Capítulo 22
1Varões irmãos, e padres, ouvi a razão que presentemente vos dou de mim.
2E quando ouviram que lhes falava em língua hebraica, o escutaram com maior silêncio.
3E disse: Eu pelo que toca à minha pessoa sou judeu, que nasci em Tarso de Cilícia, e me criei nesta cidade, instruído aos pés de Gamaliel, conforme a verdade da Lei de nossos pais, zelador da Lei; assim como todos vós também o sois no dia de hoje.
4Eu o que persegui êste caminho até à morte, prendendo, e metendo em cárceres a homens, e mulheres.[1]EU O QUE PERSEGUI ÊSTE CAMINHO — Esta religião, ou profissão dos Cristãos.
5Como o príncipe dos sacerdotes, e todos os anciãos me são testemunhas, dos quais havendo também recebido cartas para os irmãos, ia a Damasco com o fim de os trazer dali presos a Jerusalém, para que fossem castigados.
6Mas aconteceu que indo eu no caminho, e achando-me já perto de Damasco à hora do meio-dia, de repente me cercou uma grande luz do Céu.
7E caindo por terra, ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?[2]SAULO, SAULO, POR QUE ME PERSEGUES? — Pretende a crítica racionalista não ver nisto mais que um fenômeno meramente subjetivo, uma alucinação doentia, uma manifestação mórbida, destituída de realidade objetiva. Uma extrema fadiga do sistema nervoso, causada por uma viagem longa e penosa, debaixo dum grande calor, tudo acompanhado duma tempestade que fez ouvir o seu estrépito, foram as condições anormais em que se deu o notável caso, afirmam os críticos racionalistas. Nestas condições, continuam, o doente derribado crer ver no delírio da febre ardente o Jesus de Nazaré; cujos sectários êle incansàvelmente persegue, julga ouví-lo e crê depois receber uma missão apostólica. Esta alucinação persiste, até que Ananias o chama à realidade. Renan - Les Apôtres, p. 179 e 185. Corby, respondendo, começa por afirmar que a leitura atenta da narração bíblica destrói êste falso asserto. Saulo não foi o único que sentiu os efeitos da aparição. É certo que os seus companheiros nada viram, a não ser a extraordinária claridade que deslumbrou os seus olhos, mas ouviram a voz que falou a Saulo; Saulo é conduzido a Damasco; Ananias impõe-lhe as mãos e restitui-lhe a vista; mas êste Ananias não vem ao chamamento de Saulo, vem enviado por Deus, e não é provável que êste fosse também alucinado. A visão de Saulo no caminho de Damasco, foi para êle um fato da maior importância; operou uma profunda revolução nas suas idéias, transformou-o radicalmente, e imprimiu à sua vida uma orientação diametralmente oposta à seguida até ali, como êle mesmo o confessa. 1 Cor 9, 1; Gal 1, 12. Êle mesmo se encarrega de contar duas vêzes esta cena maravilhosa, para mostrar a origem divina do seu Apostolado, At. 22, 6-16; 26, 12-17. Estas duas narrações concordam com a do autor dos Atos. Por isto pergunta-se: será crível que êsse homem de vistas tão largas, critério tão abalizado, de talento tão pujante, persistisse, durante tôda a sua vida, numa ilusão que lhe não permitisse distinguir uma visão objetivamente real, duma alucinação puramente subjetiva? E por outro lado os milagres operados por S. Paulo não confirmam a origem sobrenatural da sua conversão? Tudo pois me leva a admitir o caráter sobrenatural do acidente de Damasco. A visão foi real, ainda que pudesse ter sido interior, sendo certo que a luz e a voz foram manifestações materiais e sensíveis.
8E eu respondi: Quem és tu, Senhor? E o que falava me disse: Eu sou Jesus Nazareno a quem tu persegues.
9E os que estavam comigo viram sim a luz, mas não ouviram a voz daquele que falava comigo.
