Capítulo 10
1Havia pois em Cesaréia um homem, por nome Cornélio, que era centurião da coorte, que se chama Italiana,[1]EM CESARÉIA — Como Lucas a nomeia simplesmente Cesaréia, sem acrescentar Filipe, discorrem Amelote e Calmet, que era a Cesaréia cidade marítima, que distava de Jerusalém obra de vinte e cinco léguas, e que depois foi metrópole eclesiástica da Palestina, enquanto se não erigiu no quinto século o Patriarcado de Jerusalém. Não é a de Filipe. POR NOME CORNÉLIO - Êste nome por si mesmo está dando a conhecer um homem romano, ou ao menos natural da Itália. - Calmet. DA COORTE, QUE SE CHAMA ITALIANA - O exército romano compunha-se de muitas legiões, e cada legião de muitas coortes, é cada coorte de quinhentos homens. - Calmet.
2cheio de religião e temente a Deus com tôda a sua casa, que fazia muitas esmolas ao povo, e que estava orando a Deus incessantemente:[2]CHEIO DE RELIGIÃO — Ou Devoto. Daqui se conhece que Cornélio, ainda que era gentio de nação, não o era na crença; mas conhecia e adorava o verdadeiro Deus, sem contudo fazer profissão do Judaísmo. E êstes eram os que na frase dos judeus se chamavam Prosélitos da porta; porque para orarem no templo de Jerusalém, tinham nele átrio separado. E esta fé em Deus, que Cornélio tinha, era sem dúvida fé sobrenatural. Doutra sorte não seriam agradáveis a Deus as suas orações e esmolas, como o anjo atestou que o eram. Porque, como ensina S. Paulo na carta aos Hebreus, sem fé é impossível agradar a Deus.
3Êste viu em visão manifestamente, quase à hora de Noa, que um anjo de Deus se apresentava diante dêle e lhe dizia: Cornélio.
4E êle fixando nele os olhos, possuído de temor, disse: Que é isto, Senhor? Êle, porém, lhe respondeu: As tuas orações e as tuas esmolas subiram para ficarem em lembrança na presença de Deus.[3]SUBIRAM PARA FICAREM EM LEMBRANÇA — Não dava Cornélio esmolas, nem fazia orações, sem ter alguma fé; mas se êle pudesse ser salvo, sem a fé em Jesus Cristo, não seria mandado por arquiteto para o edificar o Apóstolo Pedro: Non sine aliqua fide donabat, et orabat Cornelius; sed si posset sine fide christi esse salvus, non ad eum aedificandum mitteretur architectus apostolus Petrus. Tal é a inteligência que no livro da Predestinação dos Santos, cap. 7, dá a êste lugar Santo Agostinho.
5Envia pois agora homens a Jope e faze vir aqui a um certo Simão, que tem por sobrenome Pedro:
6Êste se acha hospedado em casa dum certo Simão, curtidor de peles, cuja casa fica junta ao mar: Êle te dirá o que te convém fazer.
7E logo que se retirou o anjo que lhe falara, chamou a dois dos seus domésticos, e a um soldado temente a Deus, daqueles que estavam às suas ordens:
8E havendo-lhes contado tudo isto, os enviou a Jope.
9E no dia seguinte, indo êles seu caminho e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao alto da casa a fazer oração perto da hora de sexta.
10E como tivesse fome, quis comer. Mas ao tempo que lho preparavam, sobreveio-lhe um rapto de espírito:
11E viu o Céu aberto, e que descendo um vaso, como uma grande toalha, suspenso pelos quatro cantos, era feito baixar do Céu à terra.[4]SUSPENSO PELOS QUATRO CANTOS — Por êstes quatro cantos, ou quatro ângulos da toalha, se significava que a graça do Evangelho se estendia às quatro partes do mundo. Assim se entende no Sermão 3, sôbre o Sl 103. - Santo Agostinho.
12Na qual havia de todos os quadrúpedes, e dos réptis da terra, e das aves do Céu.
13E foi dirigida a êle uma voz, que lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come.
14E disse Pedro: Não, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum, nem imunda.
15E a voz lhe tornou segunda vez a dizer: Ao que Deus purificou não chames tu comum.
16E isto se repetiu até três vezes: E logo o vaso se recolheu ao céu.
17E enquanto Pedro entre si duvidava sôbre o que seria a visão: Eis que os homens, que tinha enviado Cornélio, perguntando pela casa de Simão, chegaram à porta.[5]A PORTA — A palavra empregada pelo texto designa a porta grande da casa.
