Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 28

Arriba Paulo a Malta. Morde-o uma Víbora e Não o Dana. Os Bárbaros o Têm por um Deus. Cura o Senhor da Ilha, e Outros Muitos. Passados Três Meses Chega Paulo a Puzolo, e Depois a Roma. Declara aos Judeus o Motivo da Sua Vinda e Prega-Lhes a Jesus Cristo por Espaço de 2 Anos.

1E estando nós já em salvo, soubemos então que a ilha se chamava Malta. E os bárbaros nos trataram com muita humanidade.[1]OS BÁRBAROSOs últimos habitantes Africanos que ficaram na ilha, depois do domínio romano. Não falavam nem o grego nem o latim, daí a denominação de bárbaros. MALTA - Alguns comentadores querem que se trate aqui de Meleda, no golfo de Veneza, mas o maior número identificam-na com a moderna Malta, no Mediterrâneo, ao sul da Sicília.

2Porquanto, acesa uma grande fogueira, nos alentaram a todos contra a chuva que vinha, e em razão do frio.

3Então havendo Paulo ajuntado e pôsto sôbre o lume um molho de vides, uma víbora que fugira do calor, lhe acometeu uma mão.

4Quando porém os bárbaros viram a bicha pendente da sua mão, diziam uns para os outros: Certamente êste homem é algum matador, pois tendo escapado do mar, a vingança o não deixa viver.

5Mas é certo que êle sacudindo a bicha no fogo, não experimentou nenhum dano.

6Os tais porém julgavam que êle viesse a inchar, e que súbitamente caísse e morresse. Mas depois de esperarem muito tempo, e vendo que lhe não sucedia mal nenhum, mudando de parecer, disseram que êle era algum deus.

7E naqueles lugares havia umas terras do príncipe da ilha, chamado Públio; o qual hospedando-nos em sua casa, três dias nos tratou bem.

8Sucedeu porém achar-se então doente de febre e de disenteria, o pai de Públio. Foi Paulo vê-lo: E como fizesse oração, e lhe impusesse as mãos, sarou-o.

9Depois do qual milagre, todos os que na ilha se achavam doentes, vinham a êle e eram curados:

10Êles nos fizeram também grandes honras, e quando estávamos a ponto de navegar, nos proveram do que era necessário.

11E ao cabo de três meses embarcamos num navio de Alexandria, que tinha invernado na Ilha, o qual levava por insígnia Castor e Pólux.[2]CASTOR E PÓLUXEram os dois gêmeos filhos de Júpiter e de Leda, que a Gentilidade cria presidirem à bonança, e aos quais por isso professavam os marinheiros grande devoção. E tendo cada um seu próprio nome, costumavam os gentios dar a conhecer ambos pelo nome do mais velho, dizendo por exemplo: o Templo dos Castores, o Navio dos Castores.

12E arribados a Siracusa, ficamos ali três dias.

13De lá correndo a costa, viemos a Régio: E um dia depois, ventando o Sul, chegamos em dois a Puzolo:[3]RÉGIO, PUZOLORÉGIO - Hoje Reggio, no reino de Nápoles, a sudoeste e em frente de Sicília. PUZOLO - Na Vulgata Puteolos, é, segundo os melhores autores Pouzzoles, cidade da Campânia, no golfo de Nápoles. Era porto de fácil desembarque, e onde vinham os navios chegados de Alexandria. S. Paulo chegou aqui dois dias depois da sua partida de Régio. Pouzzoles ficava perto de Pompéia. Posteriormente encontrou-se nas ruínas desta cidade, sepultada dezoito anos depois, em 79, nas lavas do Vesúvio, uma sinagoga, e uma inscrição, vestígio irrefutável da existência do Cristianismo nestas paragens e nesta época, pois diz assim: Audi christianos, saevos olores.

14Onde, como achamos irmãos, êles nos rogaram que ficássemos na sua companhia sete dias: E passados êles, tomamos o caminho de Roma.

