Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 5

Livra Jesus um endemoninhado. Permite a uma legião de demônios que se metam numa manada de porcos. Não quer que êste homem o siga. Cura uma mulher que padecia um fluxo de sangue. Ressuscita uma menina.

1E passaram à outra banda do mar ao território dos gerasenos.[1]GerasenosDe Gerasa, que ficava situada, segundo a opinião comum, no local onde hoje estão as ruínas informes de Khersa, na margem esquerda do Ouadi do Semak, que desagua a este do lago de Genesaré. Estas ruínas de Khersas estão rodeadas dum muro.

2E ao sair Jesus da barca, veio logo a êles dos sepulcros um homem possesso do espírito imundo.

3O qual tinha nos sepulcros o seu domicílio, e nem com cadeias o podia já alguém suster preso:

4Porque tendo sido atado muitas vezes com grilhões, e com cadeias, tinha quebrado as cadeias, e despedaçado os grilhões e ninguém o podia domar:

5E sempre de dia e de noite andava pelos sepulcros, e pelos montes, gritando, e ferindo-se com pedras.

6Vendo pois a Jesus de longe, veio correndo e adorou-o:

7E dando um grande grito, disse: Que tens tu comigo, Jesus, Filho de Deus Altíssimo? eu te esconjuro por Deus, que me não atormentes.

8Porque Jesus lhe dizia: Espírito imundo, sai dêsse homem.

9E perguntou-lhe: Que nome é o teu? Ao que êle respondeu: Legião é o meu nome, porque somos muitos.[2]LegiãoA palavra legião toma-se aqui indefinidamente no sentido dum grande número. Vê-se aqui a intenção de S. Marcos empregando um têrmo conhecido pelos romanos. A legião romana, no tempo de Augusto, compunha-se de 6.800 homens.

10E pedia-lhe instantemente que o não lançasse fora do país.

11Andava pois ali pastando ao redor do monte uma grande manada de porcos.

12E os imundos espíritos suplicavam a Jesus, dizendo: Manda-nos para os porcos, para nos metermos neles.

13Deu-lhes Jesus logo esta permissão. E saindo os espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada que era de alguns dois mil, foi precipitar-se com grande violência no mar, e ali todos se afogaram.

14E os que os andavam apascentando, fugiram e foram dar a notícia à cidade, e pelos campos. Então saíram muitos a ver o que tinha sucedido:

15E vão ter com Jesus: E vêem ao que tinha sido vexado do demônio, sentado, vestido, e em seu perfeito juízo: E tiveram mêdo.

16E os que se tinham achado presentes lhes contaram todo o fato, como havia acontecido ao endemoninhado, e o dos porcos.

17E começaram a rogar a Jesus que se retirasse dos confins dêles.

18E ao tempo que êle ia para entrar na barca, então começou o que fôra vexado do demônio a pedir-lhe que o deixasse ir com êle.

19E Jesus o não admitiu, mas disse-lhe: Vai para a tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, e a misericórdia que usou contigo.

20E foi-se, e começou a publicar em Decápolis quão grandes coisas lhe havia feito Jesus: E todos se admiravam.[3]Em DecápolisTerritório ao oriente do mar de Tiberíades, chamado assim das dez cidades principais, que nele havia. Cfr. Mt 4, 25.

21E tendo passado Jesus segunda vez à banda dalém, numa barca, concorreu a êle muita gente do povo, que se achava junto na ribeira.

22E chegou um dos príncipes da sinagoga, por nome Jairo: E vendo a Jesus, lançou-se a seus pés.

23E pediu-lhe com instância, dizendo: Eu tenho uma filha que está nas últimas; vem impor-lhe a mão para a curares, e para lhe dares vida.

24E foi Jesus com êle, e era tanto o povo que o seguia, que o apertavam.

