Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 37

Salmo deprecatório. Davi temendo a ira de Deus, a quem irritou pelos seus crimes, descreve o estado de humilhação e penitência em que se achava, pelo desamparo dos seus amigos e sublevação dos seus vassalos. Confessa-se pecador, e recorre à divina misericórdia.

1Salmo de Davi, em memória do sábado.[1]1SALMO DE DAVI — Êste salmo, que é um dos penitenciais, julgam alguns que fôra composto por Davi na revolta do Absalão, e manifesta perfídia dos seus, no que reconhece a divina vingança. Assim Bossuet. Outros, a quem Calmet segue, supõem composto êste salmo numa doença que padeceu depois do adultério com Betsabée. Os Santos Padres reconhecem aqui debaixo da figura de Davi a Jesus Cristo, reduzido ao estado de maior aflição pelas culpas dos homens. — Pereira. | EM MEMÓRIA DO SÁBADO — A Vulgata diz, In rememorationem de sabbato. O hebreu simplesmente, ad commemorandum, para memória, sem nomear sábado. Por onde atendido o hebreu, se pode traduzir assim êste título: "Salmo de Davi, para servir de monumento." Atendendo à Vulgata, o traduziu Calmet assim: "Salmo memorável de Davi para o dia de sábado." E que respeito diga êste salmo ao sábado, ou que sábado seja êste, é ponto em que ainda se não conformaram os Padres, e expositores. E assim seja êste um dos títulos sumamente escuros, que se acham no saltério. Tem onze estrofes.

2Senhor, não me repreendas no teu furor, nem me castigues na tua ira.

3Porque as tuas setas se me cravaram: E assentaste sôbre mim a tua mão.

4Não há parte sã na minha carne na face da tua ira: Não há paz nos meus ossos à vista dos meus pecados.

5Porque as minhas iniquidades se elevaram por cima da minha cabeça: E como carga pesada se agravaram sôbre mim.[2]2SE ELEVARAM POR CIMA DA MINHA CABEÇA — Isto é, me inundam até mais acima da minha cabeça. Sl 41, 8. Ou também excedem o número dos cabelos da minha cabeça. Sl 39, 13. — P. Scio. | SE AGRAVARAM SÔBRE MIM — Isto é, sôbre as minhas fôrças. — Pereira.

6Apodreceram e corromperam-se as minhas cicatrizes, à vista da minha estultícia.

7Eu me tornei miserável, e todo encurvado: Todo o dia andava oprimido de tristeza.

8Porque os meus lombos estão cheios de ilusões: E não há parte alguma sã na minha carne.

9Estou aflito, e grandemente abatido: Rugia pela fôrça do gemido do meu coração.

10Senhor, diante de ti está todo o meu desejo: E o meu gemido te não é oculto.

11O meu coração está conturbado, a minha fôrça me desamparou: E ainda o mesmo lume dos meus olhos não está já comigo.[3]3O MEU CORAÇÃO ESTÁ CONTURBADO — O hebreu diz com maior valentia: "O meu coração está palpitando," isto é, palpitando de pavor. — Bossuet.

12Os meus amigos, e os meus propínquos se chegaram, e se puseram contra mim. E os que estavam perto de mim, se puseram de longe:[4]4OS MEUS AMIGOS — Êstes versos e os que se seguem, pôsto que convenham a Davi, contudo confrontando-se com a história da Paixão do Senhor, escrita pelos Evangelistas, se vê claramente, que mais convém a Jesus Cristo, a quem os Santos Padres os aplicam. — P. Scio.

13E faziam seus esforços os que buscavam a minha alma. E os que me procuravam males, falaram coisas vãs: E todo o dia maquinavam enganos.

14Mas eu como um surdo não ouvia: E como um mudo que não abre a sua bôca.

15E tornei-me como homem que não ouve; e que não tem na sua bôca palavras com que se defenda.

16Porque em ti, Senhor, esperei: Tu me ouvirás, Senhor Deus meu.

17Porque disse: Nunca triunfem de mim meus inimigos: E enquanto meus pés estão vacilantes, falaram com orgulho contra mim.

18Porque aparelhado estou para os açoites: E a minha dor está sempre diante de mim.

19Porque eu publicarei a minha iniquidade: E meditarei sôbre o meu pecado.

20Mas os meus inimigos vivem, e se têm fortificado sôbre mim: E se têm multiplicado os que me aborrecem injustamente.

21Os que tornam males por bens, murmuravam de mim, porque eu seguia o que era bom.

22Não me desampares, Senhor Deus meu: Não te apartes de mim.

23Acode prontamente em meu socorro, Senhor Deus da minha salvação.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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