Capítulo 8
1Naquele dia pois se moveu uma grande perseguição na igreja que estava em Jerusalém, e foram todos dispersos pelas províncias da Judéia, e de Samaria, excetuando os Apóstolos.
2E uns homens timoratos trataram de enterrar a Estêvão e fizeram um grande pranto sôbre êle.[1]E UNS HOMENS — Segundo uma narrativa, que tôda a antiguidade reputou autêntica, o corpo era posto à voracidade das feras, ficava um dia abandonado no local do martírio. Mas no dia seguinte, Gamaliel, impressionado pelas palavras e pela morte do Santo diácono, resolveu os cristãos que, persuadidos, levassem durante a noite o cadáver para uma terra que êle, Gamaliel, possuía a oito léguas de Jerusalém, chamada Cafar Gâmala. Epistola Luciani de Revelatione corporis Stephani martyris primi. E FIZERAM UM GRANDE PRANTO SÔBRE ÊLE - Espécie de honra, que os orientais costumavam praticar com os defuntos de qualidade. Maior honra porém foi a que Deus deu ao Protomártir quando, depois de descoberta a sua ossada, e trazida à África parte das suas relíquias, obrou o Senhor por elas muitos e estupendos milagres, que Santo Agostinho refere e celebra no livro 22 da Cidade de Deus, cap. 8; e na carta 102.
3Mas Saulo assolava a igreja, entrando pelas casas, e tirando com violência homens e mulheres, os fazia meter no cárcere.
4Portanto, os que haviam sido dispersos iam de uma parte para a outra, anunciando a palavra de Deus.
5E Filipe, descendo a uma cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo.
6E os povos estavam atentos ao que Filipe lhes dizia, escutando-o com um mesmo ardor, e vendo os prodígios que fazia.
7Porque os espíritos imundos de muitos possessos saíam dando grandes gritos.
8E muitos paralíticos e côxos foram curados.
9Pelo que se originou uma grande alegria naquela cidade. Havia porém nela um homem, por nome Simão, o qual antes tinha ali exercitado a mágica, enganando ao povo samaritano, dizendo que êle era um grande homem.[2]HAVIA PORÉM NELA UM HOMEM POR NOME SIMÃO — Santo Epifânio o faz natural da aldeia de Giton na Samaria. E segundo refere S. Jerônimo, êle se jactava de ser a palavra de Deus, o Especioso dos Salmos de Davi, o Parácleto e Onipotente, o tudo de Deus: Ego sum Sermo Dei, ego sum Speciosus, ego Paracletus, ego Omnipotens, ego Omnia Dei. Acrescenta Santo Agostinho, que Simão se fazia ser o Messias, e também Júpiter, e que uma amiga que tinha, chamada Helena, era a Minerva, ou a primeira inteligência ou o Espírito Santo. O seu primeiro crime foi querer comprar o episcopado.
10A quem todos davam ouvidos desde o menor até ao maior, dizendo: Êste é a virtude de Deus, a qual se chama grande.
11E êles o atendiam: Porque, com as suas artes mágicas, por muito tempo os havia dementado.
12Porém, depois que creram o que Filipe lhes anunciava do reino de Deus, iam-se batizando homens e mulheres em nome de Jesus Cristo.[3]IAM-SE BATIZANDO HOMENS E MULHERES EM NOME DE JESUS CRISTO — Assim mesmo mais adiante, no verso 16. Mas somente tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus. E no cap. 10, verso 48. E mandou que se batizassem em nome do Senhor Jesus Cristo. E já no cap. 2, verso 38 ouvimos de S. Pedro: E cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo.
13Então creu também o mesmo Simão: E depois que foi batizado, andava unido a Filipe. Vendo também os prodígios e grandíssimos milagres que se faziam, todo cheio de pasmo se admirava.
14Os Apóstolos, porém, que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a palavra de Deus, mandaram-lhes lá a Pedro e a João.
15Os quais, como chegaram, fizeram oração por êles, a fim de receberem o Espírito Santo.
16Porque êle ainda não tinha descido sôbre nenhum, mas somente tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus.