25Então uma mulher, que havia doze anos que padecia um fluxo de sangue:

26E que tinha sofrido muito às mãos de vários médicos: E que havia gastado tudo quanto tinha, nem por isso aproveitara coisa alguma, antes cada vez se achava pior:

27Tendo ouvido falar de Jesus, veio por detrás entre a chusma, e tocou-lhe o vestido:

28Porque dizia: Se eu tocar ainda que seja só o seu vestido, ficarei sã.

29E no mesmo instante se lhe secou a fonte do seu sangue: Ela sentiu no seu corpo estar curada do mal.[4]Do malDaquele açoite. As enfermidades são verdadeiramente um açoite com que Deus misericordiosamente nos desperta do letargo em que vivemos. A que padecia esta mulher era daquelas que lhe impediam tratar com os demais. Lev 15, 19, e por isto com muito tento, e como às escondidas, se chegou por detrás a tocar a roupa do Senhor, dando-lhe lugar para isto a grande confusão e tropel da gente. As outras circunstâncias que refere S. Marcos servem para realçar a verdade e grandeza do milagre.

30Mas Jesus, conhecendo logo em si mesmo a virtude que saíra dêle, voltando para a gente, disse: Quem tocou meus vestidos?

31E responderam-lhe seus discípulos: Tu vês que a chusma te vai comprimindo de tôdas as partes, e então perguntas: Quem me tocou?

32E Jesus olhava em roda para ver a que isto fizera.

33A mulher, porém, que sabia o que se tinha passado nela, cheia de mêdo, e tôda tremendo, veio lançar-se a seus pés, e declarou-lhe tôda a verdade.

34E Jesus lhe disse: Filha, a tua fé te salvou: Vai-te em paz, e fica curada do teu mal.

35Ainda êle não tinha acabado de falar quando chegam alguns da casa do príncipe da sinagoga, dizendo: É morta tua filha: Por que queres tu dar ao Mestre o trabalho de ir mais longe?

36Mas Jesus tendo ouvido o que êles falavam, disse ao príncipe da sinagoga: Não tenhas mêdo: Crê sòmente.

37E não permitiu que o acompanhasse nenhum senão Pedro e Tiago, e João, irmão de Tiago.

38Depois que chegaram à casa do príncipe da sinagoga, viu logo Jesus o reboliço e eis que estavam chorando e fazendo grandes prantos.

39E tendo entrado, lhes disse: Para que é esta turbação e este chôro que fazeis? A menina não está morta, mas dorme.

40E zombavam dele. Mas Jesus, tendo feito sair todos para fora, tomou o pai e a mãe da menina, e os que consigo trazia, e entrou onde a menina estava deitada.

41E tomando a mão da menina, lhe disse: Talitha, cumi, que quer dizer: Menina (eu te mando) levanta-te:[5]Talitha, cumiSão duas palavras aramaicas, a primeira das quais significa donzela, e a segunda é um imperativo na segunda pessoa do singular, forma feminina.

42E no mesmo ponto se levantou a menina, e começou a andar: Porque era já de doze anos: E êles ficaram assombrados com grande espanto.

43Mas Jesus lhes mandou, com preceito expresso, que ninguém o soubesse: E disse que dessem de comer à menina.[6]Que dessem de comer à meninaPara verem que ela não só estava viva, mas também curada, pois podia comer.

