Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 88

Salmo deprecatório e didático. Perpetuidade do reino que Deus prometeu a Davi, o qual havia de ter seu cumprimento, não no reino terreno de Davi, senão no Messias, por cuja vinda roga o profeta.

1Salmo didático de Etan ezraita.[1]EtanETAN — Os Setenta têm Etan Israelita. Os Par 1, 2, citam um Etan, filho de Zaré, de quem se diz no 3 Rs 4, 34, que eram menos sábios do que Salomão. Porém alguns comentadores sustentam que êste salmo devia ter sido composto durante a revolta de Absalão, ou na época da invasão de Sesac, rei do Egito, ou na de Senaquerib, ou ainda nos reinados de Jeconias e Sedecias. Vigouroux opina pelo tempo da invasão de Sesac, Faraó do Egito, no tempo de Roboão 3 Rs 14; 2 Par 12. Tem três partes muito distintas: 1.ª (2-19). O salmista celebra os benefícios de Deus para com a casa de Davi. 2.ª (20-38). Lembra as promessas divinas à família real. 3.ª (39-52). Descreve o quadro da desolação em que estava o reino e implora a salvação. Tem 25 estrofes. O vers. 53 é a doxologia que termina o livro da coleção dos salmos.

2Eu cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.
Anunciarei a tua verdade pela minha bôca de geração em geração.

3Porquanto disseste: A misericórdia será estabelecida para sempre nos céus: Estará preparada nêles a tua verdade.

4Tenho feito aliança com os meus escolhidos, jurei a Davi meu servo:

5Para sempre estabelecerei a tua descendência.
E farei firme o teu trono de geração em geração.

6Os céus celebrarão, Senhor, as tuas maravilhas: E a tua verdade se louvará na Igreja dos Santos.

7Porque nas nuvens quem se igualará com o Senhor: Quem entre os filhos de Deus será semelhante a Deus?

8Deus que é glorificado na congregação dos santos: Grande e terrível sôbre todos os que estão em roda dêle.

9Senhor Deus das virtudes, quem é semelhante a ti? poderoso és Senhor e a tua verdade está sempre em roda de ti.

10Tu dominas sôbre o poder do mar: E tu amansas o movimento das suas ondas.

11Tu humilhaste ao soberbo assim como um ferido: Com o braço do teu poder puseste em dispersão a teus inimigos.[2]Ao soberboAO SOBERBO — Entende Faraó submergido nas ondas. — Pereira.

12Teus são os céus, e tua é a terra: A redondeza da terra e a sua plenitude a fundaste:

13O Aquilão, e o Mar tu o criaste.
O Tabor e o Hermon em teu Nome saltarão de contentamento:[3]O Tabor e o HermonO TABOR E O HERMON — Cordilheira ao norte da Palestina.

14O teu braço está cheio de poder.
Firmada seja a tua mão, e exaltada a tua destra:

15Justiça e equidade são a base do teu trono.
Misericórdia e verdade irão diante da tua face:

16Bem-aventurado o povo que sabe louvar-te com júbilo.
Senhor, no lume do teu rosto andarão.

17E em teu Nome se regozijarão todo o dia: E na tua justiça serão exaltados.

18Porque tu és a glória da sua virtude: E por tua boa vontade será exaltado o nosso poder.

19Porque o Senhor nos tem tomado sob sua proteção: E o Santo de Israel é nosso Rei.[4]Sob sua proteçãoSOB SUA PROTEÇÃO — Estas palavras não estão na Vulgata, nem nos Setenta, mas estão indicadas no original hebraico, onde à letra se lê: Porque Iahvéh é o nosso escudo, e o Santo de Israel nosso rei: ora em hebreu escudo toma-se por protetor e significa proteção.

20Então falaste em visão aos teus Santos, e lhes disseste: Eu tenho pôsto o socorro em um poderoso: E tenho exaltado a um escolhido do meu povo.[5]Aos teus SantosAOS TEUS SANTOS — Os profetas Samuel, Natan e Gad.