15Donde, porém, tendo os irmãos novas que chegávamos, saíram a receber-nos à Praça d'Ápio, e às Três Vendas. Paulo, como os viu, dando graças a Deus, cobrou ânimo.[4]A PRAÇA D'ÁPIO E AS TRÊS VENDASEntre Pouzzoles e Roma, os Atos só mencionam o Fôro Ápio e as Três Vendas, onde compareceram os fiéis de Roma na presença do grande Apóstolo. Em Abril de 1892 o Padre Vigouroux empreendeu, na companhia do padre Le Camus, uma viagem de estudo aos lugares por onde passou S. Paulo. Foi com dificuldade, diz o sábio exegeta, que pude estabelecer a identidade das Três Vendas, Três Tabernae. Seguiram os dois investigadores a Via Appia e chegaram a Ciatema, onde alguns críticos diziam ser as Tres Tabernae, porém o próprio pároco informou que, embora na Igreja exista uma capela dedicada a S. Paulo, onde os descendentes dos que tinham recebido o apóstolo receberam o imortal Pio IX, as Três Vendas deviam ficar a três milhas, perto da Tôrre de Aníbal. Aí se vêem hoje umas construções modernas, a uma pequena distância da estrada real, o que corresponde perfeitamente à indicação dada pelo Itinerarium Antonini. As Três Vendas eram o lugar de paragem dos viajantes, pois era ali o entroncamento da estrada d'Antium (hoje Porto-Anzio) e da Via Appia. Os hodiernos estudos marítimos confirmam a travessia da Palestina para a Itália, da mesma sorte que as relações dos viajantes e as descobertas epigráficas contemporâneas atestam, como se vê, que o historiador dos Apóstolos conhecia muito bem os lugares, personagens e costumes a que se refere, revelando-se assim em cada página o autor do livro contemporâneo dos fatos que narra, consciencioso e digno de fé.

16E chegados que fomos a Roma, deu-se licença a Paulo que ficasse onde quisesse, com um soldado que o guardasse.

17Mas passados três dias convocou Paulo os principais dos judeus. Havendo-se êles ajuntado, lhes disse: Eu, varões irmãos, sem cometer nada contra o povo, nem contra os costumes de nossos pais, havendo sido prêso em Jerusalém, fui entregue nas mãos dos romanos.

18Os quais tendo-me examinado, quiseram soltar-me, visto que não achavam em mim crime algum que merecesse morte.

19Mas opondo-se a isso os judeus, vi-me obrigado a apelar para o César, sem intentar contudo acusar de alguma coisa os da minha nação.[5]O CÉSAREra Nero.

20Por esta causa pois é que vos mandei chamar aqui, para vos ver, e vos falar. Porquanto, pela esperança de Israel é que eu estou prêso com esta cadeia.

21Então êles lhe responderam: Nós nem temos recebido carta de Judéia que fale em ti, nem de lá tem vindo irmão algum que nos dissesse ou falasse algum mal da tua pessoa.

22Porém quiséramos que tu nos dissesses o que sentes: Porque o que nós sabemos desta seita, é que em tôda a parte a impugnam.

23Tendo-lhe pois aprasado dia, vieram muitos vê-lo ao seu hospício, aos quais êle tudo expunha, dando testemunho do Reino de Deus, e convencendo-os a respeito de Jesus pela lei de Moisés e pelos profetas, de pela manhã até à tarde.

24Uns criam o que êle dizia, outros porém não criam.

25E como não estivessem entre si concordes, estavam para se retirar, quando lhes disse Paulo esta palavra: Bem falou pois o Espírito Santo pelo profeta Isaías, a nossos pais,

26dizendo: Vai a êsse povo, e dize-lhes: De ouvido ouvireis, e não entendereis: E vendo vereis, e não percebereis.

27Porque o coração dêste povo se endureceu, e dos ouvidos ouviram pesadamente, e apertaram os seus olhos: Porque não vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam no coração, e se convertam e eu os sare.[6]PORQUE O CORAÇÃO DÊSTE POVOCom êsse mesmo texto de Isaías ameaçou Cristo Senhor nosso o povo judaico, como vimos e observamos no Evangelho de S. Mateus, 13, 14. 15.

28Seja-vos pois notório que aos gentios é enviada esta salvação de Deus, e êles a ouvirão.

29E tendo acabado de dizer isto, saíram dali os judeus, tendo entre si grandes altercações.

30E dois anos inteiros permaneceu Paulo num aposento que alugara: E recebia a todos que o vinham ver;

31pregando o reino de Deus, e ensinando as coisas que são concernentes ao Senhor Jesus Cristo, com tôda a liberdade, sem proibição.

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