Capítulo 5
1Um varão pois por nome Ananias, com sua mulher Safira, vendeu um campo:
2E com fraude usurpou certa porção do preço do campo, consentindo-o sua mulher: E levando uma parte a pôs aos pés dos Apóstolos.[1]E COM FRAUDE — Ananias era o legítimo senhor do seu dinheiro, e ninguém o obrigava a separar-se dêle, não tendo culpa alguma se o reservasse todo para si; mas o que o tornou criminoso foi o fato de reter por avareza parte da quantia, querendo simultaneamente alardear vaidosamente de sua generosidade tentando mentir a Deus e enganar os homens. Aqui é que está o mal, e por isso é que êle foi castigado.
3E disse Pedro: Ananias, por que tentou satanás o teu coração para que tu mentisses ao Espírito Santo, e reservasses parte do preço do campo?[2]PARA QUE TU MENTISSES AO ESPÍRITO SANTO — A mentira esteve em querer enganar os Apóstolos, fazendo-lhes querer que êle trazia todo o preço. O mentir ao Espírito Santo era, porque os que Ananias quis enganar, estavam cheios do Espírito Santo.
4Porventura não te era livre ficar com êle, e ainda depois de vendido, não era teu o preço? Como puseste no teu coração fazer tal? Sabe que não mentiste aos homens, mas a Deus.[3]PORVENTURA NÃO TE ERA LIVRE FICAR COM ÊLE? — Se era livre ficar com a terra, ou reservar todo o preço da venda, como estranha tanto S. Pedro a Ananias, o não ter trazido senão uma parte? É certo que era livre a todos os fieis venderem, ou não venderem as suas fazendas; trazerem, ou não, aos pés dos Apóstolos, os preços delas, quando as vendiam. Mas depois de se terem uma vez resolvido com voto, ao menos implícito, a vender as suas fazendas e dedicar a Deus por mãos dos Apóstolos todo o produto das vendas, era já um sacrilégio, e um roubo do sagrado, o reservar parte do preço. É porém comum sentir dos Santos Padres, que a venda, que Ananias fizera, ia acompanhada deste voto. Assim S. Basílio, no Sermão 1, da Instituição dos Monges; S. João Crisóstomo a êste lugar dos Atos dos Apóstolos; S. Jerônimo na carta a Demetrias; S. Agostinho no Sermão 148 da Edição Mauriana; S. Gregório na Carta 54 do Livro 1. Desta sorte foi o crime de Ananias um crime complicado de roubo sacrílego, de mentira e hipocrisia. Calmet. MAS A DEUS - No verso precedente arguiu S. Pedro a Ananias de ter mentido ao Espírito Santo na pessoa dos Apóstolos; agora, neste, acrescenta, que a mentira não fôra feita aos homens mas a Deus; logo o Espírito Santo é Deus.
5Ananias, em ouvindo porém estas palavras caiu e expirou. E fundiu-se um grande temor em todos os que isto ouviram.
6Levantando-se pois uns mancebos, o retiraram, e levando-o dali para fora o enterraram.
7E passado que foi quase o espaço de três horas, entrou também sua mulher, não sabendo o que tinha acontecido.
8E Pedro lhe disse: Dize-me, mulher, se vendestes vós por tanto a herdade? E ela lhe disse: Sim, por tanto.
9Pedro então disse para ela: Por que vos haveis por certo concertado para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí estão à porta os pés daqueles que enterraram a teu marido, e te levarão a ti.[4]PARA TENTAR O ESPÍRITO DO SENHOR — Estas palavras nos descobrem novo pecado nos dois consortes. Era o de querer sondar se o Espírito Santo nos Apóstolos conhecia a sua mentira. O que, quando êles não intentassem por ato expresso, ao menos obraram como se o tivessem. S. Tomás 2.ª, 2ae; quaest. 97, art. 1.
10No mesmo ponto caiu a seus pés, e expirou. E aqueles moços entrando, a acharam morta: E a levaram, e a enterraram junto ao seu marido.
11E difundiu-se um grande temor por tôda a igreja, e entre todos os que ouviram êste sucesso.