21Achei a Davi meu servo: Com o meu santo óleo o ungi.

22Porque a minha mão lhe assistirá a êle: E o meu braço o confortará.

23Nada adiantará o inimigo nêle, e o filho da iniquidade não poderá ofendê-lo.

24E quebrantarei diante dêle a seus inimigos: E aos que o aborrecem porei em fuga.

25E a minha verdade, e a minha clemência serão com êle: E no meu Nome será exaltado o seu poder.

26E estenderei a sua mão sôbre o mar: E a sua destra sôbre os rios.[6]RiosRIOS — Do Mediterrâneo ao Eufrates. Boulleret.

27Êle me invocará, dizendo: Tu és meu Pai: Deus meu, e amparador da minha salvação:

28E eu o estabelecerei por primogénito excelso sôbre os reis da terra.

29Eternamente o guardará a minha misericórdia: E a minha aliança será estável com êle.

30E farei que a sua descendência subsista por todos os séculos: E o seu trono como os dias do Céu.[7]Como os dias do CéuCOMO OS DIAS DO CÉU — Enquanto durarem os céus. A estirpe de Davi nem reina sôbre a terra, nem quase é conhecida no mundo por haver faltado há muitos séculos, mas a posteridade espiritual de Cristo vive sempre, e o seu reino não terá fim, Lc 1, 53. — P. Scio e Glaire.

31Mas se seus filhos abandonarem a minha lei: E não andarem nos meus preceitos:

32Se violarem as minhas justiças, e não guardarem os meus mandamentos.

33Visitarei com vara as suas maldades: E com açoites os seus pecados.

34Mas não apartarei dêle a minha misericórdia: Nem lhe faltarei em minha verdade:

35Nem violarei a minha aliança: Nem farei vãs as promessas que saem dos meus lábios.

36Uma vez jurei pela minha santidade, não faltarei a Davi:

37A sua descendência permanecerá eternamente.

38E o seu trono será para sempre como o sol diante de mim, e como a lua cheia: E como o testemunho fiel no céu.

39Mas tu repeliste, e desprezaste: Afastaste o teu Cristo.[8]O teu CristoO TEU CRISTO — Segundo uns êste versículo refere-se a Sedecias, último rei de Judá, conduzido ao cativeiro, e morto na Babilónia; outros ao Messias, que devia libertar a nação judaica.

40Transtornaste a aliança do teu servo: Tens pôsto por terra o seu santuário.

41Destruíste todos os seus valados: Puseste medo na sua fortaleza.

42Despojaram-no todos os que passavam pelo caminho: Chegou a ser o opróbrio dos seus vizinhos.

43Exaltaste a destra dos que o humilhavam: Alegraste a todos os seus inimigos.

44Apartaste a defensa da tua espada: E não o auxiliaste na batalha.

45Fizeste cessar o seu esplendor: E derribaste por terra o seu trono.

46Abreviaste os dias do seu tempo: Cobriste-o de confusão.

47Que acaso estarás apartado, Senhor, até ao fim: Escandecer-se-á como fogo a tua ira?

48Lembra-te de qual é a minha subsistência: Pois que, acaso criaste em vão todos os filhos dos homens?

49Que homem há, que viva, e não veja a morte: Que haja de livrar a sua alma do poder do inferno?

50Onde estão as tuas antigas misericórdias, Senhor, as que juraste a Davi na tua verdade?

51Lembra-te, Senhor, do opróbrio que os teus servos têm sofrido de muitas nações, o qual eu tenho depositado no meu seio.

52Lembra-te Senhor do que disseram contra nós os teus inimigos, quanto nos insultaram na aflição do teu Cristo.[9]Na aflição do teu CristoNA AFLIÇÃO DO TEU CRISTO — Traduzimos segundo o sentido que a êste versículo dá Boulleret, ob. cit.

53Bendito seja o Senhor para sempre: Assim seja, assim seja.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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