Introdução

Autor. — Muitos críticos distinguem entre S. Marcos, o Evangelista, e João Marcos parente de Barnabé. Comumente admite-se a identidade. São uma e a mesma pessoa. Segundo os Atos dos Apóstolos, João, ou João Marcos, estava ligado com S. Pedro, e foi em casa de sua mãe que o Príncipe dos Apóstolos, ao sair da prisão de Herodes, encontrou os cristãos reunidos, At 12, 12, o que faz supor que S. Marcos nem pobre, nem rude. S. Pedro tomou-o para seu intérprete ou secretário, e por isso a sua composição chegou a ser conhecida pelo nome de Evangelho de S. Pedro, como refere Tertuliano, Cont. Marc., 4, 5. Se é chamado Marcos e não João, é porque estando no império romano, pregando entre os gentios, devia tomar um nome fàcilmente compreendido. Foi ao Egito, alguns anos depois de S. Pedro ter estado em Roma, fundou a Igreja de Alexandria. S. Pedro estimava-o muito, dando-lhe nas cartas o tratamento de filho. Certamente que era judeu e contemporâneo dos Apóstolos, o que se prova pelos muitos hebraísmos de que está cheio o seu Evangelho, bem como de citações siro-caldáicas, 2, 3-17; 5, 41; 7, 11, 34; 10, 46. É de tal sorte minucioso, descendo às particularidades do tempo, 1, 22, lugar, 2, 13; 2, 7; 4, 1; 5, 20; 6, 38; 7, 31; 11, 21, número 5, 13; 6, 7-40, etc., de pessoas, 1, 29, 36; 3, 22; 12, 13, disposição, etc. Era muito afeiçoado a S. Pedro, cuidando com muito zêlo de narrar todos os fatos importantes da vida do Príncipe dos Apóstolos.

Data. — O Evangelho de S. Marcos foi composto pouco tempo depois do de S. Mateus, sendo o Príncipe dos Apóstolos quem apresentou o seu Evangelho, para que por todos fôsse recebido como objeto de fé e livro inspirado.

Objeto. — Marcos escreveu para os gentios, e muito particularmente para os romanos. É esta a razão que explica a ausência de citações do Velho Testamento. Por êste motivo não chamou a Jesus Cristo o Messias, apresenta-o como rei; não lhe chama filho de Davi, mas Filho de Deus, Filho do homem, e omite muitas narrações que se encontram em S. Mateus.

I ARGUMENTOS EXTRÍNSECOS:

a) Testemunhos formais da antiguidade. O mais antigo testemunho da autenticidade de S. Marcos é o de Papias. "O Padre João, escreve êle, contava também que Marcos, intérprete de Pedro, escreveu exatamente, ainda que sem ordem, as palavras e ações de Cristo". Não tinha, é certo, ouvido nem seguido o Senhor, mas tinha acompanhado a S. Pedro, o qual ensinava conforme o exigiam as circunstâncias e não como quem expõe por ordem os oráculos do Senhor. Eusébio, Hist. Eccl. 3, 39. Em vista dêste texto, que é tão autorizado como concludente, pretendem os racionalistas afirmar que o escrito de Marcos a que Papias se refere, não é o Evangelho que nós lemos com o seu nome, mas um resumo das pregações de S. Pedro, que devia ser uma compilação desordenada, e que nada se parece com o Evangelho que nos apresenta narrações bem coordenadas. A isto responde-se que o Evangelho de S. Marcos revela a mais completa ausência da ordem cronológica como Papias refere. De resto a passagem de Papias está em completo acôrdo com Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes, e quantos na antiguidade cristã se ocuparam dêste Evangelho, consignando todos que S. Marcos compendiara os ensinamentos de Pedro.

O catálogo escriturário, de Muratori, que data do segundo século, principia por estas palavras, que se referem ao segundo Evangelista: Quibus tamen interfuit et ita possit, o que significa sem dúvida que o autor do segundo Evangelho assistiu às pregações de Pedro e fez delas por escrito uma fiel narração. Tertuliano escreve: — Afirma-se que o Evangelho composto por Marcos é o de Pedro, de quem Marcos era o intérprete. Adv. Marcion, 4, 5.

b) Testemunhos indiretos. — Todos os manuscritos e tôdas as antigas versões, a Peschito, ítala, gótica e outras, contêm êste Evangelho precedido desta inscrição: — segundo Marcos. É verdade que êste Evangelho é menos citado pelos Padres do segundo e terceiro século, o que se explica por não conter quase nada que não seja narrado equivalentemente por S. Mateus ou S. Lucas; em todo o caso S. Justino refere-se a êste Evangelho em termos muito explícitos.

