Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 104

Salmo de ação de graças, pelos benefícios feitos por Deus ao povo de Israel, desde Abraão até Moisés.

Aleluia. (1 Par 16, 18.)[1]AleluiaALELUIA — Êste têrmo, que daqui em diante se encontra na Vulgata à testa de outros muitos salmos, vale o mesmo que "Louvai ao Senhor." Quanto aos primeiros quinze versículos, é êste salmo indubitàvelmente de Davi, e composto na trasladação da arca para Sião, porque assim consta do livro 1 Par 16, 8 ss, onde se referem os ditos primeiros quinze versículos dêle. Quanto aos mais que se seguem, é Calmet de parecer que êles foram acrescentados depois, quando o povo judaico voltou do cativeiro de Babilónia para Jerusalém. De Carrières o dá todo por obra de Davi. Resume a história de Israel e por isso se citam entre parênteses os lugares que narram os fatos a que o salmo alude, e tem nove estrofes.

1Louvai ao Senhor, e invocai o seu nome: Anunciai entre as gentes as suas obras.

2Cantai-lhe, e dizei-lhe salmos: Narrai tôdas as suas maravilhas.

3Gloriai-vos em seu santo Nome: Alegre-se o coração dos que buscam ao Senhor.

4Buscai ao Senhor, e fortificai-vos: Buscai sempre a sua face.

5Lembrai-vos das suas maravilhas, que fêz: De seus prodígios, e dos juízos que pronunciou com a sua bôca.[2]Que pronunciouQUE PRONUNCIOU — As leis que o Senhor deu ao seu povo, ou também as ameaças que pronunciaram os seus lábios contra os prevaricadores da sua lei. — Pereira.

6Vós, ó descendentes de Abraão, que sois seus servos: Vós, ó filhos de Jacó, seus escolhidos.

7Êle é o Senhor nosso Deus: Os seus juízos se executarão em tôda a terra.

8Êle se lembrou para sempre da sua aliança: E da palavra, que enviou para mil gerações:[3]Para mil geraçõesPARA MIL GERAÇÕES — Êle mesmo é o que não se esquece, nem jamais se esquecerá do tratado que concertou, e da promessa que fêz para todos os séculos vindouros. — P. Seio.

9Daquela que deu a Abraão: E do juramento que fêz a Isaac: (Gên 22, 16).

10E o confirmou a Jacó por estatuto: E a Israel para que fôsse uma aliança eterna:

11Dizendo: A ti te darei a terra de Canaã, repartimento da vossa herança.

12Quando eram em curto número, mui poucos e estrangeiros nesta terra:[4]E estrangeiros nesta terraE ESTRANGEIROS NESTA TERRA — São chamados estrangeiros, porque eram oriundos da Caldéia e da Mesopotâmia.

13E passaram de gente em gente, e de um reino a outro povo.

14Não permitiu que alguém os ofendesse: E castigou por causa dêles aos reis.

15Não toqueis os meus ungidos: E não maltrateis aos meus profetas. (2 Rs 1, 14).[5]Não toqueis os meus ungidosNÃO TOQUEIS OS MEUS UNGIDOS — Fala Deus aqui dos três patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, aos quais chama Ungidos seus, na qualidade de sacerdotes e profetas, que eram do mesmo Senhor. Os nossos padres godos do quarto concílio de Toledo o entenderam dos Reis, os quais noutras Escrituras também se acham chamados Ungidos e Cristos. Gregório XVI aplicou êste versículo na Alocução pronunciada no consistório de 8 de outubro de 1883.

16E chamou a fome sôbre a terra: E quebrantou tôda a fôrça do pão.

17Enviou diante dêles um varão: A José que foi vendido por escravo. (Gên 37, 36.)

18Apertaram com grilhões seus pés, o êrro traspassou a sua alma (Gên 39, 20)

19até que foi cumprida a profecia dêle.
A palavra do Senhor o havia inflamado:

20Enviou o rei, e o soltou; o príncipe dos povos, e lhe deu a liberdade. (Gên 41, 14).

21Constituiu-o senhor da sua casa: E por príncipe de tudo o que possuía.

22Para que desse luz aos grandes como a si mesmo: E ensinasse a prudência aos seus Anciãos.

23E entrou Israel no Egito: E foi Israel estrangeiro em a terra de Cam. (Gên 46, 6).[6]A terra de CamA TERRA DE CAM — É o Egito assim chamado, porque Cam, filho de Noé, habitou nessa região povoada depois pelo seu segundo filho Mesraim. Os egípcios chamam também ao seu país Chemi.

24E aumentou o seu povo em grande maneira: E o fêz forte sôbre os seus inimigos. (Êx 1, 7; At 7, 17).

25Transtornou o coração dos egípcios para que aborrecessem o seu povo: E usassem de enganos com os seus servos.

26Enviou a Moisés seu servo: A Aarão, o mesmo que êle escolheu. (Êx 3, 10; 4, 29).

27Pôs nêles as palavras de seus sinais, e prodígios na terra de Cam. (Êx 7, 10).

28Enviou trevas, e difundiu escuridade: E não tornou vãs as suas palavras. (Êx 10, 21).

29Converteu-lhes as águas em sangue: E matou os seus peixes. (Êx 7, 20).

30A sua terra produziu rãs até nas câmaras dos mesmos reis. (Êx 8, 8).

31Disse, e vieram moscas de tôdas as castas: E mosquitos em todos os seus limites. (Êx 8, 16-24).

32Mudou as suas chuvas em granizo: Lançou um fogo abrasador na terra dêles.

33E feriu as suas vinhas, e os seus figueirais: E quebrou as árvores que havia nos seus limites.

34Disse, e vieram gafanhotos, e alfôrra, em tanta cópia que não tinha número: (Êx 10, 12).

35E comeu tôda a erva na terra dêles. E comeu todo o fruto na terra dêles.

36E feriu a todos os primogénitos na terra dêles: As primícias de todo o seu trabalho. (Êx 12, 29).

37E conduziu-os com prata e com ouro: E não havia enfêrmo nas tribos dêles. (Êx 12, 35).

38Alegrou-se o Egito na partida dêles: Porque estava preocupado do temor que lhes tinha.

39Estendeu uma nuvem que os cobrisse, e fogo que os alumiasse de noite. (Êx 13, 21).

40Pediram, e vieram codornízes: E do pão do Céu os saciou. (Êx 16, 13).

41Fendeu a pedra, e manaram águas: Correram rios em lugar sêco: (Núm 20, 11).

42Porque teve em memória a sua santa palavra, a qual êle havia dado a Abraão seu servo. (Gên 17, 7).

43E tirou o seu povo com regozijo, e aos seus escolhidos com alegria.

44E deu-lhes as terras das nações: E desfrutaram o trabalho de outros povos:

45Para que guardassem os seus mandamentos, e buscassem a sua lei.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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