Capítulo 13
1Havia pois na Igreja que era de Antioquia, vários profetas e doutores, entre êles Barnabé e Simão, que tinha por apelido o Negro, e Lúcio de Cirene, e Manaen, o qual era colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo.
2A tempo porém que êles ofereciam o sacrifício ao Senhor e jejuavam, disse-lhes o Espírito Santo: Separai-me a Saulo e a Barnabé para a obra a que eu os hei destinado.[1]A TEMPO PORÉM QUE ÊLES OFERECIAM — Para que ninguém repare, que dizendo aqui o Texto Latino: Ministrantibus autem illis Domino, vertesse eu: "A tempo porém que êles ofereciam o sacrifício ao Senhor." É de saber, que o original Grego tem illis autem liturgiam celebrantibus Domino; o qual traduzido à letra, quer dizer: "A tempo porém que êles celebravam a Liturgia ao Senhor". Ora na frase do Original Grego do Novo Testamento, o nome Liturgia constantemente significa o sacrifício, como se comprova do Evangelho de S. Lucas, 1, 8, da Epístola aos Hebreus, 10, 11, e dos outros lugares de S. Paulo, que Duhamel aqui aponta.
3Depois que jejuaram e oraram, e lhes impuseram as mãos, os despediram.[2]E LHES IMPUSERAM AS MÃOS — S. João Crisóstomo, a quem segue Ecumênio, o entendem de uma verdadeira ordenação em bispos. Outros, com Caetano, de uma simples destinação, ou missão para o ministério de Apostolar. - Pereira.
4E êles assim enviados pelo Espírito Santo foram a Selêucia, e dali navegaram até Chipre.
5E quando chegaram a Salamina, pregavam a palavra de Deus nas Sinagogas dos judeus. Tinham pois êles também a João no ministério.[3]SALAMINA — Era uma das cidades da Ilha de Chipre, ficava na costa oriental e tinha um excelente porto.
6E tendo discorrido por tôda a ilha até Pafos, acharam um homem mago, falso profeta, judeu, que tinha por nome Barjesus.
7O qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, varão prudente. Êste, havendo feito chamar a Barnabé e a Saulo, desejava ouvir a palavra de Deus.[4]SÉRGIO PAULO — Sabe-se pela numismática, que Chipre, em virtude da sua importância, certamente tinha um procônsul anual. Sérgio Paulo devia ter sido um apoio da Igreja nascente.
8Mas Elimas, o mago (porque assim se interpreta o seu nome) se lhes opunha, procurando apartar da fé ao procônsul.[5]MAS ELIMAS, O MAGO — Ainda que S. Lucas não declara a língua em que Elimas significa mágico, os modernos críticos convêm que é a Árabe. - Pereira.
9Porém Saulo, que é também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, fixando nele os olhos,
10disse: Ó homem cheio de todo o engano e de tôda a astúcia, filho do diabo, inimigo de tôda a justiça, tu não deixas de perverter os caminhos retos do Senhor.
11Pois agora eis aí está sôbre ti a mão do Senhor, e serás cego, que não verás o sol até certo tempo. E logo caiu sôbre êle uma obscuridade e trevas, e andando à roda buscava quem lhe desse a mão.
12Então o procônsul quando viu êste fato, abraçou a fé, admirando a doutrina do Senhor.[6]ABRAÇOU A FÉ, ADMIRANDO A DOUTRINA DO SENHOR — Alguns Martirológios do século IX, a 22 de Março, fazem primeiro bispo de Narbona a êste Paulo: porém Rolando neste dia, e Tillemont no tomo 4, pág. 479, dão por muito mal fundada esta opinião; e assentam que S. Paulo, primeiro bispo de Narbona, é muito mais moderno, e que não veio à França senão no meio do terceiro século.
13E tendo Paulo e os que com êle se achavam, desaferrado de Pafos, vieram a Perge na Panfília. Mas João apartando-se dêles, voltou a Jerusalém.
14E êles passando por Perge vieram a Antioquia de Pisídia: E tendo entrado na Sinagoga em dia de sábado, assentaram-se.[7]VIERAM A ANTIOQUIA DE PISÍDIA — Assim chamada para diferença doutras do mesmo nome, que havia na Ásia, das quais à principal, e mais famosa, era a Antioquia metrópole da Síria, sôbre o rio Orontes. A Pisídia, porém, era uma província da Ásia Menor, que jazia entre a Frígia, e a Panfília. Era uma cidade importante.
15E depois da lição da lei, e dos profetas, mandaram-lhes dizer os chefes da Sinagoga: Varões irmãos, se vós tendes que fazer alguma exortação ao povo, fazei-a.