II ARGUMENTOS INTRÍNSECOS:

Entre os Evangelistas, S. Marcos é o que conta os fatos com mais minuciosidade. É o Evangelho mais breve, mas nem por isso deixa de ser muito completo, e mesmo o mais completo pelo que respeita às notícias sôbre os feitos e ações de Pedro, como, por exemplo, a tríplice negação; e, coisa notável, narram-se minuciosamente os fatos que não honram o apóstolo, e deixam-se na sombra os que redundam em sua glória, por exemplo o magnífico elogio dado à sua fé pelo Salvador, quando Pedro se acabava de confessar por filho de Deus diante dos membros do colégio apostólico. Isto só se explica por determinação expressa de S. Pedro, cuja humildade assim tão belamente se patenteia.

É manifesto que o Evangelho de S. Marcos é dirigido, não aos habitantes da Palestina, mas em especial aos romanos. As palavras hebraicas que êle emprega são cuidadosamente traduzidas, para a boa inteligência dos leitores, que as não conheciam. Tudo pois concorre para corroborar a tradição primitiva, que atribui a redação do segundo Evangelho canónico a S. Marcos, discípulo de S. Pedro, e o considera composto em Roma, vivendo o Príncipe dos Apóstolos. É também o resumo das pregações de S. Pedro.

Portanto os argumentos dos racionalistas sôbre João Marcos, o proto Marcos e o doutor Marcos, que certos exegetas modernos têm pretendido sustentar à face do texto, caem pela base, vingando-se a tradição primitiva, única competente em tal assunto.

Estilo. — S. Marcos é claro, preciso, mas árido, e a sua linguagem é pouco acurada. Usa frequentes vezes os diminutivos. Repete às mesmas idéias e os mesmos têrmos, seja para reforçar o sentido, seja por negligência.

Ocasião. — S. Clemente de Alexandria, citado por S. Jerônimo, explica assim as razões que moveram S. Marcos a escrever o seu Evangelho. Quando S. Pedro pregou o Evangelho em Roma, os ouvintes dirigiram-se a Marcos, rogando-lhe instantemente que escrevesse a doutrina ensinada por S. Pedro, visto que êle o acompanhara tanto tempo e retivera as próprias palavras do Príncipe dos Apóstolos. Marcos aquiesceu, redigiu o Evangelho e entregou-o aos que o solicitavam.

Escopo. — Conquanto se não note no Evangelho de S. Marcos nenhuma tendência especial, seja apologética, seja polêmica, e pareça que o intento de S. Marcos foi resumir as pregações de S. Pedro, seguindo pari passu o Evangelho de S. Mateus, que resumiu, pelo que S. Agostinho lhe chama pedissequus Mathaei, e Bossuet le plus divin des abréviateurs, é certo que o seu escopo parece ter sido mostrar que Jesus é o Senhor de tôdas as coisas, Jesum esse rerum omnium Dominum. Cfr. D. Eduardo Nunes, Theologiae Fundamentalis compendium.

A idéia mãe do Evangelho de S. Marcos resume-se nesta proposição. A ação externa de Jesus prova que o Cristianismo é uma revelação divina. Esta ação está descrita pelo Evangelista tal qual ela se exerceu primeiramente na Galiléia, 9, depois na Judéia e em Jerusalém, 10, 16. P. Tiefenthal. O. S. Bento, Munster, 1893. Das heilige Evangelium nach Markus.

Autenticidade. — A autenticidade do Evangelho de S. Marcos está perfeitamente vingada pelos Antigos Padres e pelos melhores exegetas modernos. Em que pese aos racionalistas, depois do estudo de Lardner, Les Evangiles et la critique rationaliste, Demarest, De auctoritate Evangeliorum, Tiefenthal, ob. cit. e outros, inútil será contestar a autenticidade de S. Marcos, que se prova por argumentos intrínsecos e extrínsecos.

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