18E havendo chamado, perguntavam se estava ali hospedado Simão, que tinha por sobrenome Pedro.
19E considerando Pedro na visão, lhe disse o espírito: Eis aí três homens que te procuram:
20Levanta-te pois, desce e vai com êles sem duvidar: Porque eu sou o que os enviei.
21E descendo Pedro para ir ter com os homens, lhes disse: Aqui me tendes, que eu sou a quem buscais: Qual é a causa por que aqui viestes?
22Responderam êles: O centurião Cornélio, homem justo e temente a Deus, e que disto mesmo logra o testemunho de tôda a nação dos judeus, recebeu resposta do santo anjo, que te mandasse chamar a sua casa, e que ouvisse as tuas palavras.
23Pedro pois, fazendo-os entrar, os hospedou. Levantando-se ao seguinte dia, partiu com êles: E alguns dos irmãos, que viviam em Jope, o acompanharam.
24E ao outro dia depois entrou em Cesaréia. E Cornélio os estava esperando, havendo convidado já aos seus parentes, e mais íntimos amigos.
25E aconteceu que quando Pedro estava para entrar, saiu Cornélio a recebê-lo: E prostrando-se a seus pés o adorou.
26Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te, que eu também sou homem.
27E entrou falando com êle, e achou muitos que haviam concorrido:
28E lhes disse: Vós sabeis como é coisa abominável para um homem judeu o juntar-se ou unir-se a um estrangeiro: Mas Deus me mostrou que a nenhum homem chamasse comum ou imundo.
29Por isso, sem duvidar, vim logo assim que fui chamado. Pergunto, pois, por que causa me chamaste?
30E disse Cornélio: Hoje faz quatro dias que estava orando em minha casa à hora de Noa, e eis que se me pôs diante um varão, vestido de branco, e me disse:[6]VESTIDO DE BRANCO — Era o hábito dos altos personagens, Lc 23, 11. Por isso também é estabelecido que o Sumo Pontífice vista de branco.
31Cornélio, a tua oração foi atendida, e as tuas esmolas foram lembradas na presença de Deus.
32Manda pois a Jope, e faze vir a um Simão, que tem por sobrenome Pedro; êle está hospedado em casa de Simão, curtidor de peles, à borda do mar.
33Em consequência disto, enviei logo a buscar-te, e tu fizeste bem em vir. Agora, porém, nós todos estamos na tua presença, para ouvir tôdas as coisas quantas o Senhor te ordenou que nos dissesses.
34Então Pedro abrindo a sua bôca, disse: Tenho na verdade alcançado que Deus não faz acepção de pessoas.
35Mas que em tôda a nação aquele que o teme e obra o que é justo, êsse lhe é aceito.
36Deus enviou a sua Palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a paz por meio de Jesus Cristo: (este é o Senhor de todos).
37Vós sabeis que a Palavra foi enviada por tôda a Judéia, pois começando desde a Galiléia, depois do batismo, que pregou João,
38sabeis que a Palavra mencionada é Jesus de Nazaré: Como Deus o ungiu do Espírito Santo e de virtude, o qual andou fazendo bem e sarando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com êle,
39E nós somos testemunhas de tudo quanto fez na região dos judeus e em Jerusalém, ao qual êles mataram, pendurando-o num madeiro.
40A êste ressuscitou Deus ao terceiro dia, e quis que se manifestasse,
41não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia ordenado antes: A nós, que comemos e bebemos com êle, depois que ressuscitou dentre os mortos.
42E nos mandou pregar ao povo, e dar testemunho de que êle é o que por Deus foi constituído Juiz de vivos e mortos.
43A êste dão testemunho todos os profetas, de que todos os que crêem nele recebem perdão dos pecados por meio do seu Nome.
44Estando Pedro ainda proferindo estas palavras, desceu o Espírito Santo sôbre todos os que ouviam a palavra.
45E se espantaram os fiéis que eram da circuncisão, os quais tinham vindo com Pedro, de verem que a graça do Espírito Santo foi também derramada sôbre os gentios.
46Porque êles os ouviam falar diversas línguas e engrandecer a Deus.
47Então respondeu Pedro: Porventura pode alguém impedir a água para que não sejam batizados êstes que receberam o Espírito Santo, assim também como nós?
48E mandou que êles fossem batizados em nome do Senhor Jesus Cristo. Então lhe rogaram que ficasse com êles por alguns dias.