Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 62

Salmo deprecatório. Davi perseguido, e apartado do tabernáculo do Senhor, mostra os grandes desejos que tem de voltar à sua vista. Explica as consolações que recebia do Senhor. E anuncia a ruína dos seus inimigos. Salmo de Davi,

1Quando estava no deserto da Iduméia. (1 Rs 22, 5.)[1]IduméiaIDUMÉIA — A Vulgata seguindo os Setenta traz Iduméia, mas Judá é o que se lê em Eutímio, e nos mais autorizados manuscritos. Êste salmo é uma prece que Davi dirige ao Senhor pela manhã, e como tal foi usada pela primitiva Igreja. Constituições Apostólicas, 8, 37. S. João Crisóstomo chama-lhe o salmo da manhã, e diz dêle: Accendit in Deum desiderium, et animum excitat, ac postquam valde inflammavit, magnaque replevit laetitia et caritate, ita permittit accedere. Expositio, in Sl 140, 54. Quando se organizou o breviário romano a Igreja determinou que êste salmo fôsse rezado nas Laudes. O assunto é fácil de compreender. Davi, obrigado a refugiar-se num árido deserto para escapar à cólera do seu inimigo, pede a proteção de Deus e o castigo para os maus. Tem seis estrofes.

2Ó Deus, ó meu Deus, em ti estou vigilante desde o raiar da luz.
De ti tem sêde a minha alma, a minha carne por ti suspira.[2]De ti tem sêdeDE TI TEM SÊDE — Sente a minha alma uma sêde tão ardente de ti, que se comunicam os seus efeitos ainda ao mesmo corpo. — P. Scio.

3Nesta terra deserta, e sem caminho, e sem água: Porque em teu santuário te contemplei, vi o teu poder, e a tua glória.

4Porque a tua misericórdia é melhor que a mesma vida: Os meus lábios te louvarão.

5Assim te bendirei em minha vida: E invocando o teu nome levantarei as minhas mãos.

6Como de banha e de gordura será farta a minha alma: E com lábios de júbilo te louvará a minha bôca,[3]De banha e gorduraDE BANHA E GORDURA — Mantivemos a tradução do Padre Pereira no texto, que assim verteu a Vulgata adipe et pinguedine. Não nos devemos porém esquecer que se trata de verso, empregada a linguagem poética. As palavras que estão no original, correspondentes a estas baleie e dashen, em sentido próprio têm esta significação, em sentido metafórico significam a excelência de bondade e abundância que sacia por completo: optimum cujus rei, fecunditas, fertilitas. Desta sorte o sentido dêste versículo é êste: De opulência a abundância será farta a minha alma. É modo de dizer enfático e metafórico, corresponde a "ficar-se-á tão saciado, como aquêle que se alimenta com suavíssimo e abundantíssimo manjar." Duae voces idem significantes ad majorem euphasim: q. d. Tamquam suavissimo cibo; nam pinguis cibus gratior et suavior: h. e. Omne voluptate perfundetur animus. — Menóquio.

7quando me tenho lembrado de ti sôbre o meu leito passo as minhas madrugadas meditando em ti;

8Porque fôste meu defensor.
E à sombra das tuas asas exultei,

9a minha alma vai unida após de ti: A tua destra me fortalece.

10Mas êles em vão procuram tirar-me a vida, entrarão nas profundidades da terra:

11Serão entregues nas mãos da espada, prêsa serão das rapôsas.[4]Prêsa serãoPRÊSA SERÃO — Põem a espécie pelo gênero; porquanto a Judéia e a Palestina abundavam de rapôsas, como se vê pelas trezentas que ajuntou Sansão. O sentido é êste: Os que me perseguem em vão me buscam para me oprimir; antes de o conseguir ou baixarão vivos aos abismos, ou perecerão ao fio da espada; e os seus cadáveres ficarão sem sepultura, para pasto das feras. — Pereira.

12Mas o rei se alegrará em Deus, louvados serão todos os que juram por êle: Pois se fechou a bôca aos que falam coisas iníquas.[5]O reiO REI — Muitos críticos, por causa desta palavra, pretendem que êste salmo não pode ser do tempo da perseguição de Saul; adverte Vigouroux que não é impossível que Davi, depois de ter sido sagrado por Samuel, tivesse desde logo tomado o titulo de rei, e que usasse entre os seus de semelhante predicamento, e que êstes jurassem por êle. Manuel Biblique.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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