12E pelas mãos dos Apóstolos se faziam muitos milagres, e prodígios entre a plebe. E estavam todos unânimes no pórtico de Salomão.
13E nenhum dos outros ousava ajuntar-se com êles, mas o povo lhes dava grandes louvores.[5]E NENHUM DOS OUTROS — Nenhum dos que entre os judeus seguiam diversas seitas: a saber, fariseus, saduceus, herodianos. - Calmet.
14E cada vez se aumentava mais a multidão dos homens, e mulheres, que criam no Senhor.
15De maneira que traziam os doentes para as ruas, e os punham em leitos e enxergões, a fim de que, ao passar Pedro, cobrisse sequer a sua sombra alguns dêles, e ficassem livres das suas enfermidades.
16Assim mesmo concorriam enxames dêles das cidades vizinhas a Jerusalém, trazendo os seus enfermos, e os vexados dos espíritos imundos: Os quais todos eram curados.
17Mas levantando-se o príncipe dos sacerdotes, e todos os que com êle estavam (que é a seita dos saduceus) se encheram de inveja e ciúme:
18E fizeram prender aos Apóstolos, e os mandaram meter na cadeia pública.
19Mas o Anjo do Senhor, abrindo de noite as portas do cárcere, e tirando-os para fora, lhes disse:
20Ide, e, apresentando-vos no templo, pregai ao povo tôdas as palavras desta vida.
21Os quais, tendo ouvido isto, entraram ao amanhecer no templo, e se punham a ensinar. Mas chegando o príncipe dos sacerdotes, e os que com êle estavam, convocaram o conselho, e a todos os anciãos dos filhos de Israel: E enviaram ao cárcere para que fossem ali trazidos.
22Mas tendo lá ido os ministros, e como, aberto o cárcere, os não achassem, depois de voltarem deram a notícia,
23dizendo: Achamos sim o cárcere fechado com toda a diligência, e os guardas postos diante das portas: Mas abrindo-se não achamos ninguém dentro.[6]ACHAMOS SIM O CÁRCERE — Sinal que o Anjo, depois de o abrir, o tornou a fechar. - Calmet.
24Quando porém ouviram esta novidade, os magistrados do templo, e os príncipes dos sacerdotes estavam perplexos sôbre o que teria sido feito dêles.
25Mas ao mesmo tempo chegou um que lhes deu esta notícia: Olhai que aqueles homens, que metestes no cárcere, estão postos no templo, e doutrinando ao povo.
26Então foi o magistrado com os seus ministros, e os trouxe sem violência: Porque temiam que o povo os apedrejasse.
27E logo que os trouxeram, os apresentaram no conselho. E o príncipe dos sacerdotes lhes fez a seguinte pergunta,
28dizendo: Com expresso preceito vos mandamos que não ensinasseis neste nome e isto não obstante, eis aí tendes enchido a Jerusalém da vossa doutrina: E quereis lançar sôbre nós o sangue dêsse homem.
29Mas dando Pedro a sua resposta, e os Apóstolos disseram: Importa obedecer mais a Deus do que aos homens.
30O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós destes a morte, pendurando-o num madeiro.
31A êste elevou Deus com a sua destra por Príncipe, e por Salvador, para dar o arrependimento a Israel, e a remissão dos pecados.
32E nós somos testemunhas destas palavras, e também o Espírito Santo, que Deus deu a todos os que lhe obedecem.
33Quando isto ouviram, enraiveciam-se, e formavam tenção de os matar.
