Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

A Conversão de Paulo. O Seu Batismo. Anuncia a Jesus Cristo na Sinagoga de Damasco. Deus o Livra das Ciladas dos Judeus. Barnabé o Leva a Jerusalém aos Apóstolos. Paulo se Retira a Tarso. Pedro Cura a um Paralítico, e Ressuscita uma Mulher Defunta.

1Saulo, pois, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, se apresentou ao príncipe dos sacerdotes.[1]SAULOEra coevo do início da era cristã, segundo as melhores conjecturas, embora não se possa determinar com segurança a data do seu nascimento, visto não se achar no Novo Testamento nem nos primitivos Padres indicação precisa sôbre a data do seu nascimento. S. Lucas apenas nos diz que no tempo do martírio de S. Estêvão era muito jovem, At 7, 58. Na Epist. a Filemon, escrita no ano 63, êle próprio se qualifica velho, embora o têrmo por êle empregado — presbyter, compreenda já a idade de 80 anos. Nasceu em Tarso, na Cilícia, terra pagã, mas filho de pais judeus, e por isso hebreu, filho de pais hebreus, circuncidado ao oitavo dia, e descendente de Benjamim. Flp 3, 5, e desta descendência lhe vinha o nome de Saulo, que lhe foi dado como gratidão à memória de Saul, uma das maiores glórias dessa tribo, da qual êle era oriundo.

2E lhe pediu cartas para as Sinagogas de Damasco: Com o fim de levar presos a Jerusalém quantos achasse desta profissão, homens e mulheres.

3E indo êle seu caminho, foi coisa fátivel que se avizinhasse a Damasco: E súbitamente o cercou ali uma luz vinda do Céu.

4E caindo em terra ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?

5Êle disse: Quem és tu, Senhor? E êle lhe respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues: Dura coisa é para ti recalcitrar contra o aguilhão.[2]DURA COISA É PARA TIModo de falar, tomado dos bois presos ao jugo, e tirando do carro, os quais, ao picá-los a aguilhada, quanto mais estrebucham, tanto mais se ferem, e tanto mais o ferro se lhes crava pelo couro. Assim Saulo, quanto mais resistia ao estabelecimento da Igreja, tanto mais a seu pesar a fortalecia Deus. - Calmet.

6Então, tremente e atônito, disse: Senhor, que queres tu que eu faça?[3]QUE QUERES TU QUE EU FAÇA?Num instante fez a divina graça, de um perseguidor, um Apóstolo. Nas conversões ordinárias, obra a graça por partes. Primeiramente começa pelo temor que incute; ao temor segue-se um amor imperfeito; por último uma completa caridade dá fim à obra. Mas aqui, de um golpe triunfa a graça do coração de Saulo. E é êste milagre da graça, o efeito mais sensível que do seu poder e eficácia nos oferece a Escritura. - Santo Agostinho e Calmet.

7E o Senhor lhe respondeu: Levanta-te, e entra na cidade, e aí se te dirá o que convém fazer. A êsse tempo aqueles homens, que o acompanhavam, estavam espantados, ouvindo sim a voz, mas sem ver ninguém.

8Levantou-se pois Saulo da terra, e tendo os olhos abertos, não via nada. Êles porém levando-o pela mão o introduziram em Damasco.

9E esteve ali três dias sem ver, e não comeu, nem bebeu.

10Ora, em Damasco havia um discípulo, que tinha por nome Ananias: E o Senhor numa visão lhe disse: Ananias. Êle acudiu dizendo: Eis-me aqui, Senhor.

11E o Senhor lhe tornou: Levanta-te e vai ao bairro que se chama Direito: E busca em casa de Judas a um de Tarso chamado Saulo: Porque ei-lo aí está orando.

12(E viu um homem por nome Ananias, que entrava e que lhe impunha as mãos para recobrar a vista).

13Respondeu pois Ananias: Senhor, eu tenho ouvido dizer a muitos a respeito dêste homem, quantos males fêz aos teus Santos em Jerusalém:[4]AOS TEUS SANTOS EM JERUSALÉMEra êste o tratamento que deram os primeiros cristãos.

14E êste tem poder dos príncipes dos sacerdotes de prender todos aqueles que invocam o teu nome.

15Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque êste é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante das gentes, e dos reis, e dos filhos de Israel.

16Porque eu lhe mostrarei quantas coisas lhe é necessário padecer pelo meu nome.

17E foi Ananias, e entrou na casa: E pondo as mãos sôbre êle, disse: Saulo irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.

