Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 21

Viagem de Paulo a Fenícia, e Daí a Jerusalém. Agabo Lhe Prediz o Que Tem de Lhe Suceder Naquela Cidade; Mas Nem por Isso Deixa Paulo de Lá Ir. a Igreja de Jerusalém o Aconselha, Que com Outros Quatro Cumpra no Templo o Seu Voto. Os Judeus o Prendem. o Tribuno Lho Tira das Mãos. Pede Paulo Licença de Falar ao Povo. o Tribuno Lha Concede.

1E tendo-nos feito à véla depois que nos separamos dêles, fomos em direitura a Cóos, e no dia seguinte a Rodes e dali a Pátara.[1]CÓOS, RODES, PÁTARACÓOS - Pequena ilha do mar Egeu, em frente de Cnide e de Halicarnasso, muito abundante de vinho e trigo. RODES - É uma das Cíclades, perto de Cária e de Lícia, muito rica e centro notável de comércio. PÁTARA - Cidade marítima de Lícia, na foz de Xanto, célebre por um oráculo de Apolo.

2E como tivéssemos achado um navio, que passava à Fenícia, entrando nêle, nos fizemos à vela.

3E depois de estarmos à vista de Chipre, deixando-a à esquerda, continuamos a nossa derrota para as partes da Síria, e chegamos a Tiro: Porque aí se havia de descarregar o navio.

4E como achássemos discípulos, nos detivemos ali sete dias: Os quais inspirados pelo Espírito Santo diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém.

5E passados poucos dias tendo partido dali íamos nosso caminho, acompanhando-nos todos com suas mulheres e com seus filhos até fora da cidade: E postos de joelhos na praia fizemos a nossa oração.[2]NA PRAIAEra entre os hebreus e primeiros Cristãos muito ordinária a oração em lugares descobertos e sôbre o mar. Do que dão boas testemunhas os escritos de Tertuliano. - Calmet.

6E tendo-nos despedido uns dos outros, nos embarcamos: E êles voltaram para suas casas.

7Nós, porém, concluída a nossa navegação, de Tiro passamos a Ptolemaida: E havendo saudado aos irmãos, nos detivemos um dia com êles.

8E no dia seguinte, havendo partido dali, chegamos a Cesaréia. E entrando em casa de Filipe o evangelista, que era um dos sete, ficamos com êle.[3]EM CASA DE FILIPE, O EVANGELISTADêste texto e doutro de S. Paulo aos Efésios e a Timóteo, sabemos que na ordem eclesiástica tinham seu próprio lugar os Evangelistas, ou anunciadores do Evangelho. E com êste título trata largamente dêste S. Filipe o exatíssimo Tillemont. Tom. 2, pág. 70 e seg. DOS SETE - Isto é, Diáconos. Veja-se acima o capítulo 6, 5. - Calmet.

9E tinha êle quatro filhas virgiens, que profetavam.[4]PROFETAVAMQue eram virgens consagradas ao Senhor, não resta dúvida. Em recompensa da sua dedicação, conceder-lhe-ia Deus o dom da profecia? Pode ser, e esta é a opinião de exegetas abalizados; mas o verbo profetar da Vulgata também significa algumas vezes entoar louvores a Deus, o que seria certamente a principal ocupação destas virgens a Deus consagradas também.

10E como nos detivéssemos ali por alguns dias, chegou da Judéia um profeta, por nome Agabo.

11Êste tendo vindo a nós, tomou a cinta de Paulo: E atando-se os pés e as mãos, disse: Isto diz o Espírito Santo: Assim atarão os judeus em Jerusalém ao varão, cuja é esta cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios.

12Quando ouvimos isto, nós e os que eram daquêle lugar, lhe rogamos que não fôsse a Jerusalém.

13Então Paulo a resposta que deu foi dizendo: Que fazeis chorando e afligindo-me o coração? Porque eu estou aparelhado não só para ser atado, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus.

14E vendo que o não podíamos persuadir, não o importunamos mais, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor.

15E depois dêstes dias, tendo-nos prevenido, subimos a Jerusalém.

16E alguns dos discípulos vieram também conosco desde Cesaréia, os quais levavam consigo a um Mnason de Chipre, discípulo antigo, para nos hospedarmos em sua casa.[5]MNASONNome grego dum judeu helenista.

17E chegados que fomos a Jerusalém, os irmãos nos receberam de boa vontade.

18E no seguinte dia foi Paulo em nossa companhia à casa de Tiago, onde se tinham congregado todos os anciãos.[6]FOI PAULOEra Tiago o menor bispo da mesma santa cidade.

19Havendo-os saudado, lhes contou uma por uma tôdas as coisas que Deus tinha obrado entre os gentios por seu ministério.

20Êles porém depois que o ouviram, engrandeceram a Deus e lhe disseram: Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus são os que têm crido, e todos são zeladores da lei.

21E têm ouvido dizer de ti, que ensinas aos judeus, que estão entre os gentios, que deixem a Moisés, dizendo que êles não devem circuncidar a seus filhos, nem andar segundo o seu rito.

22Pois que se há de fazer? certamente é necessário que a multidão se ajunte, porque ouvirão que tu és chegado.