16E levantando-se Paulo e fazendo com a mão sinal de silêncio, disse: Varões israelitas, e os que temeis a Deus, ouvi:
17O Deus do povo de Israel escolheu nossos pais e exaltou a êste povo, sendo êles estrangeiros na terra do Egito, donde os tirou com o excelso poder do seu braço.
18E suportou os costumes dêles no deserto, por espaço de quarenta anos.
19E destruindo sete nações da terra de Canaã, distribuiu entre êles por sorte aquela sua terra,
20quase quatrocentos e cinquenta anos depois: E daí em diante lhes deu juízes, até ao profeta Samuel.
21E depois pediram rei: E Deus lhes deu a Saul, filho de Cis, varão da tribo de Benjamim, por quarenta anos:
22E tirado êste, lhes levantou em rei a Davi: A quem dando testemunho, disse: Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará tôdas as minhas vontades.
23Da linhagem dêste, conforme a sua promessa, trouxe Deus a Israel o Salvador Jesus,
24havendo João pregado antes da manifestação da sua vinda, o batismo de penitência a todo o povo de Israel.
25E João quando acabava a sua carreira, dizia: Não sou eu quem vós cuidais que eu sou, mas eis aí vem após de mim aquêle a quem eu não sou digno de desatar o calçado dos pés.
26Varões irmãos, filhos da linhagem de Abraão, e os que entre vós temem a Deus, a vós é que foi enviada a palavra desta salvação.
27Porque os que habitavam em Jerusalém e os príncipes dela, não conhecendo a êste, nem as vozes dos profetas, que cada sábado se lêem, sentenciando-o, as cumpriram.
28E não achando nêle nenhuma causa de morte, fizeram a sua petição a Pilatos, para assim lhe tirarem a vida.
29E quando tiveram cumprido tôdas as coisas, que dêle estavam escritas, tirando-o do madeiro, o puseram no sepulcro.
30Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia: E foi visto muitos dias por aqueles
31que tinham vindo juntamente com êle da Galiléia a Jerusalém: Os quais até agora dão testemunho dêle ao povo.
32E nós vos anunciamos aquela promessa, que foi feita a nossos pais:
33Visto Deus a ter cumprido a nossos filhos, ressuscitando a Jesus, como também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho; eu te gerei hoje.
34E que o haja ressuscitado dentre os mortos, para nunca mais tornar à corrupção, êle o disse desta maneira: Dar-vos-ei pois as coisas santas de Davi firmes.
35E por isso é que também diz noutro lugar: Não permitirás que o teu santo experimente corrupção.
36Porque Davi no seu tempo, havendo servido conforme a vontade de Deus, morreu: E foi sepultado com seus pais, e experimentou corrupção.
37Porém aquêle que Deus ressuscitou dentre os mortos, não experimentou corrupção.
38Seja-vos pois notório, varões irmãos, que por êste se vos anuncia remissão de pecados, e de tudo o de que não pudestes ser justificados pela lei de Moisés.
39Por êste é justificado todo aquêle que crê.
40Guardai-vos pois que não venha sôbre vós o que foi dito pelos profetas:
41Vêde, ó desprezadores, e admirai-vos e finai-vos: Que eu obro uma obra em vossos dias, uma obra que vós não crereis, se alguém vo-la referir.
42E quando êles saíam lhes rogavam que no seguinte sábado lhes falassem estas palavras.
43E como tivesse sido despedida a Sinagoga, muitos dos judeus e prosélitos tementes a Deus seguiram a Paulo, e a Barnabé: os quais com as suas razões os exortavam a que perseverassem na graça de Deus.
44E no sábado seguinte concorreu quase tôda a cidade a ouvir a palavra de Deus.
45Mas vendo os judeus tanta multidão de gente, encheram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam as razões que por Paulo eram proferidas.
46Então Paulo e Barnabé lhes disseram resolutamente: Vós éreis os primeiros a quem se devia anunciar a palavra de Deus; mas porque vós a rejeitais, e vos julgais indignos da vida eterna, desde já nos vamos daqui para os gentios:
47Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te pus para luz das gentes para que sejas de salvação até à extremidade da terra.
48Os gentios, porém, ouvindo isto, se alegraram, e glorificaram a Palavra do Senhor: E creram todos os que haviam sido predestinados para a vida eterna.
49Assim por tôda esta terra se disseminava a Palavra do Senhor.
50Mas os judeus concitaram a algumas mulheres devotas e nobres, e os principais da cidade, e excitaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé: E os lançaram fora do seu país.
51Então Paulo e Barnabé, tendo sacudido contra êles o pó dos seus pés, foram para Icônia.[8]ICÔNIA — Hoje Conié, importante cidade da Ásia Menor, capital da Licaônia, numa fértil planície, junto do monte Tauro.
52Entretanto estavam os Discípulos cheios de gôzo e do Espírito Santo.