18E no mesmo ponto lhe caíram dos olhos umas como escamas, e assim recuperou a vista: E levantando-se foi batizado.

19E depois que tomou alimento, ficou então com as fôrças recobradas. Alguns dias porém esteve com os discípulos, que se achavam em Damasco.

20E logo pregava nas Sinagogas a Jesus, que êste era o Filho de Deus.

21E pasmavam todos os que o ouviam, e diziam: Pois não é êste o que perseguia em Jerusalém aos que invocavam êsse nome? E ao que veio cá não foi para os levar presos aos príncipes dos sacerdotes?

22Porém Saulo muito mais se esforçava, e confundia aos judeus que habitavam em Damasco; afirmando que êste era o Cristo.

23E passando muitos dias, os judeus juntos tiveram conselho para matá-lo.

24Porém Saulo foi advertido das suas ciladas. Guardavam pois até as portas de dia e de noite, para o matarem.

25E tomando conta dêle os discípulos de noite, o deslizaram pela muralha, metendo-o numa alcôfa.

26Tendo porém chegado a Jerusalém, procurava Saulo ajuntar-se com os discípulos, mas todos o temiam, não crendo que êle fosse discípulo.

27Então Barnabé levando-o consigo, o apresentou aos Apóstolos: E lhes contou como havia visto ao Senhor no caminho e que lhe havia falado, e como depois em Damasco êle se portara com tôda a liberdade em nome de Jesus.

28E estava com êles em Jerusalém entrando, e saindo, e portando-se com liberdade em nome do Senhor.

29Falava também com os gentios, e disputava com os gregos: Mas êles tratavam de o matar.

30O que tendo sabido os irmãos o acompanharam até Cesaréia, e o enviaram a Tarso.

31Tinha então paz a igreja por tôda a Judéia, e Galiléia, e Samaria, e se propagava caminhando no temor do Senhor, e estava cheia da consolação do Espírito Santo.

32Aconteceu pois que andando Pedro visitando a todos, chegou aos Santos, que habitavam em Lida.

33E achou ali um homem por nome Enéias, que havia oito anos jazia em um leito, porque estava paralítico.

34E Pedro lhe disse: Enéias, o Senhor Jesus Cristo te sara: Levanta-te, e faze a tua cama. E num momento se levantou.

35E viram-no todos os que habitavam em Lida, e em Sarona: Os quais se converteram ao Senhor.

36Houve também em Jope uma discípula, por nome Tabita, que quer dizer Dorcas. Esta se achava cheia de boas obras e de esmolas que fazia.[5]TABITAEm síriaco, em grego Dorcas, nome que quer dizer Gazela.

37E aconteceu naqueles dias, que depois de cair enferma, morresse. A qual, tendo-a primeiro lavado, a puseram num quarto alto.[6]A QUAL TENDO-A PRIMEIRO LAVADOSegundo o costume que então era geral entre os hebreus, gregos e romanos, e que ainda hoje se pratica entre nós em algumas partes, e principalmente nos mosteiros. - Calmet.

38E como Lida estava perto de Jope, os discípulos ouvindo que Pedro se achava lá, enviaram-lhe dois homens, rogando-lhe: Não te demores em vir ter conosco.

39E levantando-se Pedro foi com êles. E logo que chegou, o levaram ao quarto alto: E o cercaram tôdas as viúvas chorando, e mostrando-lhe as túnicas, e os vestidos, que lhes fazia Dorcas.

40Mas Pedro, tendo feito sair a todos para fora, pondo-se de joelhos, entrou a orar: E depois de se ter voltado para o corpo, disse: Tabita, levanta-te. E ela abriu os seus olhos: E vendo a Pedro, se assentou.[7]PONDO-SE DE JOELHOS ENTROU A ORARPois quê? Não é êste o mesmo Pedro, que havia pouco tinha curado em Lida a um paralítico de oito anos; e que só com a sua sombra sarara de caminho outros muitos enfermos? Como logo aqui para obter de Deus a ressurreição de Tabita, manda sair todos para fora; e se põe de joelhos a orar? É para que entendamos, que o dom de milagres não é graça que esteja sempre nas mãos dos Santos, e que tudo o que êles obram, é inteiramente dependente da vontade de Deus. - Calmet.

41Mas êle a fez levantar, dando-lhe a mão. E havendo chamado os santos, e as viúvas, lha entregou viva.

42E êste caso se fez notório por tôda Jope: E foram muitos os que creram no Senhor.

43E aconteceu que Pedro se deixou ficar em Jope por muitos dias, em casa dum curtidor de peles, chamado Simão.

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