10Então disse eu: Senhor, que farei? E o Senhor me respondeu: Levanta-te, vai a Damasco, e lá se te dirá tudo o que deves fazer.
11E como eu ficasse cego pelo intenso clarão daquela luz, tendo sido pelos que me acompanhavam levado pela mão, cheguei a Damasco.
12E um certo Ananias, varão segundo a Lei, que tinha o testemunho de todos os judeus que ali assistiam:
13Vindo ter comigo, e pondo-se-me diante me disse: Saulo irmão, recebe a vista. E eu no mesmo ponto o vi a êle.
14E êle me disse: O Deus de nossos padres te predestinou para que conhecesses a sua vontade, e visses ao Justo, ouvisses a voz da sua bôca:[3]E VISSES AO JUSTO — O justo por excelência, que é Jesus Cristo, como o chamou S. Pedro, At 3, 14, e S. João na sua primeira Carta 2, 20. - Amelote.
15Porque tu serás sua testemunha diante de todos os homens, das coisas que tens visto e ouvido.
16E agora para que te demoras? Levanta-te, e recebe o batismo, e lava os teus pecados, depois de invocar o seu nome.
17E aconteceu que voltando eu para Jerusalém, e orando no Templo, fui arrebatado fora de mim,
18e vi ao que me dizia: Dá-te pressa, e sai logo de Jerusalém, porque não receberão o teu testemunho de mim.
19E eu disse: Senhor, êles mesmos sabem que eu era o que metia em cárceres, e açoutava pelas Sinagogas aos que criam em ti:
20E quando se derramava o sangue de Estêvão, testemunha tua, eu estava presente, e o consentia, e guardava os vestidos dos que o matavam.
21E êle me disse: Vai, porque eu te enviarei às nações de longe.
22E os judeus o haviam escutado até esta palavra, mas levantaram então a sua voz, dizendo: Tira do mundo a tal homem: Porque não é justo que êle viva.
23E como êles fizessem alaridos, e arrojassem de si os seus vestidos, e lançassem pó ao ar,
24mandou o tribuno metê-lo na cidadela, e que o açoutassem, e lhe dessem tormento para saber por que causa clamavam assim contra êle.[4]PARA SABER — O tribuno, como não entendia a língua hebraica, em que o Apóstolo tinha falado ao povo, vendo que êste se dava por ofendido, quis à fôrça de tormentos saber de Paulo qual era o motivo desta queixa.
25Mas tendo-o liado com umas correias, disse Paulo a um centurião, que estava presente: É-vos permitido açoutar a um cidadão romano, e que não foi condenado?[5]É-VOS PERMITIDO AÇOUTAR — Cícero, na Oração pro Rabirio: Lex Porcia virgas ab omnium Civium Romanorum corpore amovet. A lei Pórcia proíbe que as varas toquem o corpo dalgum cidadão romano.
26Tendo ouvido isto, foi o centurião ter com o tribuno, lhe fez aviso, dizendo: Que determinas tu fazer? Pois êste homem é cidadão romano.
27E vindo o tribuno, lhe disse: Dize-me se tu és romano? E êle disse: Sim.
28E respondeu o tribuno: A mim custou-me uma grande soma de dinheiro alcançar êste fôro de cidadão. Então lhe disse Paulo: Pois eu sou-o de nascimento.[6]A MIM CUSTOU-ME UMA GRANDE SOMA DE DINHEIRO — Dião Crisóstomo escreve, que o abuso de se vender o fôro de cidadão romano se tinha introduzido em tempo de Cláudio, que era o em que isto sucedeu.
29Logo ao mesmo tempo se apartaram dêle os que o haviam de pôr a tormento. Também o tribuno entrou em temor, depois que soube que era cidadão romano, e porque o tinha feito liar.
30E ao dia seguinte, querendo saber com mais individuação a causa que tinham os judeus para acusá-lo, o fez desatar, e mandou que se ajuntassem os sacerdotes, e todo o conselho, e produzindo a Paulo, o apresentou diante dêles.