34Mas levantando-se no conselho um fariseu por nome Gamaliel, doutor da lei, homem de respeito em todo o povo, mandou que saíssem para fora aqueles homens por um breve espaço,[7]UM FARISEU POR NOME GAMALIEL — S. Paulo neste mesmo livro, 22, 3, chama a Gamaliel seu mestre. S. João Crisóstomo o supõe convertido e batizado primeiro que S. Paulo. A relação autêntica do miraculoso descobrimento das relíquias do Protomártir Santo Estêvão, escrita e dirigida a todos os fieis pelo presbítero Luciano, a instâncias do nosso Avito de Braga, que então se achava em Jerusalém, esta relação, digo, que corre na Igreja desde quase o princípio do quinto século e que refere, que se acharam no mesmo sepulcro as relíquias de Gamaliel e de seu filho Abibas, sendo o mesmo Gamaliel o que as revelou, faz indubitável a sua conversão ao cristianismo, e a sua perseverança na Fé e Caridade até à morte. Como de Santo pois fazem dele honorífica menção os Martirológios de Adon, Usuárdo, e outros antigos, a quem seguiu o Romano a 3 de agosto. - Tillemont. Êste Gamaliel, fariseu e doutor da lei parece ser aquele tão celebrado no Talmude. Era filho do rabi Simeão e neto de Hilel, um dos mais afamados doutores do Mosaismo. Foi presidente do sinédrio no tempo de Tibério, Calígula e Cláudio. Segundo a tradição converteu-se ao cristianismo e morreu dezoito anos antes da tomada de Jerusalém por Tito.
35e lhes disse: Varões israelitas, atendei por vós, reparando no que haveis de fazer acerca dêstes homens.
36Porque há uns tempos a esta parte que se levantou um certo Teodas, que dizia ser êle um grande homem, a quem se acostou o número de quatrocentas pessoas com pouca diferença: O qual foi morto: E todos aqueles que o acreditavam foram desfeitos e reduzidos a nada.[8]UM TEODAS — O sedicioso de quem aqui se fala não é aquele de quem Josefo narra a revolta no ano 44, reinando Cláudio, pois êste é posterior ao discurso de Gamaliel. S. Lucas é historiador tão meticuloso que não cometeria um tal anacronismo. Supõem então os críticos modernos a existência de dois agitadores com o mesmo nome. Esta sedição, a que se referem os Atos, foi uma das numerosas que ensanguentaram a Judéia por ocasião da morte de Herodes Magno. Foi nesta ocasião que um escravo do defunto rei Herodes, que se dizia chamar-se Simão, tentou fazer-se aclamar rei. Josefo, Ant 17, 10, 6. De Bello Judaico 2-4, 2 e parece ser êste que trocou o seu nome Teodas, por aquele com que se apresentou. - Fossard, Saint Pierre, 1888, pag. 12.
37Depois dêste levantou-se Judas Galileu nos dias em que se fazia o arrolamento do povo, e levou-o após si, mas êle pereceu: E foram dispersos todos quantos a êle se acostaram.[9]JUDAS GALILEU — Era o gaulonita, que se revoltou contra os romanos por causa do recenseamento de Quirino. Era originário de Gamala. Tomou o sobrenome de Galileu porque a sua insurreição começou na Galiléia. A sua divisa era: "Não temos outro Senhor senão Deus". Judas morreu e os seus sectários dispersaram-se. Josefo considera-o, como o fariseu Sadoc, como o fundador duma nova seita, a dos gaulonitas, que se juntou à dos fariseus, saduceus e essênios. Os gaulonitas podem ser considerados como os precursores dos zelotes, que dominaram em Jerusalém durante o cêrco de Tito.
38Agora pois enfim vos digo, não vos metais com êstes homens, e deixai-os: Porque se êste consêlho, ou esta obra, vem dos homens, ela se desvanecerá.
39Porém se vem de Deus, não a podereis desfazer, porque não pareça que até a Deus resistis. E êles seguiram o seu conselho.
40E tendo chamado aos Apóstolos, depois de os haverem feito açoitar, lhes mandaram que não falassem mais no nome de Jesus, e os soltaram.[10]DEPOIS DE OS HAVEREM FEITO AÇOITAR — Não se estendia a mais a alçada dos magistrados judaicos depois que a nação ficou súbdita dos romanos. - Calmet.
41Porém êles saíam por certo gozosos de diante do conselho por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus.[11]SOFRER AFRONTAS — A flagelação da Sinagoga era cruel, como se vê na Michna, tratado dos castigos, na palavra Maccoth. Era um açoite que dilacerava as carnes.
42E todos os dias não cessavam de ensinar, e de pregar a Jesus Cristo no templo, e pelas casas.