Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 89

Salmo didático. O profeta representa ao Senhor a fraqueza do homem, e a vaidade da sua vida; e implora a divina misericórdia sobre o seu povo.

1Oração de Moisés homem de Deus.
Senhor, tu tens sido o nosso refúgio: De geração em geração.[1]Oração de MoisésÊste salmo parece ser o mais antigo da coleção, talvez cantado pelo povo de Israel após o Êxodo e conservado na memória das gerações que sucederam. Alguns comentadores atribuíram êste salmo a um dos descendentes de Moisés, mas a opinião geralmente seguida dá-lhe como autor o próprio Moisés. A análise do texto, o estilo antigo, os arcaísmos freqüentes, a sua semelhança com a linguagem do Pentateuco, tudo levou os mais abalisados hebraizantes a considerá-lo como tendo por autor o legislador do povo de Deus. Permanecendo por tantos tempos na tradição oral necessàriamente devia alterar-se o texto primitivo. Foi composto depois do Senhor ter condenado os israelitas pelas suas contínuas revoltas, anunciando-lhes que todos aquêles que tivessem atingido os 20 anos, no momento da saída do Egito, pereceriam no deserto. Tem três estrofes. Primeira (1-6). Contraste entre a brevidade da vida do homem e a eternidade de Deus. Segunda (7-11). São os pecados do homem que abreviam os seus dias atraindo o castigo de Deus. Terceira (12-17). Oração a Deus rogando-lhe que tenha piedade dos seus servos.

2Antes que os montes fôssem feitos, ou formada a terra, e a sua redondeza: Desde a eternidade tu és Deus.

3Não reduzas o homem ao abatimento; pois disseste: Convertei-vos, filhos dos homens.

4Porque mil anos aos teus olhos, são como o dia de ontem, que passou.
E como vigia na noite,

5coisas que em nada se estimam, assim serão os anos dêles.

6De manhã passa como a erva, pela manhã floresce, e passa; à tarde cai, endurece, e se seca.

7Porque desfalecemos com a tua ira, e com o teu furor somos turbados.

8Puseste as nossas maldades à tua vista: O nosso século ao resplendor do teu rosto.

9Porque todos os nossos dias faltaram: E temos sido consumidos pela tua ira:
Os nossos anos como aranha serão considerados:[2]Como aranhaCOMO ARANHA — A aranha passa a sua existência a tecer uma teia tenuíssima e tão frágil, que o menor movimento a destrói; assim é também a nossa vida.

10Os dias da nossa vida são em si setenta anos.
E nos mais robustos oitenta anos: E o que passa destes não é mais que trabalho e dor.
Porque sobreveio mansidão: E seremos arrebatados.[3]E seremos arrebatadosE SEREMOS ARREBATADOS — Outros mais conformes com os Setenta vertem: "seremos admoestados" com males temporais, que nos farão abrir os olhos para que nos livremos das penas eternas. — P. Scio.

11Quem conheceu o poder da tua ira: E soube contar quão terrível é a tua sanha?

12Faze que seja assim conhecida a tua destra: E que o nosso coração seja instruído em sabedoria.

13Volta-te para nós, Senhor, até quando? e sê inexorável aos teus servos.

14Temos sido cheios da tua misericórdia desde a manhã: E nos temos regozijado, e deleitado em todos os nossos dias.

15Alegramo-nos pelos dias que nos humilhaste: Pelos anos em que vimos males.

16Põe os olhos nos teus servos, e nas tuas obras: E encaminha os filhos dêles.

17E seja o esplendor do Senhor nosso Deus sôbre nós, e encaminha as obras de nossas mãos sôbre nós: E encaminha a obra de nossas mãos.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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