23Faze pois o que te vamos a dizer: Temos aqui quatro varões, que têm voto sôbre si.

24Depois de haveres tomado êstes contigo, santifica-te com êles: E faze-lhes os gastos da cerimônia, para que rapem as cabeças: E saberão todos que é falso quanto de ti ouviram, e que pelo contrário segues o teu caminho guardando a lei.[7]E FAZE-LHES OS GASTOS DA CERIMÔNIAÊstes gastos faziam com os sacrifícios de várias rezes e de pães asmos, que no capítulo 6 do livro dos Números mandava Deus que lhe fizessem os Nazarenos por espaço de oito dias. - Tillemont.

25E acerca daqueles que creram dentre os gentios, nós temos escrito, ordenando que se abstenham do que fôr sacrificado aos ídolos, e de sangue, e do sufocado, e da fornicação.

26Então Paulo, depois de tomar consigo aquêles varões, purificado com êles, no seguinte dia entrou no templo, fazendo saber o cumprimento dos dias da purificação, até que se fizesse a oferenda por cada um dêles.[8]ENTÃO PAULOÉ muito para admirar e louvar aqui a docilidade de S. Paulo. Êle tinha resistido publicamente, e na sua mesma face a S. Pedro, por êste, pelo modo com que se havia com os gentios convertidos, os obrigar a observarem as cerimônias da Lei velha. Tinha repreendido aos gálatas, por quererem continuar na circuncisão, dando-a por necessária. Em tôda a parte, em que tinha pregado aos gentios, os declarara desobrigados da observância da mesma lei, mostrando que a nossa justificação não estava em cerimônias, mas no exercício das virtudes cristãs, e principalmente no da caridade. E agora por evitar tôda a ocasião de escândalo e de dissenção entre os cristãos novos do judaísmo, acomoda-se e condescende com o que por uma sábia economia lhe aconselha que faça S. Tiago, com os mais do clero de Jerusalém. Para se verificar com isto o que o mesmo S. Paulo escrevia aos Coríntios; que êle, para ganhar a todos, se fazia judeu com os judeus e gentio com os gentios. 1 Cor 9, 20. - Calmet.

27Mas quando estavam a findar os sete dias, aquêles judeus que se achavam ali da Ásia, tendo-o visto no Templo, amotinaram todo o povo e lhe lançaram as mãos, gritando:

28Varões de Israel, socorro: Êste é aquêle homem, que por tôdas as partes ensina a todos contra o povo e contra a lei, e contra êste lugar, até de mais a mais meteu os gentios no Templo e profanou êste santo lugar.

29Porque tinham visto andar com êle pela cidade a Trófimo de Éfeso, creram que Paulo o havia introduzido no Templo.[9]A TRÓFIMO DE ÉFESOA êste Trófimo celebra a Igreja de Arles em França por seu primeiro bispo: Opinião que, se são genuínas as cartas do papa Zózimo, que do arquivo da mesma Igreja publicou Sismond, era já constante naquele reino nos princípios do século quinto.

30E se comoveu toda a cidade, e se ajuntou um grande concurso de povo. E lançando mão de Paulo o arrastaram para fora do Templo e logo foram fechadas as portas.

31E procurando êles matá-lo, chegou aos ouvidos do tribuno da coorte: Que tôda a Jerusalém estava amotinada.[10]CHEGOU AOS OUVIDOS DO TRIBUNO DA COORTES. Lucas nos informa mais adiante, 23, 26, que êle se chamava Cláudio Lísias.

32Êle havendo logo tomado soldados e centuriões correu a êles. Os quais, tendo visto ao tribuno e aos soldados, cessaram de ferir a Paulo.

33Então chegando-se o tribuno lançou mão dêle, e o mandou atar com duas cadeias, e lhe perguntou quem era e o que havia feito.

34Mas nesta confusão de gente, uns gritavam duma sorte, outros doutra; e como por causa do tumulto não podia vir no conhecimento de coisa alguma ao certo, mandou que o levassem à cidadela.[11]MANDOU QUE O LEVASSEM À CIDADELAEsta parece ser a que José chama a Torre Antônia. - Tillemont.

35E quando Paulo chegou às escadas, foi necessário tomarem-no os soldados, de grande que era a violência do povo.

36Porque era grande a aluvião que o seguia, dizendo a gritos: Mata-o.

37E quando começavam já a meter a Paulo na cidadela, disse ao tribuno: Desejara saber se me é permitido dizer-te duas palavras? O qual lhe respondeu: Sabes o grego?

38Porventura não és tu aquêle egípcio que os dias passados levantaste um tumulto e conduziste ao deserto quatro mil homens assassinos?

39E Paulo lhe disse: Eu na verdade sou homem judeu, natural de Tarso na Cilícia, cidadão desta não desconhecida cidade. Mas rogo-te que me permitas falar ao povo.

40E quando lho permitiu o tribuno, pondo-se Paulo em pé sôbre os degraus, fez sinal ao povo com a mão, e tendo ficado todos num grande silêncio, falou então em língua hebraica, dizendo:[12]FALOU ENTÃO EM LÍNGUA HEBRAICATal qual ela então se falava, que era uma mistura do hebreu e do siríaco. - Tillemont.

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