17Então punham as mãos sôbre êles, e recebiam o Espírito Santo.
18E quando Simão viu que se dava o Espírito Santo por meio da imposição da mão dos Apóstolos, lhes ofereceu dinheiro,[4]LHES OFERECEU DINHEIRO — É a origem da chamada simonia, ou compra de benefícios eclesiásticos, severamente condenada pela Igreja.
19dizendo: Dai-me também a mim êste poder, que qualquer a quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo. Mas Pedro lhe disse:
20O teu dinheiro pereça contigo: Uma vez que tu te persuadiste que o dom de Deus se podia adquirir com dinheiro,
21tu não tens parte, nem sorte alguma, que pretender neste ministério: Porque o teu coração não é reto diante de Deus.
22Faze, pois, penitência desta tua maldade: E roga a Deus que, se é possível, te seja perdoado êste pensamento do teu coração.
23Porque eu vejo que tu estás num fel de amargura, e preso nos laços da iniquidade.
24E respondendo Simão, disse: Rogai vós por mim ao Senhor, para que não venha sôbre mim nenhuma coisa das que haveis dito.
25E êles, depois de terem testemunhado com efeito, e anunciado a palavra do Senhor, tornavam já para Jerusalém e pregavam por muitos lugares dos samaritanos.
26E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te e vai contra o meio-dia em direitura ao caminho que vai de Jerusalém à Gaza: Esta se acha deserta.
27E êle, levantando-se, partiu. E eis que um varão etíope, eunuco, valido de Candace, rainha da Etiópia, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, tinha vindo a Jerusalém para fazer a sua adoração:[5]DE CANDACE, RAINHA DA ETIÓPIA — Muito antes do que depois adotaram os modernos expositores, dotara o nosso Barros, na Terceira Década, livro 4, cap. 2, que a Etiópia se deve aqui tomar pela ilha Méroe do rio Nilo, na parte mais meridional do Egito: e que Candace não era entre aquelas rainhas nome próprio, mas título comum, como o de Faraó entre os reis egípcios, e César entre os imperadores romanos.
28E voltava já assentado sôbre o seu coche, e ia lendo o profeta Isaías.
29Então disse o espírito a Filipe: Chega e ajunta-te a êste coche.
30E correndo logo Filipe, ouviu que o eunuco lia no profeta Isaías, e lhe disse: Crês porventura que entendes o que estás lendo?
31Êle lhe respondeu: E como o poderei eu entender, se não houver alguém que mo explique? E rogou a Filipe que montasse e se assentasse com êle.
32Ora, a passagem da Escritura que lia era esta: Como ovelha foi levado ao matadouro: E como cordeiro mudo diante do que o tosquia, assim êle não abriu a sua bôca.
33No seu abatimento o seu juízo foi exaltado. Quem poderá contar a sua geração, pois que a sua vida será tirada da terra?
34E respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te que me digas de quem disse isto o Profeta? De si mesmo ou dalgum outro?
35E abrindo Filipe a sua bôca, e principiando por esta Escritura, lhe anunciou a Jesus.
36E continuando êles o seu caminho, chegaram a um lugar onde havia água, e disse o eunuco: Eis aqui está água; que embaraço há para que eu não seja batizado?
37E disse Filipe: Se crês de todo o coração, bem podes. E êle respondendo disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.
38E mandou parar o coche: E desceram os dois à água, Filipe e o eunuco, e o batizou.[6]E O BATIZOU — O batismo se dava então, e continuou muito tempo a dar-se por imersão. S. Jerônimo diz que foi batizado em uma fonte, chamada depois por esta causa do Etíope, na tribo de Judá, ao pé de um monte vizinho a um povo chamado Bethsur ou Bethsoron, hoje Ain Dironeh, e que se ocultava na terra a poucos passos do seu nascimento.
39E tanto que êles saíram da água, arrebatou o Espírito do Senhor a Filipe, e o eunuco o não viu mais. Porém continuava o seu caminho cheio de prazer.
40Mas Filipe se achou em Azot, e indo passando pregava o Evangelho em tôdas as cidades até que veio a Cesaréia.