si mesmo a virtude que saíra dêle, voltando para a gente, disse: Quem tocou meus vestidos?
31E responderam-lhe seus discípulos: Tu vês que a chusma te vai comprimindo de tôdas as partes, e então perguntas: Quem me tocou?
32E Jesus olhava em roda para ver a que isto fizera.
33A mulher, porém, que sabia o que se tinha passado nela, cheia de mêdo, e tôda tremendo, veio lançar-se a seus pés, e declarou-lhe tôda a verdade.
34E Jesus lhe disse: Filha, a tua fé te salvou: Vai-te em paz, e fica curada do teu mal.
35Ainda êle não tinha acabado de falar quando chegam alguns da casa do príncipe da sinagoga, dizendo: É morta tua filha: Por que queres tu dar ao Mestre o trabalho de ir mais longe?
36Mas Jesus tendo ouvido o que êles falavam, disse ao príncipe da sinagoga: Não tenhas mêdo: Crê sòmente.
37E não permitiu que o acompanhasse nenhum senão Pedro e Tiago, e João, irmão de Tiago.
38Depois que chegaram à casa do príncipe da sinagoga, viu logo Jesus o reboliço e eis que estavam chorando e fazendo grandes prantos.
39E tendo entrado, lhes disse: Para que é esta turbação e este chôro que fazeis? A menina não está morta, mas dorme.
40E zombavam dele. Mas Jesus, tendo feito sair todos para fora, tomou o pai e a mãe da menina, e os que consigo trazia, e entrou onde a menina estava deitada.
41E tomando a mão da menina, lhe disse: Talitha, cumi, que quer dizer: Menina (eu te mando) levanta-te:[5]Talitha, cumi — São duas palavras aramaicas, a primeira das quais significa donzela, e a segunda é um imperativo na segunda pessoa do singular, forma feminina.
42E no mesmo ponto se levantou a menina, e começou a andar: Porque era já de doze anos: E êles ficaram assombrados com grande espanto.
43Mas Jesus lhes mandou, com preceito expresso, que ninguém o soubesse: E disse que dessem de comer à menina.[6]Que dessem de comer à menina — Para verem que ela não só estava viva, mas também curada, pois podia comer.