Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 8

Salmo gratulatório. Davi neste Salmo engrandece a admirável Providência, que Deus usou com o homem, tanto na sua primeira criação como na sua renovação por meio de Jesus Cristo.

1Ao regente do côro. Com acompanhamento da cítara de Get, salmo de Davi.[1]Cítara de GetParece ser esta a significação da palavra Githith, que a Vulgata verteu Pro torcularibus e o Pe. Pereira por 'lagares', o que evidentemente não faz sentido. É verdade que se não pode julgar de todo o ponto certa esta tradução (Vigouroux, Manuel Biblique) porém é a que se aproxima mais da verdade. Cítara de Get, tanto pode ser a Cítara usada em Get, ou significar a música que se cantava naquela cidade dos filisteus, que Davi tinha habitado. Explicavam os comentadores a tradução da Vulgata, feita sôbre os Setenta, que êste Salmo tinha sido composto para ser cantado nas vindimas. Mas a êste propósito adverte judiciosa e engraçadamente o nosso Pe. Sousa Caldas, que traduziu em verso os Salmos de Davi, na nota a êste Salmo: 'No seu título lê-se salmo de Davi para os lagares. Não percebo a relação que tem êste título com o objeto do Salmo.' Os modernos exegetas dão-nos a tradução que apresentamos, fundada em boas razões, e que torna inteligível o título do Salmo. Começa e termina da mesma sorte, com dois versos, e além destas quatro estrofes de quatro versos. 'Êste poema, escreve Reuss, tão despretensioso, não precisa de comentário algum. É sublime pela sua simplicidade. Põe-se em relêvo a grandeza de Deus revelada pelo universo, obra das suas mãos, e manifestado pelas próprias criaturas o papel que o homem desempenha, rodeado de todos êstes sêres.' — Le Psautier, p. 77.

2Senhor, nosso dominador soberano, quão admirável é o teu nome em tôda a terra! — Porque a tua magnificência se elevou sôbre os céus.

3Tu fizeste sair da bôca dos infantes e dos que mamam um louvor perfeito, por causa de teus inimigos, para destruíres ao inimigo e o vingativo.[2]Tu fizeste sair da bôca dos infantesÊste lugar acomodou Cristo a si, em ocasião em que com efeito o louvavam os meninos de Jerusalém. Mt 21, 16. — Bossuet.

4Porque eu hei de ver os teus céus, obra dos teus dedos: A lua e as estrelas que tu estabeleceste.

5Que é o homem, para tu te lembrares dêle? ou que é o filho do homem para tu o visitares?

6Pouco menor o fizeste que os anjos, de glória e de honra o coroaste:

7E tu o puseste sôbre as obras das tuas mãos.

8Tôdas as coisas sujeitaste debaixo de seus pés, as ovelhas e as vacas tôdas: E além dêstes os outros animais do campo.[3]Tôdas as coisasS. Paulo, Hebr 2, 5, nos ensina que isto só a Cristo convém perfeitamente. — Bossuet.

9As aves do Céu, e os peixes do mar, que discorrem pelas veredas do mar.

10Senhor, nosso dominador soberano, que admirável é o teu nome em tôda a terra!

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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