Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 26

Salmo deprecatório. Davi protesta que a fé que tem no Senhor o põe a salvo do terror que lhe poderiam causar os seus inimigos, e mostra o ardente desejo que tem de habitar sempre no Templo.

1Salmo de Davi antes de ser ungido. O Senhor é a minha luz, e a minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o defensor da minha vida, de quem tremerei?[1]Antes de ser ungidoEstas palavras não estão no original, mas mostram que êste Salmo foi composto antes da submissão de Israel. Tem duas partes e compreende onze estrofes. Primeira parte: É como que o cântico de confiança triunfante. 1.ª estrofe (1). Davi não teve mêdo, porque Deus é o seu protetor; — 2.ª (2). Os seus inimigos caem por terra quando o atacam; — 3.ª (3). Sempre cheio de confiança, ainda que se levantem exércitos contra êle; — 4.ª (4). Só pede uma coisa, estar junto da arca; — 5.ª (5 e 6). Deus recolhe-o em seu tabernáculo, onde estará forte como um rochedo; — 6.ª (6). Onde estará superior aos ataques dos inimigos e onde louvará ao Senhor. Segunda parte: É o cântico da confiança suplicante; — 7.ª (7 e 8). Que Deus ouça a sua oração; — 8.ª (9). Que não o abandone; — 9.ª (10 e 11). Que o guie, visto não ter pai nem mãe; — 10.ª (11 e 12). Que o não entregue aos seus inimigos; — 11.ª (13 e 14). Em Deus confia, e firme espera o auxílio do Senhor.

2Enquanto se chegam a mim os daninhos, para comer as minhas carnes: Êstes meus inimigos que me angustiam, êles mesmos se debilitaram e caíram.

3Ainda que se levantem exércitos contra mim, não temerá o meu coração. Ainda quando se levante batalha contra mim, nisto mesmo esperarei eu.

4Uma só coisa pedi ao Senhor, esta tornarei a pedir, que habite eu na casa do Senhor todos os dias da minha vida. Para ver as delícias do Senhor, e visitar o seu templo.

5Porquanto me escondeu no seu tabernáculo; no dia dos males me pôs a coberto no escondido do seu tabernáculo.[2]No dia dos malesO hebreu lê todo o texto que se segue no futuro. Porquanto me esconderás, etc. — Sacy.

6Na pedra me exaltou: E agora tem exaltado a minha cabeça sôbre os meus inimigos. Dei voltas, e sacrifiquei no seu tabernáculo hóstia com vozes de júbilo: cantarei, e direi salmo ao Senhor.[3]Dei voltasNo hebreu se lê esta palavra unida com a precedente, dêste modo: E agora exalçará a minha cabeça sôbre os meus inimigos que me cercam, ou que estão em roda de mim. — Bossuet e De Carrières.

7Ouve, Senhor, a minha voz, com que clamei a ti: tem compaixão de mim, e ouve-me.

8O meu coração te falou a ti, os meus olhos te buscaram: teu rosto hei-de buscar, Senhor.

9Não apartes de mim a tua face. E não te retires do teu servo na tua ira. Sê minha ajuda: Não me deixes, nem me desprezes, ó Deus meu Salvador.

10Porque meu pai, e minha mãe me deixaram: Mas o Senhor me recolheu.[4]Porque meu pai e minha mãe me deixaramIsto pode entender-se de quando, havendo corrido a êle seu pai, sua mãe e todos os seus, se viu na precisão de os deixar em Masfa, debaixo da proteção dos moabitas, e de voltar logo só a Odolão, de onde teve que sair pouco depois por insinuação do profeta Gad. 1 Rs 22, 3. 4. 5. Ou em sentido figurado, com esta expressão se considerava Davi como um órfão destituído de todo o socorro humano; e neste conceito esperava únicamente do Senhor todo o auxílio, como o explica, com outros, Calmet.

11Prescreve-me, Senhor, a lei no teu caminho: E guia-me pela vereda direita por causa dos meus inimigos.

12Não me entregues às almas dos que me atribulam: Porque se têm levantado contra mim testemunhas falsas, mas a iniqüidade mentiu em seu dano.[5]Porque se têm levantado contra mim testemunhas falsasAs mesmas que diziam a Saul: David quaerit malum adversum te; Davi intenta fazer-te mal. 1 Rs 24, 10. — Bossuet.

13Creio ver os bens do Senhor na terra dos viventes.

14Espera ao Senhor, porta-te varonilmente: E fortifique-se o teu coração, e está firme esperando ao Senhor.[6]Espera ao SenhorPalavras de quem exorta a sua alma. — Bossuet.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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