Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

Paulo e Barnabé em Icônia. Convertem Aqui a Muitos. Os Judeus os Malquistam com os Gentios, e Levantam Contra Êles uma Sedição. Fogem os Dois para Licaônia. Paulo Cura a um Coxo de Nascença. O Povo Lhes Oferece Sacrifícios como Se Fossem Deuses. Estabelecem Igrejas em Muitos Lugares. Voltam para Antioquia.

1E aconteceu em Icônia, que entraram juntos na Sinagoga dos judeus, e que ali pregaram, de maneira que uma copiosa multidão de judeus e de gregos se converteu à Fé.[1]QUE UMA COPIOSA MULTIDÃOUm dêstes convertidos em Icônia foi a gloriosa Virgem e Mártir Santa Tecla, celebradíssima nos escritos dos Padres gregos e latinos dos primeiros séculos. Vejase Tillemont, Tom. 2, pág. 65, e seg.

2Mas os judeus que permaneceram incrédulos, concitaram e fizeram irritar os ânimos dos gentios contra seus irmãos.[2]SEUS IRMÃOSIsto é, os neoconversos, tanto do paganismo como do judaísmo.

3Por isso se demoraram ali muito tempo, trabalhando com confiança no Senhor, que dava testemunho à palavra da sua graça, concedendo que se fizessem por suas mãos prodígios e milagres.

4E se dividiu a multidão da gente da cidade: E assim uns eram pelos judeus, outros, porém, pelos Apóstolos.

5Mas como se tivesse levantado um motim dos gentios e dos judeus com os seus chefes, para os ultrajar e apedrejar,

6entendendo-o êles, fugiram para Listra e Derbe, cidades da Licaônia, e para tôda aquela comarca em circuito, e ali se achavam pregando o Evangelho.

7Ora em Listra residia um homem leso dos pés, coxo desde o ventre de sua mãe, o qual nunca tinha andado.[3]LISTRAA sul da Icônia e norte do monte Tauro, era pátria de Timóteo, discípulo de S. Paulo.

8Este homem ouviu pregar a Paulo. Paulo pôs nêle os olhos, e vendo que êle tinha fé de que seria curado,

9disse em alta voz: Levanta-te direito sôbre os teus pés. E êle saltou, e andava.

10Os do povo, porém, tendo visto o que fizera Paulo, levantaram a sua voz, dizendo em língua licaônica: Êstes são deuses que baixaram a nós em figura de homens.[4]DIZENDO EM LÍNGUA LICAÔNICASendo a Licaônia uma das províncias da Ásia Menor, onde a língua grega geralmente era a dominante, o notar aqui S. Lucas a língua licaônica parece que foi para significar um dialeto, que entre os mais gregos era algum tanto corrompido, ou menos puro, como mesclado talvez do síriaco. - Calmet.

11E chamavam a Barnabé Júpiter, e a Paulo Mercúrio, porque êle era o que levava a palavra.[5]E CHAMAVAM A BARNABÉ JÚPITERSão Barnabé devia de ser um homem de bom parecer, e de um talhe majestoso. S. Paulo distinguiu-se pela fôrça, e veemência de dizer, e não o recomendava a figura, como êle mesmo confessa que diziam alguns. 2 Cor. 10, 10. A majestade pois do semblante em S. Barnabé, e o ser S. Paulo quem falava por êle, deu motivo a que os gentios tivessem ao primeiro por Júpiter, ao segundo por Mercúrio. - Calmet.

12Também o sacerdote de Júpiter, que estava à entrada da cidade, trazendo para ante as portas touros e grinaldas, queria sacrificar com o povo.[6]TOUROS E GRINALDASQue houvessem de ornar a cabeça, ou do mesmo sacerdote, ou das vítimas, ou as de uns e outros. Plínio no liv. 16, cap. 4: Postea deorum honori sacrificantes sumpsere coronam, victimis simul coronatis. E Minúcio Félix no Otávio: Victimae ad supplicium saginatur, hostiae ad poenam coronantur. - Calmet.

13Mas os Apóstolos Barnabé e Paulo, quando isto ouviram, tendo rasgado as suas vestiduras, saltaram no meio das gentes, clamando,[7]TENDO RASGADO AS SUAS VESTIDURASCostume dos hebreus, quando viam fazer algum grande sacrilégio, ouviam dizer alguma grande blasfêmia. Eu o notei já em Mt 26, 65.

14e dizendo: Varões, por que fazeis isto? Nós também somos mortais, homens assim como vós, e vos pregamos, que destas coisas vãs vos convertais a Deus vivo, que fez o Céu, e a terra, e o mar, e tudo quanto há nêles:

15O que nos séculos passados permitiu a todos os gentios andar nos seus caminhos.

16E nunca se deixou por certo a si mesmo sem testemunho, fazendo bem lá do Céu, dando chuvas, e tempos favoráveis para os frutos, enchendo os nossos corações de mantimento e de alegria.

17E dizendo isto, apenas puderam apaziguar as gentes, para que lhes não sacrificassem.

18Então sobrevieram de Antioquia, e de Icônia alguns judeus: Os quais tendo ganhado para si a vontade do povo e apedrejando a Paulo, o trouxeram, arrastando-o fora da cidade, dando-o por morto.

19Mas rodeando-o os discípulos, e levantando-se êle, entrou na cidade, e ao dia seguinte partiu com Barnabé para Derbe.

20E tendo êles pregado o Evangelho àquela cidade, e ensinado a muitos, voltaram para Listra e Icônia e Antioquia,

21confirmando os corações dos discípulos, e exortando-os a perseverar na Fé: E que por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus.

22Por fim, tendo-lhes ordenado em cada igreja seus presbíteros e feito orações com jejuns, os deixaram encomendados ao Senhor, em quem tinham crido.[8]E FEITO ORAÇÕES COM JEJUNSDaqui aprendeu a Igreja o santo costume de não dar ordens, sem precederem orações, acompanhadas de jejuns, para impetrar de Deus a graça dos ordenandos desempenharem as obrigações de seu sagrado ministério.

23E atravessando a Pisídia foram a Panfília.[9]PISÍDIAProvíncia da Ásia Menor, situada a este pela Licaônia e Cilícia, ao sul pela Panfília, e a oeste e norte pela Frígia.

24E anunciando a palavra do Senhor em Perge, desceram a Atália:

25E dali navegaram para Antioquia, de onde haviam sido encomendados à graça de Deus, para a obra que concluíram.

26E havendo chegado e congregado a igreja, contaram quão grandes coisas havia Deus feito com êles, e como havia aberto a porta da Fé aos gentios.

27E se detiveram com os discípulos não pouco tempo.

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