Capítulo 88
1Salmo didático de Etan ezraita.[1]Etan — ETAN — Os Setenta têm Etan Israelita. Os Par 1, 2, citam um Etan, filho de Zaré, de quem se diz no 3 Rs 4, 34, que eram menos sábios do que Salomão. Porém alguns comentadores sustentam que êste salmo devia ter sido composto durante a revolta de Absalão, ou na época da invasão de Sesac, rei do Egito, ou na de Senaquerib, ou ainda nos reinados de Jeconias e Sedecias. Vigouroux opina pelo tempo da invasão de Sesac, Faraó do Egito, no tempo de Roboão 3 Rs 14; 2 Par 12. Tem três partes muito distintas: 1.ª (2-19). O salmista celebra os benefícios de Deus para com a casa de Davi. 2.ª (20-38). Lembra as promessas divinas à família real. 3.ª (39-52). Descreve o quadro da desolação em que estava o reino e implora a salvação. Tem 25 estrofes. O vers. 53 é a doxologia que termina o livro da coleção dos salmos.
2Eu cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.
Anunciarei a tua verdade pela minha bôca de geração em geração.
3Porquanto disseste: A misericórdia será estabelecida para sempre nos céus: Estará preparada nêles a tua verdade.
4Tenho feito aliança com os meus escolhidos, jurei a Davi meu servo:
5Para sempre estabelecerei a tua descendência.
E farei firme o teu trono de geração em geração.
6Os céus celebrarão, Senhor, as tuas maravilhas: E a tua verdade se louvará na Igreja dos Santos.
7Porque nas nuvens quem se igualará com o Senhor: Quem entre os filhos de Deus será semelhante a Deus?
8Deus que é glorificado na congregação dos santos: Grande e terrível sôbre todos os que estão em roda dêle.
9Senhor Deus das virtudes, quem é semelhante a ti? poderoso és Senhor e a tua verdade está sempre em roda de ti.
10Tu dominas sôbre o poder do mar: E tu amansas o movimento das suas ondas.
11Tu humilhaste ao soberbo assim como um ferido: Com o braço do teu poder puseste em dispersão a teus inimigos.[2]Ao soberbo — AO SOBERBO — Entende Faraó submergido nas ondas. — Pereira.
12Teus são os céus, e tua é a terra: A redondeza da terra e a sua plenitude a fundaste:
13O Aquilão, e o Mar tu o criaste.
O Tabor e o Hermon em teu Nome saltarão de contentamento:[3]O Tabor e o Hermon — O TABOR E O HERMON — Cordilheira ao norte da Palestina.
14O teu braço está cheio de poder.
Firmada seja a tua mão, e exaltada a tua destra:
15Justiça e equidade são a base do teu trono.
Misericórdia e verdade irão diante da tua face:
16Bem-aventurado o povo que sabe louvar-te com júbilo.
Senhor, no lume do teu rosto andarão.
17E em teu Nome se regozijarão todo o dia: E na tua justiça serão exaltados.
18Porque tu és a glória da sua virtude: E por tua boa vontade será exaltado o nosso poder.
19Porque o Senhor nos tem tomado sob sua proteção: E o Santo de Israel é nosso Rei.[4]Sob sua proteção — SOB SUA PROTEÇÃO — Estas palavras não estão na Vulgata, nem nos Setenta, mas estão indicadas no original hebraico, onde à letra se lê: Porque Iahvéh é o nosso escudo, e o Santo de Israel nosso rei: ora em hebreu escudo toma-se por protetor e significa proteção.
20Então falaste em visão aos teus Santos, e lhes disseste: Eu tenho pôsto o socorro em um poderoso: E tenho exaltado a um escolhido do meu povo.[5]Aos teus Santos — AOS TEUS SANTOS — Os profetas Samuel, Natan e Gad.
21Achei a Davi meu servo: Com o meu santo óleo o ungi.
22Porque a minha mão lhe assistirá a êle: E o meu braço o confortará.
23Nada adiantará o inimigo nêle, e o filho da iniquidade não poderá ofendê-lo.
24E quebrantarei diante dêle a seus inimigos: E aos que o aborrecem porei em fuga.
25E a minha verdade, e a minha clemência serão com êle: E no meu Nome será exaltado o seu poder.
26E estenderei a sua mão sôbre o mar: E a sua destra sôbre os rios.[6]Rios — RIOS — Do Mediterrâneo ao Eufrates. Boulleret.
27Êle me invocará, dizendo: Tu és meu Pai: Deus meu, e amparador da minha salvação:
28E eu o estabelecerei por primogénito excelso sôbre os reis da terra.
29Eternamente o guardará a minha misericórdia: E a minha aliança será estável com êle.
30E farei que a sua descendência subsista por todos os séculos: E o seu trono como os dias do Céu.[7]Como os dias do Céu — COMO OS DIAS DO CÉU — Enquanto durarem os céus. A estirpe de Davi nem reina sôbre a terra, nem quase é conhecida no mundo por haver faltado há muitos séculos, mas a posteridade espiritual de Cristo vive sempre, e o seu reino não terá fim, Lc 1, 53. — P. Scio e Glaire.
31Mas se seus filhos abandonarem a minha lei: E não andarem nos meus preceitos:
32Se violarem as minhas justiças, e não guardarem os meus mandamentos.
33Visitarei com vara as suas maldades: E com açoites os seus pecados.
34Mas não apartarei dêle a minha misericórdia: Nem lhe faltarei em minha verdade:
35Nem violarei a minha aliança: Nem farei vãs as promessas que saem dos meus lábios.
36Uma vez jurei pela minha santidade, não faltarei a Davi:
37A sua descendência permanecerá eternamente.
38E o seu trono será para sempre como o sol diante de mim, e como a lua cheia: E como o testemunho fiel no céu.
39Mas tu repeliste, e desprezaste: Afastaste o teu Cristo.[8]O teu Cristo — O TEU CRISTO — Segundo uns êste versículo refere-se a Sedecias, último rei de Judá, conduzido ao cativeiro, e morto na Babilónia; outros ao Messias, que devia libertar a nação judaica.
40Transtornaste a aliança do teu servo: Tens pôsto por terra o seu santuário.
41Destruíste todos os seus valados: Puseste medo na sua fortaleza.
42Despojaram-no todos os que passavam pelo caminho: Chegou a ser o opróbrio dos seus vizinhos.
43Exaltaste a destra dos que o humilhavam: Alegraste a todos os seus inimigos.
44Apartaste a defensa da tua espada: E não o auxiliaste na batalha.
45Fizeste cessar o seu esplendor: E derribaste por terra o seu trono.
46Abreviaste os dias do seu tempo: Cobriste-o de confusão.
47Que acaso estarás apartado, Senhor, até ao fim: Escandecer-se-á como fogo a tua ira?
48Lembra-te de qual é a minha subsistência: Pois que, acaso criaste em vão todos os filhos dos homens?
49Que homem há, que viva, e não veja a morte: Que haja de livrar a sua alma do poder do inferno?
50Onde estão as tuas antigas misericórdias, Senhor, as que juraste a Davi na tua verdade?
51Lembra-te, Senhor, do opróbrio que os teus servos têm sofrido de muitas nações, o qual eu tenho depositado no meu seio.
52Lembra-te Senhor do que disseram contra nós os teus inimigos, quanto nos insultaram na aflição do teu Cristo.[9]Na aflição do teu Cristo — NA AFLIÇÃO DO TEU CRISTO — Traduzimos segundo o sentido que a êste versículo dá Boulleret, ob. cit.
53Bendito seja o Senhor para sempre: Assim seja, assim seja.